Torres Novas | Denis e Julia criaram em Alcorochel o princípio da sustentabilidade

Ser biológico e ser consciente não são necessariamente sinónimos. A sustentabilidade é um caminho que passa por uma educação do Homem não só para o consumo do que é saudável, mas também para a noção de que nem tudo pode cair nas regras do mercado global. Denis Hickel e Juliana (Julia) Moojen vieram de Rio Grande do Sul, Brasil, e há seis anos que procuram desenvolver o princípio de uma sustentabilidade consciente na Quinta do Alecrim, em Alcorochel, concelho de Torres Novas. Aí explicaram ao mediotejo.net o seu modo de vida – árduo mas ainda assim ambicioso – que passa pela atividade cívica no concelho que os acolheu e por uma formação contínua das consciências. 

Foi um projeto que surgiu sem ser planeado, um pouco como a maioria das transformações da vida de Denis Hickel e Julia Moojen. Ele era arquiteto, ela jornalista, e viviam há seis anos em Lisboa quando decidiram mudar-se para Torres Novas e, basicamente, começar do zero. Pelo caminho terá ajudado a tese de doutoramento de Denis, realizada na Universidade de Lisboa com uma parceria com uma Universidade na Escócia, que abordava a perpetiva ecológica do design. No geral, constatam, foi uma tomada progressiva de consciência sobre alimentação e sustentabilidade. Um modelo de vida com o qual se identificaram e que têm procurado promover no concelho de Torres Novas, a partir de um quinta que possuem na freguesia de Alcorochel.

O mediotejo.net conheceu Denis aquando o debate, promovido pelo Bloco de Esquerda, sobre o Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano (PEDU) da Câmara de Torres Novas, em discussão pública até 16 de fevereiro. Denis falou ao público sobre sustentabilidade e de como o PEDU deveria pensar uma cidade para as próximas décadas. A conversa na Quinta do Alecrim teve assim que passar por esse tema, em forte discussão no concelho.

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No projeto de Denis e Julia há porém uma filosofia de mundo e de vida que vai muito além da política local, ainda que ela seja um elemento base do seu desenvolvimento. Trabalha com as pessoas e quer educar as pessoas para que a terra se possa regenerar e ultrapassar muitos dos problemas de um planeta em mutação. Vendem assim hortícolas e mel biológicos em pequenas redes que não ultrapassam os limites municipais (só se houver excedente) e que respeitam os ritmos de crescimento e a origem dos produtos. Mais que biológico, este é um projeto pequeno, local, que acredita nas potencialidades da sua lógica e dimensão.

A participação cívica em tudo complementa este modo de vida.

mediotejo.net: Fale-me um pouco do seu doutoramento, Denis. Já terminou em Torres Novas, certo?

Denis: Sim. O meu doutoramento foi pela Universidade de Lisboa, em conjunto com um grupo de pesquisa na Universidade de Dundee, na Escócia. Foi um entendimento ecológico do design. Entender o design a partir de uma perspetiva ecológica. E como campo de ação, eu fiz o meu trabalho prático com as escolas aqui do concelho. Neste caso, o designer em vez de olhar para o meio edificado, os edifícios, etc, ele vai usar os processos criativos do design para envolver as pessoas na construção de alternativas diversas.

Eu convidei os miúdos, os professores, a pensarem a escola a partir de uma série de informação ligada à sustentabilidade, de como poderia ser a escola deles no futuro. O objetivo não era edificar uma escola nova, mas pensar a educação como um todo.

mediotejo.net: Como correu?

Denis: Foi muito interessante. Para mim foi uma grande aprendizagem, no sentido de envolvimento com a comunidade, com as pessoas. De como as pessoas em conjunto podem resolver os seus próprios problemas.

