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Quarta-feira, Dezembro 1, 2021

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Torres Novas | Falta de médicos levou população de Alcorochel a reunir-se para organizar protesto (c/vídeo e áudio)

Para conseguirem uma consulta com a única médica que ainda presta serviço, há doentes que vão às 2, 3 ou 5h da manhã para a porta do Posto de Saúde. Sem resposta para o problema, a população está indignada e assinou um documento de protesto já enviado para todas as autoridades de saúde.

A falta de recursos humanos é um problema que afeta toda a região do Médio Tejo, mas o problema agravou-se no concelho de Torres Novas, nos últimos meses. A localidade de Alcorochel – da União de Freguesias de Brogueira, Parceiros de Igreja e Alcorochel – é um exemplo claro disso. Após o médico responsável pelo posto de saúde local se reformar, 650 utentes ficaram sem médico de família. Existe agora apenas uma médica a fazer 12 horas semanais no Posto de Saúde Local, sendo quase impossível marcar uma consulta, situação que motivou uma reunião da população, em conjunto com a Comissão de Utentes de Saúde do Médio Tejo.

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Ao longo deste ano já saíram três médicos por aposentação e um por mobilidade no concelho de Torres Novas, conforme referiu a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) ao mediotejo.net, sendo que no último concurso entraram dois médicos especialistas para as unidades funcionais do concelho. No ACES (Agrupamento de Centros de Saúde) do Médio Tejo, saíram 21 médicos especialistas de Medicina Geral e Familiar e entraram apenas nove. 

Ao longo deste ano, na região do Médio Tejo, saíram 21 médicos especialistas de Medicina Geral e Familiar enquanto entraram apenas nove. Foto: DR

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Conforme nos confirma a ARSLVT, no concelho de Torres Novas “estão sem médico de família atribuído os utentes da União de freguesias de Brogueira, Alcorochel e Brogueira”, referindo que na Extensão de saúde da Brogueira, onde estão inscritos 1.361 utentes, estes são assistidos por uma médica especialista de Medicina Geral e Familiar que disponibiliza 20 horas de consulta por semana. No caso das extensões de saúde de Parceiros de Igreja e Alcorochel, com 705 e 755 utentes inscritos, respetivamente, cada um deles conta com com três períodos de consulta por semana, num total de 12 horas semanais para cada um dos postos de saúde.

Sobre que medidas estão a ser tomadas para colmatar estas falhas, foi respondido que “o ACES Médio Tejo, à semelhança do que acontece na região, debate-se com uma acentuada carência de médicos especialistas de Medicina Geral e Familiar” e tem por isso recorrido “à prestação de serviços médicos para garantir a prestação de cuidados de saúde à população”.

Quando questionado pelo mediotejo.net, o presidente da Câmara Municipal de Torres Novas, Pedro Ferreira, referiu que, embora não atenue em nada o problema, “é um facto e é verdade que a nível nacional há falta de médicos”, onde ao longo dos anos tem havida um desfasamento entre os licenciados que não conseguem tapar com a maior rapidez as vagas dos profissionais que se vão reformando num processo que o autarca considera que “vem atrasado já de há muitos anos”.

Pedro Ferreira, presidente do município de Torres Novas diz que “a Câmara está atenta e vai fazendo pressão”. Foto: mediotejo.net

Pedro Ferreira esclareceu ainda que relativamente à freguesia de Assentiz (incluindo a localidade de Fungalvaz), que também se debatia com este problema, neste momento já há médico todos os dias. O edil considera assim que, dentro do panorama nacional, a situação de Assentiz e Fungalvaz está “razoável”, enquanto que a União de Freguesias de Brogueira, Parceiros de Igreja e Alcorochel está com limitações. “Esperamos que venham a ser melhoradas no mais curto espaço de tempo, foi a indicação que me foi dada”, disse Pedro Ferreira.

