Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Sexta-feira, Julho 30, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Torres Novas: Os (des)amores de Broken Parts e da vida

O espetáculo “Broken Parts – De cortar à faca” estreia hoje, 13 de fevereiro, no Teatro Virgínia, um dia antes de se celebrar o amor partilhado. No entanto, não é deste sentimento que se fala, mas sim de corações partidos e das mazelas geradas na busca pela cara-metade. À falta de letrados no tema do (des)amor, decidimos falar com a responsável pelo projeto, Vera Alvelos, e os seis elementos da comunidade torrejana que nele colaboram e pedimos para desmistificarem a fase em que as rosas, os bombons e as flores oferecidos no Dia dos Namorados se tornam más memórias. Porque, no fundo, os especialistas somos todos nós.

- Publicidade -

O dia soturno é propício ao tema que Vera Alvelos apresenta este sábado em Torres Novas, o (des)amor. “Broken Parts” inspira-se na obra “A inocência dos objetos” do romancista turco Orhan Pamuk, galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 2006, e no Museu das Relações Acabadas/Terminadas em Zagreb, capital croata, que recebeu o prémio de museu mais inovador da Europa. A razão é simples, todos podem contribuir para o espólio, doando a peça deixada para trás pelo(a) ex ou que associam ao tempo vivido em número par.

À visão de Vera Alvelos sobre as histórias e interrogações relacionadas com o fim das relações juntam-se outras seis dos elementos da comunidade local que aceitaram o desafio de participar no projeto. Subimos as escadas para o primeiro andar do foyer do teatro, ao som de uma guitarra, decididos a conhecer cada uma dessas visões e a entrevista é feita em grupo num sofá perto das instalações artísticas que servirão de cenografias às histórias contadas sobre corações partidos.

- Publicidade -

Vera Alvelos, Marco Neves, Carla Pinto, Marta Tomé, Maria Amélia Maia, Miguel Viegas e Anisa Almeida
Vera Alvelos, Marco Neves, Carla Pinto, Marta Tomé, Maria Amélia Maia, Miguel Viegas e Anisa Almeida

A diversidade alimenta o espetáculo itinerante que adquire os traços das pessoas e localidades com quem se cruza. Vera Alvelos considera as vivências de cada participante “muito ricas”, contribuindo para cada história, não só através de opiniões e reflexões, mas também na forma como este a conta e da sua linguagem artística.

Uma guitarra, uma estante com livros e mealheiros, um parque infantil com umas luvas de boxe, loiça partida em cima de uma mesaPara a encenadora, dramaturga e formadora cada objeto tem uma história para contar e a história sobre o final de um amor é tão válida quanto as outras” que “é interessante abordar porque as pessoas precisam de falar para o expiar, para lidar com ele, para poder prosseguir”.

O gosto pelo teatro é partilhado por todos, tal como a ligação ao concelho de Torres Novas, seja pessoal ou profissional. Os seis elementos diferenciam-se nas experiências de vida que chegam a ter trinta e cinco anos de diferença e nos percursos profissionais. Carla Pinto está a desenvolver um negócio na área da alimentação, Miguel Viegas trabalha no ramo imobiliário, Maria Amélia Maia é professora reformada de Português e História, Anisa Almeida deixou a área da hotelaria e é pensionista, Marta Tomé é responsável pela escola “Corpo da Dança” e Marco Nunes é operador fabril.

Os objetos do quotidiano integram as instalações artísticas

Carla, 42 anos, e Anisa, de 30, são as mais entusiastas quando falam nos palcos, referindo a “paixão” e “um grande chamamento” aliado ao “gosto por fazer coisas novas”. Marta, 36 anos, partilha o interesse de ambas e refere que a oportunidade de trabalhar com Vera Alvelos foi uma forte motivação para participar em “Broken Parts”. Por seu lado, o responsável pelos acordes musicais que ouvimos anteriormente, Marco de 35 anos, defende que este tipo de projetos possibilita “um dos raros momentos que as pessoas têm para expressar a imaginação”.

Miguel, 40 anos, e Maria Amélia, com 65, aceitam os convites regulares para participarem nas iniciativas do Teatro Virgínia. Ao primeiro trazem-lhe “experiências boas” e à segunda, que faz parte do Teatro Meia Via – Associação Cultural de Torres Novas, dá-lhe “gosto trabalhar com jovens”. Neste caso, o gosto é a dobrar pois trata-se de um reencontro. Todos trabalharam juntos em projetos anteriores e a cumplicidade sente-se, mas os “cafés” já não são marcados com a frequência desejada. O tempo escasseia entre os horários laborais e outras ocupações, como a prática de atletismo de Marco ou o trabalho que Anisa desenvolve na Associação MEMMT – Movimento Esclerose Múltipla do Médio Tejo.