Com respeito ao trabalho prático em si, foi muito interessante porque as crianças logo perceberam bem a proposta e as alternativas que saíram foram muito interessantes. Houve escolas totalmente distintas do que temos hoje. Dentro da informação disponível, eles conceberam uma escola muito mais orientada para os interesses individuais de cada um, sem no entanto perder a participação no coletivo, na cidade, na própria escola, na escolha das coisas que gostariam de fazer na realidade. Houve até pequenos grupos de crianças que sugeriram que a escola, tal como ela é hoje, deixasse de existir enquanto um lugar. A escola passaria a ser a própria cidade.

mediotejo.net: O Denis era arquiteto, a Julia jornalista. Como se viraram para a agricultura biológica? Era já um interesse que tinham?

Denis: Nunca imaginámos na realidade. Eu tinha algum contacto com a agricultura e com a vida no campo porque o meu avô vivia no campo também, fazia hortas…

Julia: Foi também uma junção de coisas. O Denis, com o doutoramento dele, envolveu-se com as horas urbanas. Estava a estudar sustentabilidade, começou a envolver-se com as hortas e de repente apareceu a oportunidade no terreno. O nosso filho estava na altura com dois anos e meio e achámos que era uma boa altura para sair da cidade e dar uma outra vida para ele. Foi uma coisa maior que nos carregou.

Denis: É um tomada de consciência da questão da alimentação, das questões ligadas à sustentabilidade. O meu doutoramento, quando comecei, ia nesse sentido. A gente começou a ter contacto com uma série de outras coisas, outros universos, e gradualmente foi-se ligando isso da alimentação. Primeiro por uma questão pessoal, de perceber que era necessário pelo menos cultivar parte do alimento, porque a agricultura convencional, a industrialização dos alimentos, todos eles têm impacto negativo não só na nossa saúde como no meio ambiente. Nós achámos que tínhamos que, tendo um filho pequeno, tínhamos que fazer alguma coisa.

 

mediotejo.net: Qual é exatamente o conceito desta quinta?

Julia: A Quinta do Alecrim, em primeiro lugar, é muito além da agricultura biológica.

Denis: A agricultura biológica neste caso é um ato político. No sentido que nós nos certificámos como ponto de referência para fazer outras coisas. Nós consideramos que vamos muito além daquilo que está em caderno de encargos, digamos assim. A gente faz um trabalho que pode ser considerado, eu chamaria, de agricultura regenerativa.

mediotejo.net: E o que é isso?

Denis: Quando a gente fala do termo “sustentabilidade”, na realidade o que a nossa sociedade, de forma geral, ou o que nós todos queremos fazer é sustentar um certo modo de estar, um certo modo de fazer as coisas. Ou seja, a sustentabilidade é conservadora, no sentido em que ela deseja conservar algo. Só que não é mais possível conservar esse algo. O grau de degradação dos ecossistemas, por exemplo, eles requerem outra atitude. Os ecossistemas eventualmente podem-se readaptar, etc. O ser humano é que nesse processo vai sofrer muito.

Na realidade o que nós deveríamos fazer é regenerar, ou seja, nós devemos reelaborar as nossas atividades, o nosso fazer, de uma forma regenerativa. Se eu regenerar as dinâmicas dos ecossistemas, quando eu preciso cultivar o alimento, quando a gente precisa produzir coisas materiais – energias, objetos, madeira, enfim todas as coisas que fazem parte do universo material – eles deveriam ser feitos a partir de um entendimento de como funcionam os ecossistemas para nós trabalharmos dentro deles.

Como funciona a agricultura regenerativa? Ela faz exatamente isso. Eu produzo o alimento de uma forma em que eu estou reestabelecendo determinadas dinâmicas ecológicas.

O conceito é simples: pensar os ecossistemas e trabalhá-los localmente, em interação com outras bioregiões. FOTO: mediotejo.net

mediotejo.net: Daí ser um ato político…

Denis: Porque eu acho que a agricultura biológica é a referência, mas nós temos que ir muito mais fundo. Temos que ser muito mais profundos que a agricultura biológica. A agricultura biológica, de forma geral, por exemplo, ela não tem um arcaboiço filosófico por trás que ajude as pessoas nessa transformação necessária. Mas se fores olhar outros universos que acontecem dentro da agricultura, como a permacultura e a biodinâmica, por exemplo, são dois universos que têm produção teórica por trás. No sentido de pensamento, não produção teórica técnica. Pensamento. Uma forma de estar. E acho que esses dois caminhos por vezes acabam por ajudar mais a pessoa a passar por uma transformação para entender os processos, por exemplo, de cultivar alimento de outra forma.

