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Quarta-feira, Janeiro 26, 2022
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Torres Novas | Das Caraíbas para Torres Novas, Luís Faria só viu aeroportos vazios

Aproveitou a oportunidade e partiu à aventura em 2019, aceitando um projeto para ir trabalhar no novo Hospital de Guadalupe, um pequeno arquipélago paradisíaco no mar das Caraíbas. A chegada da crise pandémica de Covid-19 deixou-o sem trabalho e em isolamento, sem conseguir voltar para casa. Regressado na última semana a Torres Novas, viu apenas aeroportos vazios, sem outros mecanismos de controlo do vírus. Foi o próprio que tomou a iniciativa de ir pedir esclarecimentos ao Hospital e encontra-se a cumprir o devido isolamento.

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Já está por casa o torrejano que entrevistámos há algumas semanas para as Crónicas da Pandemia. Luís Faria, 48 anos, trabalha para a empresa T.P.R.C., dedicada à construção civil. Desde setembro de 2019 que se encontrava na Guadalupe Francesa com mais seis colegas na construção do novo hospital do pequeno arquipélago, quando foi surpreendido pela pandemia de Covid-19.

“Quando a empresa onde trabalho me fez o convite para ir trabalhar para Guadalupe, confesso que não pensei duas vezes. Por um lado o factor financeiro, mais vantajoso, e por outro o facto de poder conhecer um destino de sonho, que de outra forma seria muito difícil de acontecer. Longe de mim imaginar que poderia vir a passar pela situação actual, e que infelizmente assola todo o mundo”, narrou ainda em Guadalupe o torrejano ao mediotejo.net.

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A situação na obra manteve-se tranquila até 13 de março, dia em que foi conhecido o primeiro caso de infeção por Covid-19 naquela país. “Ficámos todos mais preocupados porque custa, é o primeiro, e sendo uma ilha de muito turismo, com barcos de cruzeiro a chegar com alguma frequência, deixou-me bastante apreensivo”, relatou. Luís Faria estava numa situação particularmente sensível, uma vez que ainda recuperava da dengue que contraíra semanas antes e tinha o sistema imunitário mais debilitado.

Com os casos de infetados a aumentar, a desmotivação tomou conta da obra, com alguma tensão a gerar-se entre os trabalhadores. Luís Faria e os colegas tiveram uma primeira hipótese de regressar a casa, mas preferiram aguardar pelo desenrolar dos acontecimentos, uma vez que o governo de Guadalupe queria manter a construção. Quando finalmente se decidiu encerrar, por tempo indeterminado, a obra, a equipa ficou sem saber como ia regressar a casa.

A obra onde estava a trabalhar parou e Luís ficou retido num país das Caraíbas. Foto: D.R.
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“Sinceramente estou com medo, estou muito apreensivo, muito nervoso com esta situação…”, relatava então o torrejano. “Estou numa ilha a 6000kms de casa, onde as condições médicas são escassas, os casos de infetados sobem a cada dia que passa. Neste momento temos 56 casos e já temos o hospital saturado, os supermercados começam a não ter capacidade de resposta, existem bens essenciais em falta, o abastecimento é feito de barco, demora muito mais, é todo este contexto de incertezas, de medo e de apreensão que vivo neste momento…”

Até receber a indicação de que ia haver um avião para trazê-lo para Portugal, Luís Faria passou momentos difíceis. “À medida que os dias iam passando em Guadalupe, os casos de pessoas infectadas também aumentavam de uma forma preocupante…”, narrou, já em casa, ao mediotejo.net. “Os voos comprados pela nossa empresa eram constantemente cancelados, os aeroportos estavam quase a ser encerrados… O medo… O receio… A incerteza… O nervosismo apoderava-se de nós. As possibilidades e a esperança de um regresso a Portugal eram cada vez mais escassas”.

O telefonema esperado chegou a 27 de março. “Tinham conseguido bilhetes, tínhamos pouco tempo para partir. A confusão, o entusiasmo, mas sobretudo o medo e o receio daquilo que íamos encontrar foram os temas de conversa nas últimas horas passadas em Guadalupe”, relatou.

“Eu, o Paulo, o António (ambos algarvios) o Ricardo e o Armindo (ambos nortenhos) e o João pequeno (de Setúbal) lá partimos com um sorriso  nos lábios para o aeroporto onde nos esperava o chefe com os tão desejados bilhetes”.

A viagem foi ainda assim feita de interrogação constante sobre as dificuldades que encontrariam pelo caminho. Os medos dos portugueses revelaram-se, porém, infundados.

“O aeroporto, apesar de pequeno, estava bastante calmo para o habitual. Fizemos o check-in tranquilamente, não se viram medidas de segurança, algumas pessoas com máscaras e pouco mais. A polícia perguntou-nos para onde íamos, depois na zona de embarque um grande aglomerado de pessoas, sem qualquer cuidado de distâncias. De resto tudo normal. Uma viagem de oito horas até Paris e um avião completamente lotado esperava-nos. Sinceramente pensei para comigo: nestas condições é quase impossível não ficar infectado, mas seja o que Deus quiser”, narrou.

Em Paris, o aeroporto estava quase vazio. Ali o grupo teve que aguardar sete horas pelo voo de ligação. Luís Faria notou sobretudo a ausência das medidas básicas de conteção do vírus. “Neste tempo interminável de espera nenhum controle, nenhuma abordagem, nenhum local com gel desinfectante para as mãos… Simplesmente tudo tranquilo e normal…apenas o receio se haveria voo ou não. Finalmente, por volta das 18h00, partimos para mais duas horas de viagem rumo a Lisboa”.

Em Lisboa encontrou o mesmo cenário: um aeroporto vazio, ausência de controlo dos viajantes e nenhum recipiente de álcool gel à vista. Luís Faria despediu-se dos colegas e seguiu de comboio para casa.

“Cheguei à estação de comboio dos Riachos, troquei de roupa, desinfectei-me todo com álcool gel e fui directo ao hospital de Torres Novas. Expliquei de onde vinha, os riscos que passei, para tomarem as medidas que achassem necessário”, explicou. “Foi-me explicado os cuidados a ter, se pudesse fazer isolamento nas próximas duas semanas seria óptimo, e aguardar…”.

Depois de uma aventura nas Caraíbas, Luís está a cumprir o seu isolamento em casa. “Felizmente tenho a possibilidade de estar isolado, a minha família cuida de mim com os devidos cuidados… Até ao momento graças a Deus não tive qualquer sintoma relacionado com o vírus… Mas todo o cuidado é pouco. Cuidem-se… Protejam-se… Mas acima de tudo sejam conscientes…”.

Quando passar a crise pandémica, este torrejano deverá regressar às Caraíbas. “Estou a aguardar que me digam alguma coisa, para voltar para Guadalupe. É uma questão de reabrirem a obra. Se não houver nada em contrário, penso estar em Guadalupe até ao fim da obra, que agora com esta situação nunca será antes de Novembro”.

 

 

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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