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Torres Novas | Nos 100 anos do PCP, militantes mantêm o espírito de luta pelas vítimas do capital

“A luta continua”, hoje tal como há um século. Este sábado, 6 de março, o Partido Comunista Português (PCP) celebrou os 100 anos da sua fundação com uma centena de ações espalhadas por todo o país. Na região, o local escolhido foi Torres Novas, onde várias caras das núcleos locais se reuniram na Praça dos Claras para uma breve momento de celebração. À saída, apesar da rápida desmobilização devido às regras da pandemia, o mediotejo.net perguntou a novos e velhos porque ainda vale a pena ser comunista. A resistência e a luta pelos trabalhadores continuam a ser as palavras de ordem.

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A pergunta foi um pouco provocatória: ao fim de 100 anos, com toda a história que o partido carrega, porque se é comunista?

José Pratas recorda o passado de desigualdades sociais e os direitos conquistados que estão em risco de ser perdidos Fotografia: mediotejo.net

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José Pratas, 68 anos, natural de Abrantes, emociona-se. “Os meus primeiros passos foi sentir na família da minha avó, e depois na dos meus pais, a dificuldade que eles tinham em nos alimentar. Comecei a trabalhar aos 13 anos, em 1966. Senti na pele o que era a exploração dos patrões, neste caso no setor metalúrgico, que nos pagavam a seu belo prazer. Não havia contratos coletivos de trabalho e nós sentiamos-nos um poucos abandonados”, recorda. As coisas melhoraram com o 25 de abril, tendo-se alcançado melhorias a nível laboral que, hoje, as camadas mais jovens estão a perder. Por isso, reflete, pelas filhas, vale a pena continuar na luta.

Para o ex-vereador Carlos Tomé, a luta continua Fotografia: mediotejo.net

Autarca torrejano, ex-vereador pela CDU, Carlos Tomé frisa que “o futuro apresenta-se com trabalho” e para o partido continuar é preciso continuar a luta. Mas aponta para duas figuras à sua frente, históricos elementos do PCP de Torres Novas, ambos presos políticos durante a ditadura. Ali sim, iremos encontrar o porquê do comunismo estar vivo ao fim de um século.

António Antunes Canais
António Antunes Canais, histórico comunista torrejano, antigo preso político, frisa que o PCP é o grande defensor dos trabalhadores Fotografia: mediotejo.net

O primeiro é António Antunes Canais, de Torres Novas. “O partido nunca há-de morrer”, frisa. “Não há nenhum partido que defenda tanto os trabalhadores, a classe operária, os camponeses, como o PCP”, refere, salientando a força destes ideais.

José Ribeiro esteve preso em Caxias. Lembra que a liberdade que usufruímos é fruto da luta comunista Fotografia: mediotejo.net

Ao seu lado, o também torrejano José Ribeiro afirma que o comunismo “é o único caminho de luta pela liberdade e pela justiça social”. “Se está aqui a falar livremente foi graças à luta dos comunistas, no tempo em que havia uma mordaça e quem falava fora do texto era preso”, recorda, lembrando que na sua juventude se era mobilizado para a guerra sem se perceber porque se lutava.

A luta dos comunistas contra a guerra trouxe a liberdade, defendeu. “Quem ganha com a guerra é sempre o grande capital”, conclui.

A luta pelo bem comum é o ideal comunista que move Manuela Arsénio Fotografia: mediotejo.net

De Constância, Manuela Arsénio afirma: “Se não valesse a pena não estávamos aqui. Temos que continuar a lutar por aquilo que nos move e o que nos move é o bem estar de todos”, reflete. “Temos que ter valores e objetivos para continuar nesta luta, que é desigual.”

Para Margarida Oliveira, uma das poucas jovens presentes, a luta ainda está por fazer Fotografia: mediotejo.net

Num encontro onde dominou a presente de uma geração já mais idosa, a jovem Margarida Oliveira considera que “está a luta ainda por fazer”. Isso “está patente nas dificuldades que a população sente no dia a dia”, agravadas no cenário de pandemia. A perda de postos de trabalho, o desregulamento de horários com o teletrabalho, entre outros problemas, só mostram que “mais do que nunca a intervenção do PCP é mais do que necessária, é imperiosa, para de uma vez por todas percebermos que são os trabalhadores que geram a riqueza no país e que têm direito a que essa riqueza seja valorizada nas suas vidas”.