O que a gente faz? Primeiro, para cultivar o alimento biológico, orgânico, a gente precisa do solo saudável. O solo saudável é a primeira coisa. E aí já surge a grande distinção entre o que é o universo biológico, biodinâmico, da permacultura, enfim, esse mundo da agricultura orgânica para a convencional. A agricultura convencional é extrativa. Ela só extrai. E a orgânica regenera. No sentido que: eu não posso tirar, eu tenho que devolver. Eu tenho que restabelecer a qualidade do solo através de processos que são estabelecidos dentro de uma exploração como a nossa.

A questão aqui é que por a gente fazer esse trabalho, a gente acaba por ter um outro papel, que é cultural. Ele não é só de produzir alimentos. A gente tem aqui que estabelecer também novas dinâmicas comerciais, novas dinâmicas económicas à nossa volta. Tanto é que nós optámos por fazer o nosso trabalho da Quinta do Alecrim e vendê-lo localmente. O grande esforço que nós estamos fazendo é de levar o que nós estamos a produzir aqui direto para o consumidor. Sem intermediários. Nós produzimos e vendemos o alimento, diretamente para as pessoas. Fazemos um trabalho permanente de explicar ou de educação para as pessoas da necessidade de consumir biológico, de consumir ecológico.

mediotejo.net: E qual é a recetividade?

Denis: Ainda é baixa. Nas cidades assim pequenas como Torres Novas é baixa.

Julia: Já temos um grupo de clientes que tem consciência, que querem, que pedem. Mas é um grupo pequeno. E acho que é um trabalho que vai sendo feito devagarinho.

mediotejo.net: Estão no mercado de Torres Novas ao sábado, não é?

Julia: Sim. Entretanto deixámos de fazer de fazer a terça-feira, porque a produção está baixa. Quando vier a primavera, o verão, a gente retoma a terça-feira.

Denis: Mas aí nesse universo está o papel cultural da agricultura ecológica. Quando nós optámos por fazer esse trabalho, o que acontece? Esse trabalho dignifica o agricultor. No sentido que o agricultor tem a condição de ter um vencimento muito melhor, um preço muito melhor pelos seus produtos. Assim como quem está a consumir acaba por ter um alimento muito mais acessível.

Outra coisa são as dinâmicas económicas que esse tipo de agricultura pode gerar. Por exemplo, o facto do mercado público de Torres Novas ser envelhecido. Ele é envelhecido tanto no público consumidor como quem está a vender no mercado. Ele não está a se regenerar, no sentido de que daqui a alguns anos nós vamos ter possivelmente muito poucas bancas.

Os mercados locais perderam muita da sua dinâmica para as grandes superfícies. A sociedade de forma geral entendeu isso durante algumas décadas como um sinónimo de desenvolvimento. Mas na realidade essa forma de organizar as grandes superfícies e a própria escala delas acaba por gerar um efeito nefasto nas cidades como um todo. Não é só para o agricultor. Tira a centralidade de alguns lugares e esvazia esses lugares.

(…)

Julia: As pessoas hoje são muito desconectadas de como o alimento é produzido. Não sabem a época dos produtos, não percebem porque compram cenoura convencional a um preço e no biológico a outro. Não percebem essa diferença. E não percebem como o alimento é cultivado. E isso nem é um trabalho de educação, é de consciencialização. De formação. É explicar, é mostrar.

“A questão aqui é que por a gente fazer esse trabalho, a gente acaba por ter um outro papel, que é cultural. Ele não é só de produzir alimentos. A gente tem aqui que estabelecer também novas dinâmicas comerciais, novas dinâmicas económicas à nossa volta. Tanto é que nós optámos por fazer o nosso trabalho da Quinta do Alecrim e vendê-lo localmente”

mediotejo.net: A Quinta do Alecrim tem certificação biológica?

Denis: Desde a nascença.

