Quarta-feira, Março 3, 2021
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Torres Novas | Dr. Taher, o médico que se tornou tradutor dos refugiados sírios na zona centro

Taher Sattut, 46 anos, era conhecido no concelho de Torres Novas como o médico ucraniano que há 15 anos ajudou, em várias situações, os imigrantes da Ucrânia que chegavam então ao país. Mas Taher é também sírio, pela parte do pai. Sem saber muito bem como, esse facto tornou-se público e contactaram-no para ajudar na comunicação com os refugiados que chegaram à região. Desde então tem servido de elo de comunicação entre o grupo local e conhece já as várias famílias de refugiados da zona centro. Numa conversa com o mediotejo.net sobre o tema, em Riachos, onde trabalha há três anos na Unidade de Saúde Familiar, foi direto à questão fulcral: “Todos se queixam da tradução!”

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O tema dos refugiados, a par dos problemas inerentes à situação complexa dos requerentes de asilo, parece, em grande medida, um problema de falhas de comunicação entre ambos os lados: os que vivem na Europa e os que fogem da guerra no Médio Oriente e do Estado Islâmico. Taher Sattut argumenta várias vezes ao longo da entrevista ao mediotejo.net que faltou planeamento a nível europeu para distribuir os refugiados, mas também que os compatriotas que chegam a Portugal e à Europa vêm com expectativas demasiado elevadas.

Além disso, constata, são quase todos pessoas de classe média/alta cujas novas condições de vida constituem um grande choque de adaptação. Recebem por mês 150 euros, subsídio que já atrasou por diversas ocasiões, não sabem a língua e, por isso, é ainda mais difícil encontrarem trabalho.

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A perspetiva de Taher Sattut é a que foi encontrando ao ajudar na tradução com as famílias e ao cuidar delas como médico. Vive em Portugal há 19 anos, está naturalizado, fala português quase sem sotaque e só os olhos claros e traços de leste podem fazer adivinhar as suas origens. Foi em Portugal que completou a especialidade de medicina geral e familiar, tendo casado então com uma portuguesa de quem entretanto se divorciou. É muçulmano, atualmente é casado com uma mulher síria e afirma não encontrar qualquer tipo de preconceito da parte dos portugueses.

Tornou-se médico porque “gostava muito de ajudar as pessoas”. Viveu até aos sete anos na Ucrânia, onde nasceu, mudando-se depois para a Síria, onde viveu até entrar na Universidade, na Ucrânia. A sua juventude foi partilhada entre os dois países, onde tem família, falando russo e árabe. Tem no entanto já muitos mais anos de Portugal, para onde veio viver depois de uma tentativa de se instalar na Síria onde, recorda, gostaria de ter exercido a profissão.

“Era um dos países mais seguros do mundo”, salienta, mencionando que a última vez que deixou o país foi no mesmo dia em que decorreu a manifestação, em 2011, que espoletou a guerra civil. Ao chegar a Portugal “disseram-me que tinha ocorrido uma manifestação de crianças que exigiam a mudança para a democracia. As crianças foram levadas e torturadas”, explica.

“A Síria é um bocado diferente do norte de África. A Síria é um encontro de todas as culturas há muito tempo”, situando-se no cruzamento da Europa, Ásia e África. “Foi a capital mais antiga do mundo, porque as caravanas passavam por lá”, continua, havendo comunidades cristãs, muçulmanas e judaicas integradas. Após 40 anos de ditadura, “o povo só queria respirar, mais nada”. “Eu não posso voltar lá agora. Não há lei, não há justiça. Eu desapareceria”, comenta.

Os primeiros refugiados que conheceu foi o casal que vive em Ferreira do Zêzere, cuja senhora estava grávida. A notícia espalhou-se pelas instituições locais e em breve foi recebendo os restantes refugiados da região. Alguns desses encontros foram emocionantes, reconhece. Saídos da Turquia nos barcos que atravessam o Mediterrâneo, chegados à Grécia e passando pelos campos de refugiados, o processo burocrático é longo até estas famílias chegarem a Portugal. “Passaram muito tempo sem conseguir expressar as suas necessidades básicas”, afirma. Esse é um problema de comunicação comum a todos. “Quando falam comigo até choram. Para mim é muito gratificante”.

