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Torres Novas | Faleceu Joaquim Santana, histórico dirigente associativo de Riachos

Faleceu esta segunda-feira, 1 de março, aos 86 anos, Joaquim Santana, figura icónica do movimento associativo de Riachos, Torres Novas, com uma vida dedicada ao folclore português. A informação é avançada pela associação que levou a conhecer mundo, o Rancho Folclórico “Os Camponeses” de Riachos. A bandeira do município de Torres Novas encontra-se a meia haste, por indicação do presidente da Câmara, Pedro Ferreira.

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“Hoje ficámos mais pobres, o nosso CHEFE faleceu”, escreveu na manhã desta segunda-feira o Rancho na sua página de facebook. “Nunca iremos esquecer tudo o que nos ensinou, bem como a grande obra que deixou. Com ele aprendemos a dar os primeiros passos e também foi ele que nos ensinou a caminhar sozinhos! Sabemos que o melhor presente que lhe poderíamos dar era continuar a sua obra, com todo o rigor e autenticidade que sempre defendeu, e é precisamente isso que iremos continuar a fazer. O nosso CHEFE estará sempre no nosso coração e será sempre a nossa referência!”, termina.

Ao que o mediotejo.net apurou, Joaquim Santana faleceu no lar de idosos onde vivia, devido a doença prolongada. O funeral, em Riachos, vai ser restrito à família dadas as condicionantes da pandemia. As discretas cerimónias decorrem ao final da manhã de terça-feira, 2 de março.

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Entretanto o município de Torres Novas já manifestou o seu pesar com o sucedido, colocando a bandeira a meia haste e emitindo uma nota informativa. Lembra assim a instituição que Joaquim Santana foi galardoado em 1996 com a Medalha de Mérito da Cultura atribuída pela Câmara Municipal de Torres Novas pela sua atividade em prol da cultura popular e tradicional de Riachos e pelo seu contributo para a valorização da coletividade que criou e dinamizou.

A 27 de agosto de 2017 foi descerrada uma placa toponímica na qual está inscrito o seu nome, que passou também a ser nome de rua, junto ao Centro de Saúde daquela vila.

Tendo envolvido com a Festa da Bênção do Gado, possui várias obras publicadas, sempre com referências a Riachos e às suas gentes.

Uma vida dedicada à cultura popular

O mediotejo.net entrevistou Joaquim Santana em 2018, por altura dos 60 anos do Rancho Folclórico.

Joaquim Lopes Santana, 86 anos, nasceu a 27 de setembro de 1934, no Casal de Santanas, em Riachos. Quinto filho de Feliciano Simões Santana, um cingeleiro, e de Maria Lopes, que com 12 anos deixou a escola e se dedicou ao trabalho na terra, até que uma oportunidade o encaminhou para os serviços da Câmara Municipal de Torres Novas, onde chegaria a Chefe dos Serviços de Água e Saneamento. Um percurso inesperado ao qual, como todas as oportunidades que teve na vida, se agarrou de forma apaixonada e autodidata, construindo um currículo invejável quer no folclore quer nos serviços públicos.

Mas em 1957, quando deu os primeiros passos com Martinho “Ginete” num grupo de Carnaval que daria origem ao Rancho, Joaquim Santana era apenas lavrador. “Nem imagina o que era Riachos” nos anos 50, salientou por diversas vezes ao longo da entrevista.

“Comecei talvez com 20 anos no associativismo. Comecei primeiro na direção do Atlético Clube Riachense. Como vogal. Em finais de 1957 começámos a pensar em fazer uma brincadeira de Carnaval no Carnaval de 1958. Porquê? Havia em Riachos um homem, trabalhador rural, mas com umas faculdades excepcionais. Ele todos os anos fazia…chamavam-lhe “a marcha de Carnaval”, só com homens, e metade vestiam-se de mulher. Era Carnaval mesmo. Muito bem organizado. Ele escreveu uma peça à maneira dele, o enterro do bacalhau, fazia espetáculos na Páscoa. Era um homem fantástico. Em 1957 acho que os homens zangaram-se e ele disse «nunca mais faço nada!». E no final desse eu e aquele senhor do clarinete, o Martinho “Ginete”, fomos ter com ele”.

Na negociação para fazer esta brincadeira de Carnaval, admitiu Joaquim Santana, contou por certo a reputação da família, cujo pai chegara a ser presidente de junta. O antigo responsável pelo desfile de homens não estava interessado em repetir a iniciativa carnavalesca, pelo que Joaquim e Martinho decidiram criar o seu próprio espetáculo, mas desta feita com jovens raparigas. O empreendimento foi difícil de organizar, recorda, passando inicialmente por andar de taberna em taberna a tentar convencer os pais das jovens a autorizar a brincadeira.

“Foi das coisas que mais me custou foi fazer aquilo. Custar não em dinheiro, mas em esforço de cabeça. Íamos falar com as raparigas, mas elas alertavam para os pais. Em 1957 não lhe passa pela cabeça o que era Riachos. Uma terra rural, a maior parte da gente trabalhava no campo. Eu próprio trabalhava no campo naquela altura, até aos 30 anos. Os pais…a maior parte não sabiam ler nem escrever. Onde é que a gente ia ter com os pais? Às tabernas. Eles com um copo de meio litro à frente… (…) Aquilo foi difícil”.

Não obstante, a brincadeira foi em frente, assente na boa reputação de Santana e no apadrinhamento de alguns notáveis locais, mau grado os preocupações parentais devido aos ensaios noturnos. Na altura, salientou Joaquim Santana, as danças nada tinham a ver com folclore. Os trajes eram fantasias e a conceção do espetáculo, bem aceite pela comunidade, foi de Joaquim e Martinho, que há época tinham pouca noção do que era de facto folclore.

“Começaram a dizer que era pena que aquilo acabasse. E depois houve uma coisa que eu nunca me esqueci. No dia de Carnaval de 1958 fomos bailar à minha porta. A minha mãe já estava de certa maneira doente, já não saia. O meu pai viu e disse-me: «ó joaquim, não deixes acabar isto». Tem sido isso um bocado também porque tenho aguentado. 60 anos é tempo demais para andar num grupo, com todas as responsabilidades do grupo”.

Joaquim Santana dançou pouco. Alertado que o que fizera no Carnaval de 1958 não era de facto folclore, iniciou o seu estudo sobre as tradições e preparou o rancho o melhor que conseguiu. Assumiu assim, no Rancho e a nível pessoal, o papel do cingeleiro, o pequeno proprietário, vestido de preto e com um chapéu de abas largas (que mandaria fazer de propósito ao estilo de 1900) que coordena os trabalhadores rurais na sua atividade agrícola.

Em breve, o Rancho de Riachos dançava pela Europa e afirmava-se no folclore nacional, resultado do intendo estudo e dedicação que votou à área. Apesar da idade e da doença, Joaquim Santana manteve-se sempre ligado à associação, tendo em 2019 sido nomeado seu Presidente Honorário Vitalício.

A importância de Joaquim Santana para o concelho de Torres Novas materializou-se nos últimos anos em homenagens.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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