Julia: Nós naturalmente começámos a criar uma rede de pequenos produtores. Os nosso excedentes vendemos diretamente para eles e eles nos vendem coisas também. É muito importante porque é uma forma de apoio uns aos outros, somos todos pequenos, estamos todos em mercados. Conseguimos manter alimentos que, além de certificados, estão a ser produzidos da forma como nós produzimos. Não é só uma agricultura certificada. É certificado, é local e de pequena escala.

(Explicando a diferença de qualidade entre produtos biológicos de superfície e de pequeno produtor)

Hoje em dia a cenoura biológica vem da Holanda. Então aquela cenoura da Holanda foi apanhada, foi para um armazém, viajou, parou na Espanha, foi para o frio, para depois ir para a loja…

mediotejo.net: A diferença então é que é biológico e é local…

Denis: O que acontece hoje é que o biológico está a ganhar mercado. No sentido de Mercado. O biológico virou um grande nicho de mercado. Então as pessoas produzem e consomem por moda. Não é com o entendimento sobre aquela questão. O que tem acontecido, e nós enfrentamos isso, é que o universo da produção biológica está sujeito às mesmas relações do convencional. Ou seja, a grande superfície, o supermercado, seja ele orgânico ou não, ele está sempre a espremer o produtor. Porque já existe toda uma cadeia de produção em que o produtor já dificilmente consegue chegar no destino final. Ele vai entregar a um distribuidor, que vai entregar para uma rede central e que vai a partir daí distribuir. Até chegar ao consumidor final ele vai passar pelo menos por duas a quatro pessoas diferentes e isso vai subindo o preço.

Há muita demanda por produtos biológicos em Portugal e não há produção suficiente. Então há uma grande demanda de produtos, principalmente nos supermercados biológicos que vêm de fora. Vêm de Espanha, vêm da Holanda, vêm da Itália, do Leste Europeu. Quer dizer, estás a criar um universo que devia ser de consumo consciente, mas na realidade não há consciência, porque a nível de impacto ecológico a distribuição, comércio e consumo da agricultura biológica ela tem um grande impacto ambiental também.

mediotejo.net: O Mercado apanhou a agricultura biológica…

Denis: O Mercado apanhou, exatamente. Então o que tem que acontecer? Cabe ao produtor se organizar para estabelecer redes de escoamento direto dos seus produtos. Quem mais poderia ajudar nesse processo? Por exemplo, as Câmaras Municipais. As Câmaras Municipais deveriam entender isso e potencializar. Nós já tivemos diversos convites para participar e dinamizar situações de mercado local, mas as pessoas têm uma dificuldade muito grande em entender que essas dinâmicas de criar mercados de proximidade, de fomentar a produção local, elas deveriam partir logo da base da questão da agricultura biológica. Porque se não é mais do mesmo.

mediotejo.net: Base?

Denis: Por exemplo, queres criar um mercado local. Primeiro tens que descobrir primeiro quem são os produtores, quantos produtores há e se eles conseguem participar regularmente no mercado.

Julia: E que são realmente produtores…

Denis: O que acontece hoje no mercado de Torres Novas é que uma grande parte das pessoas que estão ali não são produtores. Alguns até produzem, mas com a sua produção não conseguem suprir a demanda e têm que comprar fora. No momento em que estão a comprar, eles já estão a participar de uma cadeia em que grande parte do alimento que está no mercado, que deveria ser local, ele não é mais local. Ele vem de outros lugares…

Julia: E também são pessoas que fizeram agricultura a vida toda, já estão com mais idade e já é difícil fazer agricultura. Porque é difícil fazer agricultura! Já não conseguem plantar, mas estão lá. Estão lá desde sempre e vão continuar. Então estão a deixar de ser produtores e estão a passar a ser feirantes. Compram e vendem e muitas vezes o cliente nem sabe. Não sabe se aquele produto é cultivado ali, se ele [o feirante] comprou no mercado abastecedor. Essa situação não é nada clara. A pessoa não tem consciência, não questiona.

mediotejo.net: O que vos difere de outros produtores biológicos?