O presidente da Câmara de Torres Novas acrescentou que ainda foi ponderada a possibilidade de a Câmara poder subsidiar algumas horas de serviços médicos, mas que logo se constatou que a questão não era financeira por parte da Administração Regional de Saúde (ARS) nem do Ministério da Saúde, mas que residia realmente na falta de médicos, pelo que “se está a procurar resolver com a maior eficácia o mais depressa possível”. A Câmara, garantiu, “está atenta e vai fazendo pressão”.

“Temos de aguardar que abram novos concursos ou que haja mobilidade dentro do serviço, onde eventualmente médicos que estejam noutros sítios queiram vir para Torres Novas”, disse Pedro Ferreira, acrescentando que essa mobilidade pode pressupor um desafio para o qual a Câmara está disponível a contribuir. Seja arranjando casa ou com a atribuição de um subsídio paralelo, por exemplo: “a Câmara está disponível para isso. Agora, o Ministério da Saúde e a ARS têm uma palavra a dizer sobre isso, mas também se não encontrarem médicos não há esse milagre”, finalizou.

O Caso de Alcorochel

No caso da extensão de saúde da localidade de Alcorochel, que conta com 755 utentes inscritos e com três períodos de consulta por semana (12 horas semanais), uma vez que a médica prestadora de serviço que se desloca até Alcorochel não é Médica de Família, não lhe é possível fazer agendamentos nem marcar consultas. Quem precise de uma consulta tem assim de “apanhar vaga”, ou seja, ir para o Posto de Saúde e para conseguir marcar consulta para esse próprio dia.

Uma vez que o tempo de consultas é bastante inferior às necessidades da população, os utentes tentam ir mais cedo para a porta do Posto de Saúde, de forma a garantirem vaga. Esta situação transformou-se numa verdadeira “bola de neve”: as pessoas vão cada vez mais cedo, havendo relatos de pessoas que vão às 2, 3 ou 5h da manhã para garantirem o seu lugar.

Esta situação levou a que a população, em parceria com a Comissão de Utentes da Saúde do Médio Tejo (CUSMT), convocasse uma reunião pública para debater a prestação de cuidados de saúde na Freguesia de Alcorochel, a qual se realizou no passado dia 23 de outubro.

A população de Alcorochel reuniu-se para debater a prestação de cuidados de saúde na freguesia. Foto: mediotejo.net

Na reunião, onde esteve presente quase uma centena de pessoas e onde todos aqueles que assim o desejaram puderam dar a sua opinião, foi continuamente reiterada a necessidade de respostas imediatas e de existirem mais horas de atendimento, assim como, e principalmente, a necessidade de uma melhor organização, com agendamentos e marcações, de forma a acabar com a necessidade de “apanhar vaga”.

Manuel Júnior, presidente da Junta da União de Freguesias de Brogueira, Parceiros de Igreja e Alcorochel, corrobora este ponto de vista: “A falta de médicos é evidente mas muito honestamente, há mais falta de organização (…) O agendamento e as marcações resolveriam grande parte dos problemas do posto de saúde de Alcorochel, até porque tenho dificuldade em perceber que uma pessoa que venha para a porta do Posto de Saúde à meia-noite para apanhar consulta às 9h, esteja realmente doente, custa-me a acreditar, e se calhar essa pessoa até está a tirar a vez a alguém que precisa mesmo de ser atendido e que vem às 9h da manhã”, disse o autarca.

Na opinião de Manuel Júnior, se fossem feitas marcações, com cinco vagas para emergências – até porque “qualquer médico consegue distinguir entre uma verdadeira urgência e um aproveitamento” – isso resolveria os problemas, tanto do posto médico de Alcorochel como do de Brogueira e Parceiros de Igreja. O presidente de junta destas localidades diz ainda que com esta reunião se “deixou passar uma oportunidade” ao não se ter convidado o ACES. 

