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Torres Novas | “Deixem-nos trabalhar!” pediram funcionários da Fabrióleo (c/vídeo)

Largas dezenas de funcionários da empresa Fabrióleo compareceram à assembleia municipal de Torres Novas de segunda-feira, 19 de dezembro, apelando a que se pense nos postos de trabalho e que o executivo municipal vá conhecer no local a realidade da fábrica. Negavam assim as acusações da Fabrióleo ser a grande poluidora da ribeira da Boa Água, referindo que a empresa tem as devidas licenças de descarga e investiu inclusive um milhão de euros numa ETAR biológica. A vereadora Helena Pinto (BE) classificou a situação de “aproveitamento de um conjunto de trabalhadores”.

A sessão de assembleia municipal, a última de 2016, estava marcada para a Biblioteca Municipal e rapidamente o auditório ficou completamente cheio, com pessoas em pé. No momento em que foi dada a palavra ao porta-voz do grupo de trabalhadores da Fabrióleo, os funcionários levantaram-se e vestiram coletes refletores. Seguiu-se uma breve exposição sobre os argumentos que haviam levado o grupo a estar presente na sessão.

O responsável, Carlos Romeiro, salientou que a Fabrióleo fez um investimento de um milhão de euros numa ETAR biológica, exporta “mais de 10 milhões de euros por ano”, “contribuiu com 1,5 milhões para o PIB do país” e emprega, direta e indiretamente, “centenas de trabalhadores”. Possui licença para descargas válida “até 2024” e é “uma entidade de referência” na região. A declaração de interesse público, que regressava à votação nessa sessão, era uma forma de legalizar instalações ilegais, à semelhança das que existem em muitas empresas, frisou.

O porta-voz lembrou que o executivo municipal já foi convidado várias vezes para visitar as instalações da Fabrióleo, convidando-os novamente a realizarem essa visita antes de tomarem “qualquer decisão”. Reconheceu que houve uma fissura na ETAR este ano, mas que esta “foi reparada em dois dias”.

A intervenção terminou com as palavras de ordem “Deixem-nos trabalhar!”, proferidas por todo o grupo de funcionários, que se retirou logo de seguida. A assembleia continuou com os moradores da envolvente da ribeira da Boa Água a queixarem-se novamente do mau cheiro e apelando a que a fábrica mude de localização, afastando-se de zonas de habitação. “Sei que os nossos estores estão pretos, as torneiras oxidadas. Algo se passa. Os habitantes também estão a sofrer com a situação””, salientou uma moradora do Bairro do Nicho.

Pedro Triguinho, um dos porta-vozes do movimento Basta, informou ainda a assembleia que a petição entregue na Assembleia da República já desceu à Comissão do Ambiente para análise.

“A confusão começa a ser demasiada”, comentou o deputado do PSD Arnaldo Santos, num sentimento de consternação que acompanhou as restantes bancadas. António Gomes (BE) lamentou que não tivesse sido a direção da Fabrióleo a ir à assembleia, lembrando de seguida uma conversa com uma médica local que lhe disse que a zona com mais incidência de cancros é “Riachos e Meia Via”. Lamentou ainda que os trabalhadores da Fabrióleo não tenham permanecido para ouvir o restante público e as intervenções dos deputados.

Já o presidente da Câmara de Torres Novas, Pedro Ferreira, frisou que nunca apontou o dedo “só à Fabrióleo”. “Há dúvidas sobre os que poluem”, constatou, assim como quantos são e o que está a ser descarregado no afluente. “Dá a sensação que ninguém tem culpa”, diria logo de início sobre a intervenção do grupo da Fabrióleo.

“A Câmara sabe quais são as suas responsabilidades. Tem que estar com a população”, sublinhou, referindo que as ações ambientais foram desencadeadas por autoridades nacionais de fiscalização e que muito do diálogo tem sido prejudicado pela atitude da Fabrióleo. Frisando que não se quer fechar a fábrica, “continuo a achar que a Fabrióleo não está a resolver o assunto da maneira que devia resolver”. “Ninguém quer tirar o pão às pessoas que lá trabalham”.

O porta-voz do grupo de trabalhadores pediu para intervir novamente, mas não lhe foi dada a palavra. Já próximo do final da assembleia, votou-se por unanimidade recusar atribuir a declaração de interesse público à Fabrióleo, repetindo-se a decisão da mesma assembleia a 29 de dezembro de 2015. Votação terminou com uma salva de palmas de alguns intervenientes.

Aproveitamento dos trabalhadores

O tema da ida dos funcionários da Fabrióleo à assembleia municipal de 19 de dezembro foi retomado na reunião de câmara de 20 de dezembro, com Helena Pinto a classificar a situação como “aproveitamento de um conjunto de trabalhadores”. “Aquele não era um trabalhador, era um representante da Fabrióleo”, referiu sobre o porta-voz do grupo, elogiando de seguida o discurso de Pedro Ferreira após o caso.

Já o presidente da Câmara, em resposta ao vereador do PSD Henrique Reis, salientou que nunca “fugiu ao debate” com a Fabrióleo, mas na altura em que o executivo foi convidado a visitar a fábrica vivia-se uma “fase muito aguda”, pelo que se entendeu não ir. Abordaria ainda em vários momentos as suas expetativas na visita do secretário de estado do Ambiente esta quinta-feira, 22 de dezembro, e das possíveis novidades que possa trazer sobre o combate à poluição no rio Almonda.

 

Cláudia Gameiro
Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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