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Domingo, Agosto 1, 2021

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Torres Novas | No cabaré de Ricardo Neves-Neves rimo-nos de nós próprios (entrevista)

O dicionário descreve um cabaré como “lugar ou estabelecimento onde se servem bebidas e se dança, e onde frequentemente têm lugar espetáculos de variedades”. Este sábado, dia 3, faltam as bebidas para que a essência esteja completa no Teatro Virgínia, mas a aparente lacuna é compensada pela fluidez do humor com que os temas densos dos textos de Karl Valentin são apresentados no espetáculo “Karl Valentin Kabarett”. Fomos procurar o sentido do cabaré non-sense onde nos rimos de nós próprios.

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Quisemos saber o que o público encontra quando entra no “Karl Valentin Kabarett” e conversámos com o “responsável do espaço”, o diretor artístico do Teatro do Eléctrico e encenador Ricardo Neves-Neves, cujo percurso em muito se assemelha ao do artista alemão nascido em Munique, no ano de 1882. Ambos começaram com a música e os primeiros passos dados no teatro foram como autores e atores das próprias peças.

No caso de Ricardo Neves-Neves, a passagem pelo Teatro Virgínia é um regresso depois de, em outubro passado, ali ter apresentado “A Noite da Dona Luciana”, a partir do texto de Copi. De regresso está, igualmente, o teatro do absurdo que marca as produções da companhia de teatro que dirige e lhe permite trabalhar a “ideia de que podemos brincar” em trabalhos sérios “que não são levados muito a sério”.

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Fotos: Alípio Padilha

É ao telefone, enquanto sobe uma das sete colinas de Lisboa entre os ensaios das peças “Banda Sonora” e “The Swimming Pool Party”, com estreia marcada em março e fevereiro no Teatro São Luiz (Lisboa), respetivamente, que o encenador nos fala sobre o contraste entre o peso dos temas dos diversos quadros apresentados em palco e a leveza da abordagem feita ao longo quase uma hora e meia de espetáculo.

Neste cabaré de Munique, o humor e a ironia surgem entre os jogos de palavras que caraterizam as 16 peças curtas selecionadas nas obras “A Ida ao Teatro e outros textos” e “A Fanfarra e outros textos”, da autoria do também realizador e palhaço que inspirou Bertholt Brecht e muitos apelidam do Charlie Chaplin alemão. É ali, em plenos anos 20/30 do século passado, que surge o “espetáculo de variedades” indicado no dicionário.

Fotos: Alípio Padilha

Por lá, também se partilha a capacidade “de herói” de Karl Valentin destacada por Ricardo Neves-Neves em escrever num estilo cómico durante as duas Guerras Mundiais e recupera-se a noção de “brincadeira”, acrescenta, que se tem perdido gradualmente, mas não deixa de estar presente sempre que se sobe ao palco para representar um papel em Inglaterra (to play) ou em França (jouer).

Quem entra no “Karl Valentin Kabarett” não tem que apurar apenas a vista pois o espetáculo foi criado para se ver e ouvir. A música sai dos instrumentos e das próprias palavras dos textos que se fundem com as dos temas de diferentes estilos musicais que compõem o repertório popular alemão, ganhando vida através de onze atores/cantores e um cantor lírico acompanhados no palco por dez músicos.

Uma “massa humana” que é, por si só, um “cenário” em que predominam o preto e branco dos figurinos e existem poucos adereços. Pode parecer simplista, mas não é. Trata-se de uma forma fazer de teatro que interessa a Ricardo Neves-Neves, aquela que “assenta nas pessoas” e na qual diz existir “qualquer coisa essencial”. Uma essência que não se limita ao palco e se estende à plateia.

Fotos: Alípio Padilha

Porquê? Porque, defende, é na memória do público que o teatro assegura a sua continuidade e é como espetador que mais gosta de vive-lo, sobretudo quando assiste aos espetáculos que encena nos dias que se seguem à estreia. No caso do “Karl Valentin Kabarett”, é provável que o tenha feito em julho de 2017 no Festival de Almada ou, mais tarde, no Teatro da Trindade (Lisboa), na Praça do Mar (Quarteira, Loulé) ou no Cine-Teatro Curvo Semedo (Montemor-o-Novo).

Depois da viagem deste sábado até Torres Novas, está agendado o regresso ao concelho de Loulé, em agosto, que recebe as cerca de 50 personagens interpretadas por Elsa Galvão, Fernando Gomes, Joana Campelo, José Leite, Márcia Cardoso, Rafael Gomes, Rita Cruz, Sílvia Figueiredo, Tadeu Faustino, Tânia Alves e Vítor Oliveira. Com eles segue o barítono Tiago Amado Gomes para cantarem com o sotaque alemão aperfeiçoado nas aulas que tiveram durante a preparação do espetáculo.

Fotos: Alípio Padilha

Menos preocupados com o idioma estão Francisco Andrade (saxofone tenor), Ivo Rodrigues (trompete), José Almeida (baixo), José Massarrão (saxofone alto), Marcos Lázaro (violino), Rita Nunes (saxofone alto e barítono), Rui Pereira (bateria), Simon Wadsworth (piano), Tomás Pimentel (trompete) e Xavier Ribeiro (trombone), da da Karl Valentin Orchester, porque comunicam através de partituras e essas dispensam tradução.

Independentemente das diferenças linguísticas, o diretor artístico do Teatro do Elétrico lembra a professora de alemão que lhe falou do sentimento de inferioridade partilhado pelos compatriotas de Karl Valentin e os portugueses. Eles devido à guerra, nós pela ditadura. No entanto, no cabaré de Ricardo Neves-Neves surge outra capacidade desenvolvida por ambos, a de se rirem de si próprios “sem que ninguém se sinta ofendido ou triste”.

A ideia ganha força se lhe acrescentarmos as palavras de Liza Minnelli quando cantava “What good is sitting / Alone in your room / Come hear the music play / Life is a Cabaret, old chum / Come to the Cabaret”. A tristeza não entra no “Karl Valentin Kabarett”. Entra o absurdo e, muitas vezes, é num cenário non-sense que se encontra o sentido da vida.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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