A ação torrejana contou com algumas intervenções, nomeadamente de Nuno Guedelha, do PCP de Torres Novas, Sérgio Rodrigues, da Juventude Comunista Portuguesa, e, a fechar, Rui Fernandes, da Comissão Política do Comité Central. A luta pela liberdade e pela democracia na longa história do partido foram os temas transversais às três intervenções, assim como a defesa dos trabalhadores “do capital selvagem” e da “exploração do homem pelo homem”.

“Somos imprescindíveis e decisivos no avanço para uma sociedade mais justa e fraterna”, defendeu Nuno Guedelha, considerando que “só com o PCP” o concelho de Torres Novas “tem futuro”. “Onde há um comunista há uma luta”, destacou Sérgio Rodrigues. “Nos últimos 100 anos os comunistas foram agentes ativos das transformações” sociais, frisou Rui Fernandes.

Estiveram presentes algumas dezenas de pessoas, que cantaram “Avante camaradas” e gritaram “a luta continua”, com renovada convicção. A PSP circulou discretamente em torno da Praça dos Claras durante a sessão.

100 ANOS DE LUTA

Dirigentes do PCP que integraram o núcleo central que assegurou a direcção do trabalho do Partido durante largos anos na clandestinidade e no processo da Revolução de Abril. Da esquerda para a direita, sentados: Octávio Pato, Álvaro Cunhal, José Vitoriano, Joaquim Gomes e Blanqui Teixeira; de pé: Jaime Serra, Sérgio Vilarigues e Dias Lourenço (foto de Eduardo Gageiro de Outubro de 1998 oferecida pelo autor ao PCP e publicada pela primeira vez no Avante! de 22 de Abril de 1999)

O PCP foi criado em 6 de março de 1921, em Lisboa, e teve, ao longo da sua história, cinco secretários-gerais, tendo Álvaro Cunhal sido o mais marcante, durante 32 anos, entre 1961 e 1992. O primeiro, de 1921 a 1929, foi José Carlos Rates, seguindo-se Bento Gonçalves, de 1929 a 1942. Da década de 1940 a 1961 houve um período sem secretário-geral, antes de Cunhal ser escolhido. Carlos Carvalhas foi líder do partido de 1992 e 2004, ano em que foi escolhido Jerónimo de Sousa. A história do partido em Portugal está inevitavelmente ligada à resistência ao fascismo durante o Estado Novo e à resistência na clandestinidade, tendo tido ainda uma grande influência no Período Revolucionário em Curso (PREC), em 1975.

 

O Partido Comunista Português foi criado numa reunião, em 06 de março de 1921, na sede da Associação dos Empregados de Escritório, na Rua da Madalena, n.º 225 – 1.º, em Lisboa, um prédio que ainda hoje existe, perto da Sé e da sede do CDS, e daí saíram os primeiros órgãos nacionais: Junta Nacional, Comissão Geral de Educação e Propaganda e Conselho Económico (o comité central só foi criado no I congresso, em 1923).

Em 1921, vivia Portugal os tempos conturbados da I República, os “ventos” da revolução dos bolcheviques de Lenine vindos da Rússia e teve várias tentativas de organização, uma delas na Federação Maximalista Portuguesa (FMP), dos comunistas portugueses que, em 1920, já se manifestavam junto do café A Brasileira do Rossio, em Lisboa.

Num ambiente de grande antagonismo entre sindicalistas, anarquistas, socialistas e comunistas, o PCP veio, segundo os historiadores, dar alguma unificação a estes movimentos de contestação.

O I congresso aconteceu logo em 1921 e num ambiente de desentendimentos e rivalidades, a ponto de ter sido o enviado de Moscovo, da III Internacional Comunista, ou Cominterm, a evitar mais divisões no partido, a pôr ordem e a apoiar a liderança de José Carlos Rates, primeiro secretário-geral do PCP.

O golpe de 28 de maio de 1926, que pôs fim à I República, e iniciou um período de ditadura, fundador do Estado Novo, apanhou o PCP em congresso, cujos trabalhos foram interrompidos.

Pouco depois, o partido passou à clandestinidade e atravessou um período conturbado de agitação e desorganização, sendo abalado por uma onda de prisões, a ponto de a Comintern ter cortado relações em 1938, que só começam a ser retomadas em 1947, numa altura em que Álvaro Cunhal estava em ascensão na estrutura dos comunistas. 

É Bento Gonçalves, o líder operário que morreu em 1942 no campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, a lançar a primeira reorganização do partido. A tensão entre os grupos da linha leninista e de Júlio Fogaça, defensor da “política de transição”, prolongou-se durante anos, mas foi Cunhal quem foi vencendo batalhas para impor a sua orientação no IV congresso, realizado na Lousã.

