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Quinta-feira, Janeiro 20, 2022
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Torres Novas | No coração da Fabrióleo ninguém entende como se tornou o “vilão” da poluição

Depois das manifestações, das denúncias de poluição pelos ativistas, das queixas por ameaças de vizinhos e ambientalistas, das várias inspeções e condenações das autoridades ambientais e dos processos em Tribunal, a empresa de óleos vegetais Fabrióleo, em Torres Novas, já não consegue tornar indissociável o seu nome da poluição da ribeira da Boa Água e da ribeira do Serradinho. Ainda assim, os responsáveis pela empresa afirmam-se o bode expiatório de um problema muito mais extenso, que passa pela ausência de saneamento na zona do Carreiro da Areia e a existência de uma multiplicidade de unidades industriais que não têm sistemas de tratamento de resíduos. Fica assim uma questão por responder: porque piorou tanto a poluição nos últimos dois anos?

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A Fabrióleo situa-se logo à entrada da aldeia do Carreiro da Areia. Ainda que não tenha uma identificação visível, o cheiro intenso da produção e reciclagem de óleos vegetais não levanta dúvidas quanto à natureza do edifício. É uma fábrica, com todas as características comuns a várias fábricas: chaminés altas, muitos funcionários, problemas, ambientais e de implantação, no historial.

Há quem defenda a empresa ou opte por uma posição mais neutra enquanto não se definem com objetividade os reais culpados da poluição – neste caso, o cheiro e a contaminação da água. Mas são mais, muitos mais, os que apontam o dedo à empresa e não hesitam em dá-la como culpada da poluição.

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Face às muitas notícias dos últimos dois anos, impunha-se um trabalho que desse voz à Fabrióleo. O mediotejo.net pediu uma entrevista aos responsáveis e visitou também a fábrica, recentemente. A poluição, as ameaças a vizinhos e ambientalistas e a legalidade da ETAR biológica eram várias das questões que tínhamos listadas e que colocámos ao gestor, Pedro Gameiro, na presença do gabinete de comunicação e dos dois investigadores da Universidade Nova de Lisboa que se encontram a fazer um estudo sobre o impacto da empresa no seu meio envolvente.

No decorrer da visita somos informados sobre as particularidades do trabalho desenvolvido pela fábrica e do tratamento de resíduos. Mas por se tratar de informação muito técnica, que carece de conhecimentos prévios sobre a área, não iremos reproduzir, sob pena de induzirmos em erro o leitor. Constatamos que a fábrica está a laborar, tem uma ETAR por sistema de evaporação de duplo estágio, complementada por uma ETAR fisico-química e atualmente uma ETAR biológica. Aqui são tratados, afirmam-nos, os cerca de 50m3 por dia de efluentes definidos por lei. A funcionar 24 horas por dia, todos os dias da semana.

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Ficam a faltar os registos fotográficos dos entrevistados. Pedem-nos que não os fotografemos para proteger a família.

mediotejo.net (MT): Nos últimos anos tem havido uma onda de manifestações relacionadas com a poluição. Não sendo a única, a Fabrióleo tem sido apontada como a grande poluidora, nomeadamente da ribeira da Boa Água e da ribeira do Serradinho. A Fabrióleo polui?

Pedro Gameiro (PG): A Fabrióleo, como qualquer empresa ou indústria em Portugal, polui. Só que polui o que é autorizado a poluir. Relativamente à parte das manifestações, eu entendo que a Fabrióleo encaixa perfeitamente como bode expiatório para a realidade do concelho de Torres Novas. Não quero de todo acusar ninguém. Mas a Fabrióleo serviu ou tem servido para encobrir a realidade. Eu acho muito estranho fazerem uma manifestação a queixarem-se de odores, as pessoas que organizam a manifestação sabem de onde vem o cheiro, porque estão a 100 metros dele, e acusam uma fábrica que está a sete quilómetros. (…) Tudo fazemos para que a nossa poluição seja o menor possível, que seja controlada, e que esteja dentro dos parâmetros a que estamos obrigados.

