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Sábado, Julho 31, 2021

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Torres Novas | O Pai Natal existe mesmo e vive em Torres Novas

Se estiver a tomar um café, na fila das Finanças, a visitar um familiar no Hospital ou nas compras de Natal e for recebido por um Pai Natal de guitarra, não se surpreenda. É João Carvalho, a voz da Rádio de Torres Novas, que há três anos incorpora de livre iniciativa o São Nicolau e passeia pela cidade a distribuir música e boa disposição. De boa vontade e vocação, porque João Carvalho, 60 anos, é um verdadeiro Pai Natal: as barbas são naturais, assim como a barriga, sem qualquer maquilhagem. As músicas que entoa são muitas vezes seus originais. Para quem duvidava, o Pai Natal existe mesmo e vive em Torres Novas!

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Olhos transparentes, pele rosada, barba branca comprida, barriga saliente, cabelo branco. As vestes vermelhas e o gorro apenas vêm completar o figurino. Uma jovem, certo dia, num restaurante, pediu a João Carvalho que tirasse uma foto com ela, pois havia descoberto que o Pai Natal existia. A ideia ficou, constatadas as efetivas semelhanças, e há três anos o antigo professor de música decidiu encarnar o papel e surpreender com a sua guitarra as pessoas que nos cafés, repartições públicas ou no Hospital vêem lentamente passar a época sem grande espírito festivo. Em 2015, foi inclusive cantar as Boas Festas ao presidente da Câmara de Torres Novas, Pedro Ferreira.

“Pai Natal, Pai Natal. Quero uma Playstation 4 e uma Canon para o Natal, pode ser?”

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Encontramo-nos na Quinta da Silvã, perto de uma creche onde João Carvalho vai surpreender um conjunto de crianças mais ao fim da tarde. Caminhamos pela estrada até ao Café “Cantinho Amarelo” quando um rapaz, dos seus 12 anos, aborda João Carvalho. Um pouco mais afastado, o colega da mesma idade grava com o telemóvel o encontro. João Carvalho cumprimenta o jovem com um “oh oh oh” e diz que vai pensar no assunto.

Ao longo do percurso são muitas as crianças – e adultos – que o saúdam. Mesmo quem não acredita no Pai Natal não consegue passar indiferente à figura de João Carvalho.

João Carvalho entra nos cafés e nas repartições públicas sem avisar e canta músicas de Natal. FOTO: mediotejo.net

Chegados ao “Cantinho Amarelo”, o Pai Natal tira a guitarra do estojo e começa a cantar. Quem está presente ri-se, canta também e agradece o momento natalício. “Ainda bem que veio, tenho pena não haver mais clientes”, comenta encantada a proprietária. João Carvalho lamentará posteriormente não ter parado também nas Finanças, um pouco mais acima, antes da repartição fechar. É este o seu estilo: chega de surpresa, sem nada marcado, e começa a cantar para os que aguardam numa fila ou bebem um café. É um atitude voluntária, que não espera nada em troca, que quer apenas viver e criar alegria na quadra natalícia.

O gesto é por norma bem recebido, até com alguma alegria. O que a maioria das pessoas não sabe é que existe uma razão biológica para João Carvalho ser tão parecido à imagem icónica do São Nicolau. Com família na Brogueira, mas natural de Lisboa, João Carvalho nasceu albino, ou seja, não possui pigmentação na pele, no cabelo e nos olhos. A característica é comum a mais dois dos cinco irmãos que possui e ao longo da vida marcou o seu crescimento, a aprendizagem, a convivência social e até a carreira profissional.

Em 2015, João Carvalho foi cantar as Boas Festas à Câmara de Torres Novas. FOTO: João Carvalho

“Tive muitos problema a estudar”, admite ao mediotejo.net, tendo concluído a formação básica relativamente tarde, aprendendo a ler por meio do braille devido aos efeitos do albinismo na visão. Ainda assim, como frequentava o Conservatório e percebeu que tinha jeito para a música, conseguiu tornar-se professor de música, profissão que lhe permitiu pagar os estudos e criar um carreira de 35 anos na docência. “Na altura estava no Conservatório e havia falta de professores de música e consegui colocação em Queluz”, na escola EB 2/3 D.Pedro IV.

Enquanto professor começou a compor músicas. De Natal, mas também relacionadas com as diversas épocas escolares, como o Dia da Árvore, os Descobrimentos ou o Dia Mundial da Criança. “Fiz o hino da escola”, recorda.

A ligação a Torres Novas foi intermitente. “Os meus pais eram da Brogueira e vinha cá passar as férias e ficava com a minha avó. Antes de reformar-se comecei a voltar e entusiasmei-me com o coro da Brogueira. Vinha aos fins-de-semana, estava sozinho. Entretanto apaixonei-me, casei-me e comecei a estar por cá”, relata. Ao mesmo tempo, começou a emprestar a voz à Rádio de Torres Novas, fazendo alguns programas e rubricas informativas. Sendo uma pessoa muito marcada pelo albinismo e algum preconceito social, admite gostar bastante da atividade e do impacto da sua voz forte em quem houve a estação. Mas “não sou jornalista”, frisa, sendo apenas um colaborador, que acabaria por tornar-se acionista da rádio.

Há três anos surgiu o Pai Natal. A ideia foi da esposa, Isabel, que constatou o óbvio: “as barbas brancas, a pele rosada. Tu davas um bom Pai Natal”. Decidiram experimentar a brincadeira, mandando fazer um fato à medida numa modista na Brogueira. “Nos chineses os fatos são finíssimos, o Pai Natal é um homem grande”, salienta, estrutura física robusta que também possui. A primeira experiência foi no Centro de Bem-Estar Social da Zona Alta e nunca mais parou.

“Contei que era professor de música, reformado e não queria dinheiro”, recorda. “Faço estas coisas mais por divertimento e as pessoas gostam”. Em 2015 foi cantar as Boas Festas à Câmara de Torres Novas, guardando do momento algumas fotografias com Pedro Ferreira. Este ano quer passar pelo Hospital de Torres Novas, levando o espírito natalício a quem passa por momentos de dificuldade. Tenciona ainda repetir as brincadeiras de outros anos, entrando nas lojas a tocar a sua guitarra. “As pessoas andam tão tristes, também precisam de uma palavra amiga”, comenta.

Numa creche em Torres Novas, João Carvalho foi convidado a tocar e a entregar presentes aos mais pequenos. FOTO: mediotejo.net

Noutras ocasiões “brinco com as crianças, dou a minha disponibilidade e dou os meus CDs”, refere, lembrando que este ano já esteve a ouvir os mais novos na Praça do Peixe. Nunca teve filhos e reconhece que ser pai atualmente será difícil. Ao seu colo as crianças pedem brinquedos; ao passar pelas ruas, os adultos, das janelas, dos carros, questionam-lhe pelos presentes deste ano. Comenta que o Pai Natal não é uma personagem muito consensual, muitas crianças já não acreditam e, por vezes, são mesmo os mais velhos que acham mais piada à sua atuação.

Já João Carvalho prefere mesmo cantar, sobretudo as músicas que vai criando e que lhe surgem em momentos inesperados de inspiração. Um dos seus sonhos seria ir a um programa de televisão como Pai Natal, mostrar as suas canções e a sua mensagem, mas nunca teve essa possibilidade.

Para já vai ficando por Torres Novas. No dia de Natal deixará então a personagem de lado, para atuar já apenas ao órgão, durante a missa da Igreja de Brogueira.

 

 

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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