Em 1949, Cunhal, Militão Ribeiro e Sofia Ferreira são presos. Um deles, Militão, morre na prisão depois de uma greve de fome. Álvaro Cunhal é condenado em tribunal plenário, mas consegue escapar na famosa fuga de Peniche.

Na clandestinidade desde então, vai viver para o exílio e é eleito secretário-geral do partido no congresso de 1961, em Moscovo, que corrige o chamado “desvio de direita”, de Júlio Fogaça, que, entretanto, fora preso.

Seguem-se anos de repressão em Portugal, detenções, mas também de oposição ao regime, em anos marcados pela Guerra Colonial, que começou em 1961, sendo até esses anos o PCP o único partido organizado a fazer frente a Salazar e depois Marcelo Caetano.

A Ação Revolucionária Armada (ARA), estrutura armada do partido, é formada em 1964, mas só seis anos depois, em 1970, lança a primeira ação, em Lisboa, contra um navio que ia transportar armas para África, numa altura em que surgem as cisões no partido, maoístas.

Nesses anos, o país vive várias ondas de greves, os estudantes revoltam-se e surge a crise académica de 1969, em Coimbra, de contestação ao regime.

O ano de 1973 significou alguma aproximação entre o PCP e o PS, fundado por Mário Soares. Por esses dias, já um grupo de oficiais se organizava no Movimento das Forças Armadas (MFA) para derrubar a ditadura, o que acontece em 25 de abril de 1974.

A “Revolução dos Cravos” ocupou as ruas de um país que recebeu Cunhal seis dias depois do golpe, em 30 de abril. O discurso de Cunhal, ao lado de Soares, ainda longe das divisões que os iriam afastar durante os meses seguintes, foi feito rodeado de militares e em cima de um blindado.

Álvaro Cunhal numa ação de campanha da CDU, em 1987. Fotografia: Arquivo DN

Os comunistas participam nos sucessivos governos provisórios e vão apoiando as “conquistas de Abril”, umas mais revolucionárias do que outras, como a Reforma Agrária e a ocupação de terras no Alentejo, enquanto se sucedem crises e tentativas de golpe, à direita, como a “manif” da “maioria silenciosa”, de apoio a Spínola, em 28 de setembro, ou o 11 de março de 1975, inspirado pelo general do monóculo, que levou a uma “guinada” à esquerda, com a nacionalização da banca e seguros.

Foi uma “revolução vermelha” em que o país viveu na “ponta das espingardas” no chamado Verão Quente de 1975, como aconteceu na “dramática aventura” do 25 de novembro de 1975, o enfrentamento entre o chamado “grupo moderado” e a “esquerda militar”.

O apoio do PCP ao lado revolucionário ainda hoje alimenta polémicas. No Palácio de Belém, o presidente Costa Gomes vai adiando e negociando para acalmar os ânimos: com os militares “revolucionários”, com o PCP, para não sair às ruas e não apoiar a “aventura” dos paraquedistas.

Seguem-se anos de recentramento da parte do partido de Cunhal que elege como bandeira a defesa das “conquistas de Abril”. Em democracia, os comunistas tornam-se um partido institucional, parlamentar e autárquico, que viu os seus resultados eleitorais num sobe e desce, com sucessivas perdas eleitorais nos últimos anos.

Partido próximo da URSS e dos países do Bloco de Leste, que começam a desmoronar com a queda do Muro de Berlim, em 1989, vive momentos delicados no final da década de 1980 e anos 90, com as dissidências várias, como a expulsão de Zita Seabra, ou ainda nos anos 2000 com a expulsão dos “renovadores” de João Amaral, Edgar Correia e Carlos Luís Figueira.

Cunhal morreu em 2005, 13 anos depois de ter deixado a liderança do partido, que foi sucessivamente ocupada por Carlos Carvalhas (1992-2004) e Jerónimo de Sousa (desde 2004).

Se o PCP só teve poder autárquico, além de participar nos governos provisórios, 2015 assinala um marco: o apoio parlamentar, juntamente com os Verdes e o BE, a um governo do PS que ficou conhecido por “geringonça”, mas a que os comunistas chamaram “nova fase da política nacional”.

*C/Lusa

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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1 COMENTÁRIO

  1. Estiveram crianças e vários jovens da Juventude Comunista Portuguesa presentes, aliás bem mais jovens que eu, como eu lhe referi, antes de responder à pergunta que me colocou!
    Dizer que eu era uma das poucas jovens presentes é talvez um tanto ou quanto exagerado…

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