Divisão onde se realiza a reciclagem dos óleos usados. Foto: mediotejo.net

Acho muito estranho que empresas iguais à Fabrióleo não poluírem. Estamos a falar da única empresa que tem ETAR em Torres Novas, a seguir à Renova. Em Torres Novas há duas empresas com ETAR: é a Renova e a Fabrióleo. Isto é uma coisa que é pública!

MT: Outra questão que tem ido recorrentemente às reuniões e assembleias municipais é a população que se vai queixar de receber ameaças da parte da Fabrióleo. O que tem a comentar a este respeito?

PG: Acho isso completamente ridículo, absurdo. A Fabrióleo nunca ameaçou ninguém. Não é a nossa política, não temos esse tipo de comportamento, nunca tivemos. Só que isso é a maneira mais fácil de difamar as pessoas. As pessoas que têm dito isso que provem. Aliás já há alguns processos em tribunal contra essas pessoas. Porque é de lamentar que continuem a difamar pessoas que não têm nada a ver com isto. Nós não temos nada a ver com o que se passa aí na rua. Os administradores da Fabrióleo têm recebido inúmeras ameaças de morte. É por isso que não queremos fotografias a nós próprios. Porque diariamente nós recebemos cartas, mensagens… A Fabrióleo nunca ameaçou ninguém. Não faz sentido. Não criem bichos papões, não levantem falsas calúnias às pessoas.

MT: Têm recebido ameaças de morte?

PG: Sim, sim. Em 14 de setembro de 2015, para ter uma ideia, houve um carro que se atravessou aqui à frente de um carro nosso, à hora do almoço, e apontou uma pistola a quem lá vinha dentro. Por acaso não era eu; mas o carro era meu, era o meu carro do dia a dia. Lá dentro vinham duas pessoas que foram ameaçadas com uma pistola, aqui à hora do almoço. Entre outras coisas, que estão todas documentadas, queixas apresentadas nas autoridades competentes. Há aqui uma série de coisas por trás disto tudo que nós não entendemos.

MT: A que acha que se deve então esta onda de contestação contra a fábrica?

PG: Não entendo. Tenho dificuldade em entender o comportamento de certas pessoas. Também acredito que isto é uma coisa que está restrita a um número quantificado de pessoas. Estamos a falar de um movimento social organizado aí por cinco, seis pessoas no máximo. Que sejam investigadas. Que a vida dessas pessoas seja investigada.

MT: Falou há pouco da questão da ETAR, que só a Fabrióleo e a Renova é que tinham. Na última semana surgiu informação sobre este tema: a Fabrióleo viu atestada em tribunal a legalidade da ETAR, a Câmara de Torres Novas diz que nunca passou qualquer licença. Qual é afinal a situação da ETAR da Fabrióleo?

PG: Relativamente a essa situação, para a Fabrióleo, com base num documento oficial emitido pelo Tribunal Administrativo e Fiscal de Leiria, a ETAR da Fabrióleo está legalizada, de acordo com o documento que nós temos, que é do tribunal. Nós obedecemos às ordens do tribunal, para nós ela está legalizada. O que é que outras entidades pensam ou têm a dizer, eu não vou responder sobre isso. Para a Fabrióleo, de acordo com o documento oficial, está lá escrito que os tanques da ETAR biológica estão legalizados.

MT: Mas isso não teria que passar por uma licença na Câmara Municipal?

PG: A parte camarária não é comigo, eu não sou jurista.

MT: Disse num comunicado recente, que foi publicado nos jornais, que a Fabrióleo está disposta a financiar um coletor municipal. Considera esta uma necessidade para a região?

PG: Acho completamente absurdo que, em 2017, uma área como esta, onde habitam umas largas centenas de pessoas – e há aqui inúmeras atividades industriais, comerciais, entre outras -, não haja saneamento básico. Isto é ridículo! Isto não é o terceiro mundo. Mas todas as casas do Entroncamento a Torres Novas não têm saneamento básico. As pessoas têm uma fossa séptica que, quando está cheia, alguém a vai despejar. (…) A ideia do coletor municipal, ou seja, a ideia de colocar saneamento básico neste zona, foi dada pelo Secretário de Estado.

MT: Considera que com esse coletor, e o saneamento, se resolviam estes problemas de poluição, os maus cheiros?