Julia: Em primeiro lugar a escala, em segundo lugar a diversidade. Mas o que eu quero dizer é que: se nós fossemos grandes produtores, com muitas terras, a fazer batata, por exemplo… Eu tenho uma forma diferente de trabalhar do que se tiver uma horta com muitas variedades. (…) Diversidade ajuda a combater doenças.

mediotejo.net: A diversidade ajuda a fazer uma prevenção?

Julia: É. Porque quando uma planta está doente ela vai contaminar todas as suas irmãs. No momento em que tu não tens uma terra que tem hectares de batata, essa praga vai ser cortada. Então acho que existe hoje agricultura biológica sendo feita em monocultura, em grande escala, e que no fim acaba por ter um procedimento, uma maneira de trabalhar, não muito diferente do convencional. Não vai usar químico, mas alguma coisa vai ter que usar.

mediotejo.net: Ou seja, a grande produção acaba por aproximar a agricultura biológica das mesmas pressões do Mercado…

Denis: Exatamente. Mas isso em Portugal é muito sensível. Se formos olhar o território português, ele não permite assim grandes extensões de monocultura. De forma geral é muito viável uma transformação de uma agricultura convencional para o biológico. Desde que obviamente haja uma reeducação do produtor nas formas de produzir. Em pequenas coisas.

mediotejo.net: Então, na vossa perspetiva, para que este tipo de produção se possa desenvolver, teria quer ser tudo localmente, em mercados pequenos, quase concelhios?

Denis: É uma questão que hoje é entendida e trabalhada. Cada cidade tem um raio à sua volta que é, vamos chamar assim, a sua bioregião. A cidade tem que se autosustentar dentro da sua bioregião. Essa deveria ser a base do planeamento urbano das cidades hoje em dia: perceber a sua bioregião. Perceber o que posso produzir aqui, como posso garantir a minha segurança alimentar. A cidade tem que olhar para isso, mesmo nas suas questões produtivas. Produzir matérias primas para todo o universo da cidade. O que pode ser potencializado. O que a gente chama de regenerativo vai muito nesse sentido, do que a gente pode rever, recriar as dinâmicas económicas da cidade.

Julia: É uma grande revolução. (risos)

“O que acontece hoje é que o biológico está a ganhar mercado. No sentido de Mercado. O biológico virou um grande nicho de mercado. Então as pessoas produzem e consomem por moda. Não é com o entendimento sobre aquela questão.”

Denis: Imagina pensar uma cidade que nem Torres Novas, que tem cerca de 30 mil habitantes em todo o concelho. Mais o que está à volta. Imagina essas pessoas todas consumindo localmente, uma grande parte. Imagina que vamos criar três vertentes de consumo local: o alimento, o vestuário e alguma coisa ligada à construção. Só aí potenciar o que tem para gerar emprego e trabalhar as zonas rurais é gigantesco. Se fosse só o alimento era brutal.

mediotejo.net: Qual vai ser o impacto do aquecimento global na agricultura biológica?

Denis: O aquecimento global vai obrigar as pessoas a repensar o consumo. A agricultura biológica é a que tem a possibilidade de sobreviver nesse contexto. Porque o aquecimento global não está sozinho, ele tem também a questão energética. A agricultura convencional e de larga escala é extremamente depende da mecanização. (…) De forma geral quem está a produzir biológico entende as alterações climáticas e tenta regenerar determinados habitats para manter as suas características de produção. (…) Ou seja, eu estou a criar aqui um ecossistema. Eu estou a trabalhar com um ecossistema. Eu não estou simplesmente isolado fazendo agricultura.

mediotejo.net: Desde que chegou a Torres Novas que o Denis tem tido uma atividade muito cívica. Tem-se envolvido com a comunidade e procurado participar. É dentro desta perspetiva de educação?

Denis: De regeneração e de educação, exatamente. Eu uso o conhecimento que tenho em arquitetura, em urbanismo, que é a minha área de formação e de estudo. A agricultura possibilitou-me a ecoliteracia, que foi o trabalho que desenvolvi com as escolas e de vez em quando dou formação a professores nessa área. A ecoliteracia é conhecer as dinâmicas dos ecossistemas e viver de acordo. A questão da regeneração vem daí.

mediotejo.net: Foi por isso que se interessou pela questão do PEDU?

