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Quarta-feira, Setembro 22, 2021

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Torres Novas | Galeria Neupergama celebra 40 anos de resiliência e descentralização cultural

Na próxima terça-feira, 8 de dezembro, a Galeria Neupergama celebra os seus 40 anos. Esta sexta-feira, dia 4, no âmbito da celebração, é inaugurada a exposição “Cabrita”, do artista plástico Pedro Cabrita Reis, uma das mais importantes mostras artísticas que já passaram pela região e pelo concelho torrejano. Em declarações ao mediotejo.net, a responsável do espaço, Célia Cardoso Gonçalves, lembrou o legado deixado pelo pai, José Carlos Cardoso, e uma história de resiliência que pode bem ser considerada um “caso de estudo”.

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Pelas 18h00 desta sexta-feira, na Praça do Peixe, em Torres Novas, a Galeria Neupergama marca os seus 40 anos com a inauguração de uma grande exposição de um dos maiores artistas plásticos portugueses da atualidade, Pedro Cabrita Reis. A mostra vai estar patente na Galeria e no Museu Municipal Carlos Reis até 10 de abril de 2021.

Foto: D.R.

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A exposição, confessou Célia Cardoso Gonçalves ao mediotejo.net, esteve para se realizar em abril deste ano, mas dadas as contingências da pandemia acabou por ser adiada e vem agora marcar o aniversário da Galeria. Pedro Cabrita Reis era um dos artistas que a Neupergama tinha ambições de expor, tendo sido com satisfação que este aceitou “de imediato” o convite para estar em Torres Novas, num espaço que só conhecia “de nome e de história”.

“Pedro Reis é uma marca distintiva da qualidade que continuamos a trazer para Torres Novas”, frisou a responsável, considerando que a passagem deste artista de renome pelo território é uma “continuação destes 40 anos” de história da Galeria torrejana. De recordar que a Neupergama representou durante décadas o artista e poeta Mário Cesariny.

Chegar a 2020 foi um percurso de “resiliência”, admite Célia Cardoso Gonçalves, que se traduz na “concretização de um sonho” do pai que “conseguiu a descentralização da verdadeira cultura, da verdadeira arte em Portugal”.

“É uma verdadeira vitória”, reflete, fazendo suas palavras já mencionadas por outros, de que o espaço “devia ser quase um objeto de estudo”. “Tem sido única neste contexto. É muito importante” este aniversário, comenta.

A exposição “Cabrita” vai estar exposta mais tempo do que é habitual, explica. A Galeria tinha outros planos comemorativos, mas os condicionamentos da pandemia não têm permitido avançar com outros projetos. “Provavelmente vamos guardar o resto da força de comemoração para mais perto dos 41 anos”, adianta, sendo que este é “um ano que vamos lutar para sobreviver”.

A Galeria viveu em 2020 os mesmos problemas do restante setor cultural, área que já em períodos normais é desafiante. “Não há público”, constata, tendo vários eventos sido cancelados no decorrer do ano. “Torna difícil todo o nosso funcionamento. Mas estamos cá e vamos continuar a lutar”.

A responsável frisa ainda o ambiente “familiar” que se vive na Neupergama, onde os artistas acabam por fazer parte da casa. “É uma das coisas que me incentiva a continuar”.

A Galeria Neupergama pelos traços de Célia Cardoso Gonçalves

*artigo de Sónia Leitão, publicado originalmente a 14 de março de 2018

O surrealismo passou para este lado da fronteira nacional por volta dos anos 40. Quatro décadas depois, em 1980, pulava os limites regionais e entrava numa porta da Rua Miguel Bombarda. A chave pertencia a José Carlos Cardoso e trinta anos mais tarde foi herdada pela filha que nos partilhou a história da Galeria Neupergama. Seguimos os traços da memória de Célia Cardoso Gonçalves quando em 2018 se confirmou o fecho do espaço original e a abertura de novas portas.

Célia Cardoso Gonçalves é, atualmente, a cara mais visível da Galeria Neupergama, em Torres Novas. Por trás estão as da família que decidiu dar continuidade à obra mais valiosa da coleção de José Carlos Cardoso. Não falamos de uma tela, mas do espaço com as paredes em que foram expostas outras marcantes do surrealismo português. O fundador da galeria inaugurada oficialmente a 8 de dezembro de 1980 era mais colecionador do que galerista e, segundo a filha, “tinha alma de artista”.

As chaves da porta com gradeamento verde numerada com o 15 na Rua Miguel Bombarda foram herdadas pouco depois do falecimento de José Carlos Cardoso, em outubro de 2010, e com elas veio o pequeno espaço por onde passaram grandes nomes e integram o acervo, como Álvaro Lapa, António Areal, Cargaleiro, Cruzeiro Seixas, João Vieira, José de Guimarães, Lima de Freitas, Mário Cesariny, Nadir Afonso ou Nikias Skapinakis.