Manuel José Soares, representante da Comissão de Utentes do Médio Tejo, enalteceu que, face aos problemas que existem nesta fase pós-Covid em que as pessoas precisam de cuidados de saúde e face à insuficiência de horas, esta tenha sido “a primeira vez em que se juntaram autarcas, populares e alguns que têm tido alguma atividade, no sentido de debaterem essa mesma prestação de cuidados de saúde e apontarem caminhos para se prestarem mais e melhores cuidados de saúde à população”.

Manuel José Soares, da Comissão de Utentes do Médio Tejo. Foto mediotejo.net

Na reunião, os cidadãos presentes aprovaram um documento que, entre outras medidas, defende que “a ARSLVT e autarquias devem prestar uma atenção contínua ao estado de funcionamento das instalações e equipamentos das unidades de saúde, promovendo as melhores condições para o exercício da atividade pelos trabalhadores e para os utentes que recorrem a cuidados de saúde”, reivindica “(…) o alargamento do horário de funcionamento da Extensão de Saúde de Alcorochel se possível com os trabalhadores já conhecedores da realidade e familiarizados com os utentes”, e recomenda “um esforço de organização, informação e comunicação entre profissionais e utentes para, por exemplo, se poder agendar cuidados de saúde”.

Este mesmo documento, que contém ainda uma cláusula referente à recusa de qualquer decisão que consinta a saída da Farmácia de Alcorochel para a cidade de Torres Novas, vai ser enviado para o Primeiro-Ministro, para a Ministra da Saúde, para a Assembleia da Repúblico, ARSLVT, ACES e as diversas autarquias da região, conforme referiu em comunicado a Comissão de Utentes do Médio Tejo.

“Nesta que foi uma primeira iniciativa, foi aprovado um documento que resume de alguma maneira aquilo que se pretende. Agora seguiremos o trâmite normal, que é ir às diversas entidades e apresentar o problema, procurando soluções”, disse Manuel José Soares ao mediotejo.net.

“Se não houver respostas concretas a esta situação e não houver melhorias, a nossa posição vai ser ir subindo alguns degraus até que as pessoas estejam disponíveis para isso, mas achamos que estamos todos com vontade de resolver estes assuntos e pensamos que alguns degraus se podem alcançar, nomeadamente em termos de organização, comunicação, e a fixação de trabalhadores”, acrescentou o representante da Comissão de Utentes do Médio Tejo.

Quando questionado pelo nosso jornal sobre as condições da extensão de saúde de Alcorochel, Manuel Júnior garantiu que essas críticas não têm fundamento, e que os postos médicos foram reparados e pintados por dentro, embora não o tenham sido por fora, garantindo que “há postos médicos em muitos sítios piores que o nosso”.

Relativamente a este posto médico de Alcorochel, “tivemos um pequeno problema, é verdade”, reconheceu Manuel Júnior, uma vez que rebentou um tubo de água, “mas foi tudo resolvido, já foi metido o ladrilho e portanto o problema está resolvido”.

O caso de Alcorochel foi também trazido para a “ribalta”, devido a uma reportagem da SIC feita no local, onde se relatava o caso de várias pessoas esperarem à porta do posto de saúde desde madrugada, sem qualquer estrutura de apoio, e de consultas serem dadas no passeio.

O presidente da Junta da União de Freguesias de Brogueira, Parceiros de Igreja e Alcorochel, Manuel Júnior, mostra-se especialmente indignado com a realização desta reportagem, a qual considera “deturpada”.

ÁUDIO | Manuel Júnior, presidente da Junta da União de Freguesias de Brogueira, Parceiros de Igreja e Alcorochel

Sobre esta reportagem televisiva, o presidente do município torrejano, quando contactado pelo nosso jornal, disse que não se pronunciava, referindo apenas: “Segundo sei, foi aberto um inquérito por causa disso. Está muito mal explicado o que aconteceu e foi aberto um inquérito nesse sentido, e sem o resultado final desse inquérito não me vou pronunciar.”

Licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade da Beira Interior. Natural de Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, mas com raízes e ligações beirãs, adora a escrita e o jornalismo. Ávido leitor, não dispensa no entanto um bom filme e um bom serão na companhia dos amigos.

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