O processo burocrático é longo até estas famílias chegarem a Portugal. “Passaram muito tempo sem conseguir expressar as suas necessidades básicas. Quando falam comigo até choram. Para mim é muito gratificante.”

Taher traça um retrato do que tem presenciado do seu contacto com os refugiados. “Quem foge da Síria é a classe média e alta. Os pobres ficam lá, já que não possuem dinheiro para fazer a viagem”, refere. “Fugiram com expectativas de fugir da morte”, mas também “de ter uma vida mais digna na Europa”, mas “numa Europa que não existe na prática”, reflete. “Chegam a Portugal e apercebem-se logo que aqui também há crise e desemprego. As expectativas são maiores que o que encontram”, explica.

Para este médico faltou planeamento a nível europeu para conseguir integrar estes refugiados com sucesso. “As pessoas vêm da aldeia e são colocadas na cidade”, ou vice-versa. A integração, que já é difícil, encontra novo tipo de dificuldades. “Têm que ter em conta as origens”, reflete, para todo este processo resultar.

Depois há a comunicação, que não tem resultado. “Todos se queixam da tradução”, frisa. Já conheceu casos que as traduções realizadas não refletiam em quase nada o que as entidades tentavam explicar aos refugiados. “Eles ficam prejudicados e as próprias entidades” que os recebem, constata.

O casal iraquiano que chegou a Torres Novas em maio já abandonou o concelho. Foto mediotejo.net

“Acho que Portugal está a oferecer o melhor que pode”, ressalva. Os problemas nascem das pequenas coisas. O valor por refugiado é o mesmo, mas cada instituição, seja religiosa ou civil, que recebe as famílias ajuda à sua maneira. Já houve casos de pessoas que ofereceram roupa às crianças, há casas que têm de tudo, até internet, outras que possuem menos. Os refugiados comunicam entre si e vão-se apercebendo destas diferenças. “É aí que começam os problemas”, constata, porque não percebem porque uns têm certas regalias e outros não. O médico defende que “tem que haver regras e uniformidade”.

Depois há outras circunstâncias, que podem levar a quem chega a pensar novamente em partir. Taher Sattut destaca que os refugiados da Síria ou do Iraque que chegaram à Europa endividaram-se imenso e o dinheiro que recebem pelo seu estatuto de refugiado pouco mais dá que para a alimentação. No contacto com conhecidos na Alemanha, ou no Reino Unido, dizem-lhes que esses Governos dão outros benefícios e com o mesmo dinheiro conseguem ter uma melhor vida. É um estímulo para deixar Portugal. “É a expectativa de uma coisa e encontram outra. É também falta de planeamento”, reforça.

Já houve atrasos nos pagamentos e vivendo com 150 euros, qualquer atraso é significativo na economia familiar, explica. Nas aldeias os vizinhos ajudam, mas no meio urbano não há tanto esse tipo de solidariedade. Para quem chega, o país é um mundo completamente desconhecido onde não se sabem movimentar e em quem confiar.

Mas já houve casos de sucesso, destaca. A família que se encontra na Nazaré adaptou-se muito bem ao local e, do que sabe a respeito, estão muito contentes com a forma como foram recebidos. Em Torres Novas, adianta, um dos refugiados, mesmo sem falar português, pediu ao município para imprimir o currículum vitae e andou a distribuir por onde pôde. “Andou de bicicleta de porta em porta. Nalguns sítios foi bem recebido, noutros não”, constata. Mas entretanto conseguiu arranjar trabalho e continua à procura de outro part-time. Neste momento está a conseguir evoluir muito mais depressa na língua portuguesa que os restantes.

Admite que nem tudo o que alguns refugiados dizem seja verdade, pelo menos em termos de habilitações literárias. É o esforço por saírem dos campos de refugiados e chegarem aos países europeus, explica.

Taher Sattut sente-se bem em Portugal. Torres Novas “é um sítio estratégico”, reflete, “longe da confusão de Lisboa”, mas também perto de tudo. Chegou a viver em Vila Franca de Xira e no Entroncamento. Atualmente trabalha em Riachos e faz outros serviços na região, nomeadamente em Abrantes, e no final da entrevista revela que chegou a trabalhar na AMI – Assistência Médica Internacional. “A vida escolheu assim…”

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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