Fotos: mediotejo.net

Trocou o emprego numa instituição bancária pelo sonho concretizado do pai em abrir uma galeria na sua terra natal e contrariar a centralização das artes nas grandes urbes. Ideia que este defendia junto do grupo de amigos ligados à corrente surrealista com quem frequentava as tertúlias, muitas clandestinas. O apoio de Artur Bual foi determinante e, mais tarde, reconhecido pela eleição da Neupergama por Cesariny como espaço exclusivo de exposição das suas obras até falecer.

A insistência do pai junto dos artistas nem sempre era bem encarada, recorda, mas o parte do sonho acabou por realizar. Parte porque, para Célia Cardoso Gonçalves, o processo apenas se concretizou em termos teóricos. Mesmo assim, o pai nunca desistiu perante a indiferença do resto do país, chegando a fazer cartões de visita em que surgia a referência do erro usual de se confundirem as localidades de Torres Novas e Torres Vedras.

A primeira confusão surgiu na altura em que anunciaram a “grande” exposição inicial, realizada na data em que comemoram o aniversário do espaço. No entanto, a mãe defende que já existia movimento antes e uma das primeiras memórias da atual responsável pelo espaço é a da mãe grávida a pendurar quadros com Artur Bual “a ralhar com ela” pois a “barriga gigante” com a irmã mais nova lá dentro merecia descanso.

Outra também envolve o artista plástico, a esposa, a pintora Stella de Brito e mais criativos na garagem dos pais num ambiente que juntava “pessoas com perspetivas de vida diferentes” e “uma cultura geral” que a deslumbravam. Ter crescido no meio artístico é encarado como “uma abrangência que, só agora, como mulher adulta é que comecei a perceber” e que contribuiu desde muito cedo para não ser preconceituosa.

O crescimento no ciclo de amigos do pai também lhe acentuou o sentido estético, mas a maior marca foi a oportunidade de conhecer o surrealismo contado na primeira pessoa por artistas que caracteriza de “quase socráticos, aquilo que Sócrates denominava os sábios” uma vez que dominavam todas as áreas. Célia Cardoso Gonçalves partilha que “ouvir falar um Cesarini era de ficar parada e beber”, tal como “um Cruzeiro Seixas” que fazia “perder a noção das horas”.

Fotos: mediotejo.net

O grupo é recordado como sendo muito unido e que estes grandes nomes das artes que contribuíram para a sua formação enquanto pessoa eram artistas “a todos os níveis, eram-no na postura”, acrescentando que “ser um pintor naquela altura em Portugal era, de facto, sê-lo por inteiro. Era algo que vinha de dentro e isso manifestava-se na forma como eles funcionavam no seu dia a dia”.

Questionada se as gerações atuais mantêm esta genuinidade, responde que o contacto com os mais novos é recente e ainda não conseguiu perceber se vêm “desta fornada”. Assegura, todavia, que a Galeria Neupergama não fecha portas aos novos nomes, ainda que a aposta principal seja em artistas com “currículo demonstrado”.

O tempo traz novas assinaturas e novas cores e essas continuam a predominar nas paredes do espaço criado pelo pai, que muitas vezes era confundido com um artista, apesar de ser um galerista que tinha na arte “a sua vida”. A única cor que recorda salientar-se no pai era o vermelho do Benfica, adepto ferrenho assumido que conjugava na mesma pessoa um traço tão popular e se dedicava à cultura, tantas vezes associada às elites.

As galerias continuam a ser associadas a uma minoria e Célia Cardoso Gonçalves considera que lhe compete a si e aos restantes galeristas irem “contra o preconceito e o pré-conceito de que a arte é só para alguns”, não deixando de apontar que esta ideia também passou a constituir “desculpa para muito comodismo”, sobretudo, por quem gostaria de pertencer a esse grupo restrito e que, muitas vezes, até pertence, “mas não sabe”.

Reafirma que “a arte é mesmo para todos”, mesmo com consciência de que a maior parte das obras não dão “para qualquer bolso”. Confirma-nos que o preço médio das que têm sido expostas na Neupergama se situa nos quatro mil euros, não deixando de destacar que muitos artistas têm vindo a optar por formatos mais pequenos que também reduzem o valor.

Os limites que pretende cortar não são apenas a nível financeiro, mas também da faixa etária. As parcerias com a Câmara Municipal de Torres Novas, por exemplo, têm permitido que os alunos do concelho visitem a Neupergama e refere que se sente deliciada ao ver as reações das crianças de quatro anos. A “capacidade de análise” dos mais pequenos acaba, muitas vezes, por revelar aquilo “o que a maior parte dos adultos não viu”.

A esta vertente pedagógica da galeria Neupergama junta-se a comercial e se a primeira traz surpresas agradáveis, o mesmo nem sempre se passa com a segunda. Conta que “nos dias que correm seria muito mais barato eu fechar a porta, deixar de ter as mostras e dedicar-me apenas à parte comercial através da internet”, mas continua a preferir receber o público que é, sobretudo, de fora e vai surgindo no dia a dia da galeria onde Mário Cesarini expôs pela primeira vez em 1987.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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