PG: Sim. Os maus cheiros, cuidado. Não! Você está numa zona que tem atividades agro-pecuárias gigantes, concentradas, que elas por si geram cheiros aqui e em qualquer parte do mundo. E não é da ribeira. Você chega aqui à noite e cheira a suinicultura, mas isso não é da Fabrióleo. São atividades económicas que há na região, que geram cheiros, e que as entidades têm conhecimento disso. Os cheiros não são da Fabrióleo. Mas na parte da poluição das águas o coletor resolvia o problema.

MT: Mas porque é que só agora, de há um ano/dois para cá, é que se ouve falar tanto de poluição? O que é que desencadeou isto?

PG: (risos) É uma boa pergunta, é uma excelente pergunta. Eu não entendo. Estamos aqui há 55 anos, sempre trabalhámos de igual forma, e em 55 anos nunca tivemos esse tipo de problemas ou reclamações como aconteceu agora. Agora o que é que terá acontecido nestes últimos dois anos para que isto se verificasse eu não sei. Desconheço completamente. Será que aumentaram o número de efetivos em determinadas agro-indústrias? Será que aumentaram o número de toneladas armazenadas a céu aberto de lamas de ETAR noutras empresas? Não percebo. A Fabrióleo já cá estava e antes não havia esse problema.

A ETAR biológica que não tem licença municipal mas que viu o tribunal administrativo reconhecer-lhe legalidade Foto: mediotejo.net

MT: No mesmo comunicado a Fabrióleo afirma ter gasto milhões em prevenção ambiental. Pode dizer-nos o que tem sido feito exatamente?

PG: Sim. A primeira ETAR da Fabrióleo remonta a 1988. Faseadamente, à medida que fomos acompanhados pelas entidades, cada vez que éramos vistoriados por eles, eles davam-nos recomendações. No ano 2000 recomendaram que nós instalássemos um evaporador, nós instalámos o evaporador em 2004. Em 2004 recomendaram-nos que instalássemos uma unidade físico-química, nós instalámos em 2008. Nós fomos sempre seguindo diretrizes que nos eram dadas pela tutela. Em 2012 deram-nos indicações para nós construirmos uma ETAR biológica e nós fizemo-la em 2015. Nós temos vindo ao longo dos anos a seguir instruções que nos foram dadas por quem nos licencia.

MT: Como é que receberam a recusa da Declaração de Interesse Público Municipal (DIM), que legalizaria parte da fábrica?

PG: Com normalidade. A partir do momento em que vai com proposta de indeferimento, nós já sabemos que ia acontecer aquilo. Com todas as campanhas que foram feitas nas redes sociais não havia outra resposta.

MT: Estão previstos outros investimentos de natureza ambiental?

PG: Nós estamos sempre a atualizar os nossos processos para o combate à poluição. Diariamente. No futuro, sempre que apareça uma nova tecnologia ou um novo método, nós cá estaremos para o implementar. Neste momento o que ali temos é a última palavra em termos de tecnologia e tratamento.

MT: Na sua opinião o que deveria ser implementado em termos políticos para prevenir a poluição?

PG: Não sou político não posso comentar políticas, não é o meu trabalho. Isso é uma pergunta que não me deve fazer a mim… mas pelo menos investigarem a verdade e combaterem um bocadinho a concorrência desleal. É que depois passamos para a parte em que isto já não é leal. Porque estamos perante uma empresa que gasta o que gasta, e pode provar o que gastou, e depois têm empresas exatamente iguais, ao lado, no mesmo concelho, que não gastam nada e abrem a torneira e metem para a ETAR municipal. Mas isso já não é política, é outra coisa…

MT: A Fabrióleo quer modernizar-se e tornar-se uma referência ambiental. Em quanto tempo pensam que esse objetivo será atingido?

PG: Esse objetivo está atingido neste momento. Apesar de tudo o que dizem de nós, continuamos a ser uma das poucas empresas do setor certificada com o ISO 14000. E não é de agora, já é há muitos anos. E continuamos diariamente a desenvolver para que o nosso impacto seja mínimo. Mais do que isto o que é que nós podemos fazer?

MT: Há quem sugira que a Fabrióleo tem que mudar de sítio. O que pensa desta possibilidade?

