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Sábado, Setembro 25, 2021

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À Descoberta | O guardião das fabulosas lendas das Lapas

O seu nome é Vítor Ferreira, 85 anos, nascido e criado em Lapas, sede de extinta freguesia a dois quilómetros de Torres Novas, mas todos o conhecem por Vítor “Cartaxo”. Há cerca de três décadas convidaram-no para ser o guia do espaço a que hoje chamam “Grutas das Lapas”, por aí se situar um labiríntico conjunto de cavidades (lapas), escavadas pela mão do homem e que adquiriram o aspeto de grutas. É ele que guarda a chave e abre a porta sempre que há visitas. Aos turistas narra as lendas que a tradição popular lhe foi deixando. Quando lhe dizem que não existem provas das histórias que conta, defende-se que verdades há muitas e, para mais, nada foi escrito que venha afiançar o contrário!

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Há quem defenda que a Verdade não é mais que a construção cultural de uma realidade e que, no nosso uso diário, facilmente moldamos o Ser ao que ele nos Parece. Vítor “Cartaxo” estará longe de conhecer tal filosofia, mas parece partilhar dela à medida que vai narrando as lendas de que dizem ser portador. Sabe que o criticam e que dele discordam, confessa que já teve trocas de palavras mais acesas com alguns especialistas do património. Mas também é verdade que toda a vida ali viveu e conheceu de perto alguns dos momentos que marcaram a história da sua terra.

Vítor "Cartaxo" é guia nas Grutas das Lapas há cerca de 30 anos. foto mediotejo.net
Vítor “Cartaxo” é guia nas Grutas das Lapas há cerca de 30 anos. foto mediotejo.net

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Foi em 1987, tinha então 56 anos, que se tornou o guia destas grutas artificiais, criadas com a exploração local do tufo calcário. “Fui sempre uma pessoa entusiasmada a falar das grutas e ganhei uma amizade por elas”, começa por explicar, referindo que contava lendas aos amigos sobre o espaço. Diz que o lugar tem quatro mil anos. “Dizem que se encontrou um cadáver no Morro da Ossada, junto da Fábrica de álcool, com quatro mil anos, e julgo que vem daqui”, refere (as ossadas estão datadas de 4000 a.C., ainda no período neolítico).

Vítor “Cartaxo” fala desta descoberta e de outras que marcaram a cronologia das grutas. Uma dessas histórias é da Nossa Senhora da Vitória, imagem que terá sido encontrada escondida entre a pedra. O guia mostra inclusive um pequeno postal, com a estátua que está atualmente na Igreja de Lapas. “Conto a história e mostro a imagem”, explica.

“Dizem que as tropas da Primeira Guerra se meteram nos túneis do Castelo” de Torres Novas, túneis esses que teriam acesso às Grutas das Lapas. “Dizem que quando abriram as Grutas depois da guerra encontraram só ossadas e a imagem de Nossa Senhora da Vitória”, continua.

Vamos tentando seguir a ordem dos acontecimentos, ainda que já meio baralhados pelas datas defendidas em reportagem anterior. Vítor “Cartaxo” torna a salientar que só depois da primeira grande guerra se soube da existência das grutas (foram investigadas a partir dos anos 30). “Conto às pessoas que quando começaram a cavar queriam descobrir algum minério”, revela, “conto às pessoas como picavam” a pedra. Para este guia característico “isto são catacumbas ou cavernas, não são grutas”. “Não sei se é verdade ou mentira, é o que sei”, afirma.

“Conto que depois de isto estar aberto se vinha para aqui brincar à luz da candeia”, começa a recordar, “só em 1044 veio a luz verdadeira e começaram-se a fazer aqui romarias”. “No 25 de abril estive aqui a cantar a Vila Morena, dois dias a comer e a cantar”, afirma. Zeca Afonso e Catarina Furtado foram alguns dos famosos que viu passar por aquele lugar e refere que já ali se gravaram sete filmes, num dos quais ele próprio fez uma participação (refere-se ao filme “Tabu”, de 2012).

A vida de Vítor “Cartaxo” envolve-se com a das Grutas. Aos turistas também conta dos namoros escondidos nos labirintos das lapas.“Tenho  histórias de namoricos”, comenta rindo, “eu fiz aqui o meu namorico, que durou 64 anos, e ainda fui à tropa e vim”, mas a esposa já morreu. “Brinco com as pessoas e conto estas histórias” continua o trovador, que por 23 anos foi coveiro e há 30 guarda as lendas das lapas, por muito que insistam que não são verdadeiras.

“Não está nada escrito”, defende-se, tão verdadeira é a sua história como a que outros contarão. Enquanto não chega a prometida valorização das Grutas das Lapas, por ali se vai mantendo no seu emprego casual, contando as lendas da sua terra aos turistas que as quiserem conhecer. “Já tem acontecido irem-me chamar junto ao rio. Vou com certeza”, afirma. “Estou por aqui até às 15 horas, mas se for combinado estou à espera à hora certa”.

*Artigo publicado originalmente em setembro de 2016

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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