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Sexta-feira, Julho 30, 2021

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Torres Novas: Misterman, uma etapa na viagem de Elmano Sancho

Elmano Sancho apresenta “Misterman” esta noite, dia 20, no Teatro Virgínia. Uma peça teatral centrada na luta de um homem pelos valores da moralidade e da ética e que representa a estreia do ator na encenação. Em conversa sobre o monólogo de Enda Wlash percebemos tratar-se de uma etapa na sua viagem contínua por novas linguagens que lhe apaziguem as inquietações. Entre estudos, formações e espetáculos, aos 36 anos tem três continentes e três licenciaturas no currículo e, apesar de não fazer planos, só pensa em parar para meter as ideias em ordem.

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O telefonema à hora marcada apanha Elmano Sancho a conduzir rumo ao espetáculo agendado em Coimbra. As maravilhas tecnológicas permitem-lhe manter o ritmo e a única paragem que faz durante a entrevista é para pagar a portagem. O cenário confirma o que desconfiávamos, o ator de 36 anos não se fica pelo destino. A vida é, literalmente, uma viagem e “Misterman”, do dramaturgo irlandês Enda Walsh, uma etapa no caminho que já percorreu três continentes.

Elmano Sancho não queria ser ator desde pequenino, tomou a decisão na adolescência movido pela vontade de “fazer espetáculos lá fora e partilhar as mesmas inquietações”. O interesse aprofundou-se, mas na hora de optar pela formação académica superior estreou-se na Faculdade de Economia da Universidade do Porto, aos 18 anos.

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Uma vez concluído o curso faria a primeira viagem do longo itinerário apresentado no currículo, rumo a Lisboa, onde se licenciou em Teatro, ramo de Atores, na Escola Superior de Teatro e Cinema. De lá seguiu para outras universidades em Madrid, São Paulo e Paris e, em 2011, voltou a ter aulas em português (e não só) durante o curso de Tradução na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

A carreira profissional como ator partiu na mesma altura, tendo trabalhado com o Teatro da Garagem, Teatro dos Aloés e nomes como Jorge Silva Melo, Bruno Bayen e Jacques Allaire, Emmanuel Demarcy-Mota, António Aguiar, Ana Tamen, Virgínio Liberti, Paulo Alexandre Lage ou Arthur Nauzyciel. O cinema e a televisão também entraram na bagagem, por si cheia, de um percurso que o ator diz ser muito seu à medida em que vai tomando consciência de que aquele que faz para si “não é o desejado por outra pessoa”.

Em 2009 começou a colaboração com os Artistas Unidos e a interpretação em “Não se brinca com o Amor”, de Alfred de Musset, valeu-lhe as primeiras nomeações para o prémio de melhor ator de teatro nos Globos de Ouro (2011) e pela SPA – Sociedade Portuguesa de Autores/RTP (2012). As oportunidades sucederam-se nos anos seguintes com as peças “Herodíades”, de Giovanni Testtori, “A Estalajadeira”, de Carlo Goldoni, e “O Campeão do Mundo Ocidental”, de J. M. Synge.

O prémio da SPA/RTP chegou no ano passado com “Misterman”, de Enda Walsh, peça em que Elmano Sancho se tinha estreado como encenador no ano anterior. Foi o devido reconhecimento depois de tantos anos de trabalho em Portugal e no estrangeiro? Elmano Sancho diz ter recebido a notícia com a mesma satisfação da primeira nomeação em 2011, salientando “só queremos que o espetáculo dê certo e não pensamos em prémios, quando vêm é especial”.

2015 foi também o ano em que estreou “I Can’t Breathe”, a nova peça criada durante os oito meses que trabalhou com Anne Bogart na SITI Company, em Nova Iorque, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. A ação inspira-se na morte de Eric Garner, o negro de 43 anos sufocado pelo polícia branco Daniel Pantaleo. A “angústia e o sufoco” de Eric foi transposto para “a dificuldade em ser indivíduo” e a noção de “exposição total” levou ao convite de Ana Monte Real, uma ex-atriz de filmes pornográficos, para participar no projeto encenado e interpretado pelo ator.

O espetáculo certamente impressionaria Thomas, a única personagem de “Misterman”, que estará esta noite em palco no Teatro Virgínia. Elmano Sancho dá vida aos anseios do homem de 33 anos que vive com a mãe incapacitada e se dedica a zelar pelos valores morais e éticos dos habitantes da aldeia de Inishfree. Perante a morte trágica de Edel, sua companheira na missão, Thomas isola-se num depósito do campo com a farda do falecido pai e gravadores antigos de fita magnética. O espaço insalubre representa o mundo que o enraivece e que não entende o novo messias.

Os espetadores são esse mundo ou Thomas? Elmano Sancho considera que Thomas “representa a ilusão que procuramos na sociedade” marcada “não tanto pela crise financeira, mas por uma crise de valores”. Thomas “é um pouco o homem que procuramos e que lutamos” na fase de transição que todas as crises comportam.

A digressão de “Misterman”, iniciada em 2014 na Comuna Teatro de Pesquisa, está quase a chegar ao fim e já passou por Beja, Évora, Castelo Branco, Torres Vedras, Bragança, Almada, Setúbal, Póvoa do Varzim, Coimbra e o Rio de Janeiro. Depois de Torres Novas será a vez do Porto, de 4 a 6 de março. Para o ator a itinerância é enriquecedora pois permite “ter uma perceção diferente do texto”. Apesar de “estar fora” nem sempre ser fácil e exigir “muita dedicação, muito trabalho, muitas noites sem dormir”, Elmano Sancho destaca a forma envolvente de “não criar raízes em lado nenhum”.

A viagem continua e Thomas poderá ficar pelo caminho, mas Elmano Sancho certamente continuará a sua senda pelo risco, “controlado, claro”, intercalando com paragens para consultar o Mapa Mundi. Além dos projetos teatrais, o ator encontra-se neste momento a gravar uma telenovela da TVI. A bagagem vai-se completando com o ritmo próprio de quem acredita que “as coisas levam o seu tempo” e define a procura constante como uma necessidade básica “temos que nos alimentar, senão esgotamo-nos”.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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