Denis: Sim. E porque sou um cidade torrejano e acho que qualquer cidadão torrejano, qualquer cidadão de qualquer cidade, tem que estar interessado no que está acontecendo com a sua cidade. Mas as pessoas de forma geral estão interessadas só com o seu, o seu trabalho, o seu consumo. Elas na realidade estão a perder uma parte, que é de se interessar pela sua cidade e que vai acabar no futuro com todas as questões das alterações climáticas e questões energéticas.

mediotejo.net: Na sua perspetiva, na perspetiva deste lugar, como é que Torres Novas se poderia tornar numa cidade, num concelho, mais sustentável?

Denis: Teria que passar a olhar para a cidade enquanto parte de uma bioregião. Teria que olhar para as suas potencialidades, como garantiria a sua soberania alimentar. Como Torres Novas pode garantir a sua soberania energética. Como Torres Novas pode garantir a sua soberania quantos aos materiais de construção. As cidades surgiram em determinados locais porque eles teriam tudo isso.

Consumir biológico tornou-se “moda” e está a começar a sofrer as pressões da lógica do capitalismo. A Quinta do Alecrim vende apenas localmente FOTO: mediotejo.net

“A cidade tem que se autosustentar dentro da sua bioregião. Essa deveria ser a base do planeamento urbano das cidades hoje em dia: perceber a sua bioregião. Perceber o que posso produzir aqui, como posso garantir a minha segurança alimentar.”

mediotejo.net: Não é tanto isolar-se, mas potenciar o que tem?

Denis: Isso tem que se ter muito cuidado. A autosuficiência é muito vista como isolamento. As comunidades autosustentáveis são muito vistas como isoladas. Isso não existe. As cidades, as comunidades, estão sempre ligadas, por isso que eu chamo de bioregião. A cidade tem que se ver dentro desse sistema em que faz parte, mas obviamente vão haver trocas. A cidade tem que saber os impactos das bioregiões que a envolvem.

Outra coisa que tem que entender em Torres Novas é que a participação e a governança tem que passar a acontecer de outra forma. A democracia nesse aspeto tem que ser aprofundada. Mesmo que por voto, o poder de uma cidade não pode estar no grupo político. Não pode estar na mão de um pequeno grupo de pessoas. As decisões fundamentais da cidade têm que ser de todos. A pessoa tem que ser ouvida.

mediotejo.net: E como fazer isso? As pessoas não estão demasiado desinteressadas na política? 

Denis: Não concordo, acho que há um grande número de pessoas interessadas na cidade. A questão é que essas pessoas não são ouvidas. Um dos preceitos da democracia é que haja rotatividade. Mas Torres Novas é uma cidade que não tem rotatividade há mais de 20 anos. O que surge de mal? É que tu crias redes de dependência, tu tens uma série de dependentes políticos à tua volta. Tu tens toda uma engrenagem que depende daquilo. Essa rede é um organismo vivo que vai fazer todo o esforço que ela tem para sustentar, para se manter ali. Esse é o problema da democracia, mesmo a nível nacional.

Há um grande número de pessoas interessadas na cidade. Há um grande número de pessoas que querem tomar parte nas decisões da cidade. O que uma Câmara Municipal tem que fazer é criar o contexto de participação dessas pessoas. Do meu ponto de vista é obrigação de uma cidade facilitar espaços públicos de participação, onde as pessoas sejam genuinamente ouvidas. (…) Na medida em que crias uma cultura de participação, mais pessoas vão participar e se envolver. A questão é que perdemos a cultura da participação, temos a cultura do individual. E isso acontece desde a escola até à cidade.

(…)

A democracia tem que ser ampliada. Os políticos deviam entender isso.

mediotejo.net: Pretendem ficar em Torres Novas para sempre?

Denis: Quem sabe do futuro?…

Julia: As mudanças vêm e nos carregam.

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Cláudia Gameiro
Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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