PG: Não faz sentido. Então teríamos que mudar todas as empresas do concelho de sítio. Não faz sentido. Nós trabalhamos diariamente para ter as coisas em condições, vamos mudar de sítio para quê?

*

ETAR. Foto: mediotejo.net

Investigação da Universidade Nova de Lisboa ainda na fase inicial

Por forma a ter um estudo que avaliasse objetivamente o impacto da Fabrióleo no seu meio ambiente e as origens da poluição das ribeiras que confluem no rio Almonda, a empresa encomendou recentemente um estudo à Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Apesar de já haver dados sobre o perfil da Fabrióleo, o mediotejo.net é alertado durante a entrevista, pelos investigadores Maria João Sousa e António Galvão, que o documento tornado público é apenas um diagnóstico. O trabalho de fundo ainda está a decorrer e não há datas para as conclusões finais.

A Fabrióleo tem cerca de meio século e nasceu de um conjunto de atividades familiares, nomeadamente destilarias, que foram evoluindo ao longo do tempo.”Aqui sempre houve atividade industrial”, frisa Pedro Gameiro. Atualmente a empresa tem 85 trabalhadores e fatura anualmente, em todo o grupo (inclui empresas de logística) cerca de 22 milhões de euros. A Fabrióleo trabalha por toda a Europa.

Em setembro de 2016, a empresa contactou a universidade, através da equipa do especialista João Joanaz de Melo, e pediu um estudo sobre o seu impacto ambiental. “Abrimos tudo à análise da Universidade Nova (…) têm as nossas passwords”, sublinhou Pedro Gameiro.

Ainda assim, a investigadora Maria João Sousa admitiu ao mediotejo.net que o nome da empresa, de início, lhe levantou dúvidas. “No início devo confessar, acho que não faz mal, que nós quando ouvimos o nome da Fabrióleo, por causa de todas as notícias que andavam aí, estávamos um bocadinho reticentes em vir trabalhar com eles”, recordou.

Após algumas reuniões e conhecendo a história da empresa decidiram, porém, participar. “Têm uma preocupação genuína”, frisa, mas “reconhecemos que existem problemas, como em qualquer fábrica”.

A investigação começou formalmente em novembro, com a realização de um diagnóstico ambiental. Foi este documento que já foi divulgado. As fases seguintes passarão por estudar a bacia da Fabrióleo, 50 km2 de superfície, e analisar possíveis origens de poluição. Assim que estiver concluído, é-nos garantido, o relatório da investigação será divulgado.

Empresa não percebe a fama de poluidor de que é alvo Foto: mediotejo.net

Neste primeiro diagnóstico, a que o mediotejo.net teve acesso, a Fabrióleo tem registadas várias desconformidades, mas apenas uma com riscos ambientais: até ao dia de janeiro de 2017 nunca foi efectuada qualquer monitorização das emissões dos reactores, processo que hoje, assegurou o responsável, já está a ser monitorizado.

Em termos de águas residuais e qualidade, o texto refere que “o efluente final da Fabrióleo ultrapassou os VLE para o CQO,CBO e fósforo total em algumas amostragens.

Nestes casos de incumprimento registaram‐se picos muito elevados e anómalos, tendo em conta o restante historial de autocontrolo da Fabrióleo”.

Sobre a poluição na ribeira da Boa Água e na ribeira do Serradinho, este diagnóstico fala numa constatação preliminar de “influência mínima”, admitindo a necessidade de um estudo detalhado da bacia hidrográfica.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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1 COMENTÁRIO

  1. Obrigado ao Medio Tejo pelo excelente reportagem. Obrigado à Cláudia Gameiro e ao Mario Rui Fonseca por terem tido a ideia de irem auscultar o contraditório. Brevemente também irei visitar a fábrica, para ver o estado actual, quando a minha saúde estiver um pouco melhor.
    Algumas das questões respondidas vão de encontro ao que tenho sugerido à Apa e Igamaot, bem como aos Senhores Ministro e Secretario de Estado do Ambiente no sentido de se resolverem estas questões em T Novas de forma inclusiva e não exclusiva. Todas essas minhas propostas já são públicas.https://sos-riotejo.blogspot.pt/

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