O Teatro Virgínia é encarado pelo grupo como um ponto de encontro privilegiado, apesar da exigência do projeto. Não apenas pelos ensaios nos três dias que antecederam a estreia, mas também pelos espetáculos que, além do de dia 13 para o público geral, se realizarão entre 16 e 19 de fevereiro para os alunos do terceiro ciclo e secundário. Acrescem os ateliers de escrita criativa depois das representações que, no caso do público escolar, terão lugar na Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes. Carla complementa, em tom de brincadeira, que se trata de um mal menor pois a qualidade da equipa é inquestionável.

DSCF1681 (2)
O primeiro andar do foyer é palco e espaço de exposições

Passemos então do amor pelas artes cénicas aos (des)amores da vida, tema central de “Broken Parts, e a forma como cada um traduziu as suas experiências nas histórias que Vera Alvelos idealizou com base no que foi ouvindo e pesquisando. Nenhuma é totalmente verdadeira ou ficcional, resultando na “mistura das duas possibilidades” enriquecida, por exemplo, com uma música de Leonard Cohen ou um poema de Mário Cesariny.

Miguel salienta que “não falamos dos nossos casos”, mas sim dos que lhes são apresentados. Apesar de não se tratar de “algo pessoal”, assume que as vivências de cada um acabam por vir ao de cima. Menos nas instalações e mais na representação. Marta complementa a ideia com o facto de não haver “quem não tenha vivido uma experiência de desamor” e que muitas voltam “para nos assombrar”.

Para Maria Amélia, o tema é “transversal à vida de todos” e nem sempre se lida bem “com esse desamor, com a vontade de algum dos dois se querer libertar de um amor que já não lhes diz nada”, levando por vezes ao extremo da violência. A forma pausada como fala revela a experiência de vida “Ninguém aprendeu nem em casa, nem na escola a remendar os corações e nem todos conseguiram dar a volta”. Anisa concorda sobre o facto dos (des)amores se multiplicarem ao longo da vida até à descoberta “do grande amor, que encaixa de forma perfeita”, mas relembra que “Nunca sabemos. Pode até encaixar, depois desmorona-se tudo”.

DSCF1691 (2)
Os ensaios aliam o gosto pelo teatro à amizade

Marco e Carla decidem optar pelo suspense e pouco ou nada revelam sobre as respetivas instalações, apenas descobrimos que estão relacionadas com a tristeza do abandono numa guitarra quase muda, numa alusão à Rita da música de Chico Buarque, e as interferências da sogra. As razões da separação e da união, a gota de água que faz transbordar o copo, os filhos como campo de batalha, as expetativas defraudadas, a influência das questões financeiras na vida do casal ou os esqueletos das relações terminadas que persistem em manter-se no armário são outros temas abordados no espetáculo.

Vera Alvelos descreve o projeto, um dos oito apresentados no seu blog “Fábulas de Ama”, como uma “incursão” pelo teatro, as histórias e as artes plásticas “num contexto não convencional”. O nome do blog deriva da expressão utilizada por Platão para descrever o conhecimento passado entre gerações de forma informal. Outra referência ao filósofo grego surge com o Mito do Andrógino, apresentado na obra “O Banquete”, que está presente nas diversas instalações espalhadas pelo foyer do Teatro Virgínia.

O livro descreve um diálogo sobre “eros”, o amor, no qual Aristófanes conta que outrora existiam três géneros de seres com oito membros e duas cabeças. Andros tinha duas cabeças masculinas, Gynos duas cabeças femininas e Androgynos uma cabeça masculina e outra feminina. A certa altura foram castigados por Zeus que decidiu dividi-los ao meio como forma de os enfraquecer. As metades espalharam-se pelo mundo e por cá andamos todos na eterna busca pela alma gémea.

DSCF1682 (2)
A música e a dança também estão presentes no projeto

Cada rutura confirma que o outro não era a metade que encaixava na perfeição para recriar o ser pleno que existiu em tempos e, segundo a responsável de “Broken Parts”, traduz-se muitas vezes na oportunidade para “uma pessoa pensar sobre o que aprendeu com o final de uma relação” e “se questionar sobre o que pretende”. Um coração partido nada mais é do que “a passagem de um amor para o outro”.

Sejamos realistas, nem todos terão o privilégio de encontrar a sua metade entre os mais de sete mil milhões de habitantes no planeta e o Museu das Relações Acabadas/Terminadas continuará a receber doações. No entanto, vamos evoluindo com os erros e todos aqueles que amanhã se sentirem incompletos podem ser reconfortados pela ideia de que a busca não é em vão. Alguém também anda à sua procura e por vezes o mundo revela-se tão pequeno…

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome