Crónica de uma viagem para honrar a memória da Grande Guerra

Um grupo de 15 pessoas, ao qual se juntaram posteriormente o presidente da Câmara, Pedro Ferreira, e o seu Chefe de Gabinete, partiu de Torres Novas na sexta-feira, 6 de abril, de autocarro com destino a Richebourg, França, para participar num fim de semana de homenagens aos combatentes da Primeira Guerra Mundial, no centenário da batalha de La Lys. Interessado em acompanhar os descendentes dos combatentes torrejanos às paisagens húmidas do vale do rio Lys, o mediotejo.net solicitou à Embaixada de Portugal em França autorização para acompanhar da comitiva. Parando em Rambouillet, concelho geminado com Torres Novas, o grupo participou em várias cerimónias locais e nacionais. Esta é a nossa crónica de viagem.

PUB

Partida A geração pós-25 de abril não tem memória da guerra. Há sempre o pai, o tio e o avô que eventualmente se bateram em Angola, Moçambique ou na Guiné, mas da guerra em si não nos lembramos. As savanas africanas são uma ideia difusa, só estruturada pelos documentários da National Geographic. À minha geração, os ditos millenials, já nos chamaram “à rasca” e, numa fase de infância antes do boom digital, a geração da televisão. Chamam-nos mimados, supérfluos, eventualmente porque não conhecemos a miséria e a guerra, viajamos de mala às costas pelo mundo sem emprego seguro e deixamos a casa e o carro para outras preocupações. Não somos porém ignorantes, embora esse atributo também nos seja por vezes inculcado. Foi nessa tentativa de agarrar uma memória que me escapa mas à qual não quero ser indiferente, que parti para a Flandres com um grupo de descendentes dos soldados da I Guerra Mundial.

Panorâmica de Richebourg, antiga zona de trincheira na região da Flandres onde se deu a batalha de La Lys Foto: mediotejo.net

PUB

Cemitério Militar Português em Richebourg, na zona onde decorreu a batalha de La Lys Foto: mediotejo.net

Os americanos chamaram aos jovens que combateram a guerra de 1914-1918 a “geração perdida”. Alguém terá dito que foram jovens demasiado tarde e velhos demasiado cedo. O escritor Jaime Cortesão, nas suas Memórias da Grande Guerra, narra que, por vezes, os soldados enlouqueciam. Responsável pela censura realizada às cartas que enviavam às famílias, o médico-miliciano afirmava ter começado a conhecer-lhes a alma. Dentro das missivas encontrava “muita frioleira, muita tolice; por vezes até brutalidades tôrvas. Mas de quando em quando, a gente pára, considera e remove certas palavras cá centro. Se nunca sentiste uma alma na mão, vem cá, pega destas cartas de soldados e lê: por força que has de encontrar”.

Talvez não sejamos pois assim tão diferentes da geração desse tempo. Mas para compreender será necessário primeiro conhecer. A viagem é sempre um bom ponto de partida.

A saída de Torres Novas deu-se na sexta-feira, 6 de abril, pelas 16h30. No autocarro, a caminho de França, sentia-se no ar o entusiasmo e a expectativa. Puxando pelas memórias, contavam-se a primeiras histórias de família: o pai que quase morreu na trincheira, a misteriosa namorada francesa do tio que não voltou, o sobrinho-bisneto que encontrou uma carta redigida pelo tio-bisavô e, quase em choque, se apercebeu que, no momento em que a escrevera, era mais novo que ele. Mas também dos dois mortos de Riachos enterrados algures em Richebourg, a frente africana que permanece até hoje quase desconhecida e todos os descendentes que eventualmente ainda existem mas que o município não conseguiu reunir ou não se inscreveram a tempo. E depois as outras guerras, as que marcaram o século XX português, de Guiné a Timor, que a Liga dos Combatentes representou na viagem.

Os representantes do Núcleo da Liga dos Combatentes de Torres Novas deixaram uma placa no cemitério de Richebourg, onde mais de uma centena de soldados portugueses estão sepultados Foto_ mediotejo.net

Por fim, os emigrantes – de França, pois claro – cujo destino de preferência entre os portugueses tem as suas raízes precisamente na Grande Guerra. Numa viagem de autocarro de portugueses a França, o tema emigração terá que passar sempre pela conversa.

O motorista de autocarro é ele próprio, quase sempre, um bom narrador de histórias. Conhece toda a gente, já foi a todo o lado, viveu as mais diversas peripécias e, mesmo a 1600 quilómetros de distância, sabe o que se passa em Portugal e comenta a atualidade ao mesmo tempo que cumprimenta um conhecido de há uma década. Cruzar-se permanentemente com pessoas faz parte da sua vida e as histórias que conta emprestam um outro colorido à sua profissão.

A viagem para Rambouillet foi temperada por estas narrativas, muitas anedotas, entrecortadas pela respiração profunda de quem conseguiu adormecer e as breves conversas de quem desiste e prefere manter-se acordado. Já todos viajaram, uns mais que outros. Ninguém é um estreante nestas andanças, mesmo que tenha saído do país apenas para trabalhar.

Trocam-se ideias sobre países, pedem-se dicas sobre itinerários e trajetos mais em conta. Fala-se de assuntos corriqueiros e das últimas notícias deixadas em Portugal. É a fase em que todos aproveitam para se conhecerem.

De Versalhes a Rambouillet Quase não encontramos trânsito. Tão célere decorre o percurso que chegamos à região de Paris muito antes da hora prevista para estacionar em Rambouillet, cidade geminada com Torres Novas, cuja associação de geminações local organizou as dormidas do grupo em casas de locais.

Chegados antes da hora, torrejanos pararam em Versalhes. Foto: mediotejo.net

Depois de uma visita a Versalhes, prosseguimos então para Rambouillet, cidade pitoresca dos Yvelines com cerca de 27 mil habitantes, na região de Íle-de-France (Paris). À medida que se procuram indicações para chegar ao Hotel de Ville (Câmara Municipal), faz-se pela janela a primeira visita à cidade. A arquitetura rústica francesa, em tons rosa e castanhos de contornos neoclássicos, faz lembrar os desenhos dos livros de contos-de-fadas. Chama a atenção do grupo o característico carrossel junto aos cafés, onde brincam várias crianças.

Pouco depois, somos recebidos por Carlos Parreira. Emigrante em França desde 1970 e ex-presidente do Comité de Geminações, traz um entusiasmo e alegria que nos acompanharão todo o fim de semana.

Motorista de pesados durante muitos anos, conheceu todo o país. Não pára, não desiste, não desanima. É um empreendedor, com características humanas que permitem iniciar novos projetos e coordenar relações. Responsável pela geminação de Rambouillet com Torres Novas, lembra todo o processo com bastante orgulho e paixão. Das festas e bailes a todo o género de iniciativas, envolveu-se a fundo no associativismo luso-francês e deixou marca. Hoje é o presidente honorário do Comité de Geminações e é ele que distribui e orienta, fazendo a ponte com o município francês, toda a comitiva torrejana.

Carlos Parreira chegou a França em 1970 Foto: mediotejo.net

Ao fim do dia há uma receção na Câmara Municipal. Pedro Ferreira ainda não chegou e é a vereadora Elvira Sequeira quem o representa. Há um cocktail que satisfaz o apetite por gastronomia francesa. O presidente local, Marc Robert, fala animado dos valores comuns de Rambouillet e Torres Novas, duas cidades que têm ainda muito o que partilhar.

Sábado foi o dia de Rambouillet. O seu belo Castelo e as ruas animadas, onde toda a gente parece estar de bem com a vida, não podiam ter concretizado melhor receção. “Isto está tudo a correr tão bem”, comenta-se.

No dia seguinte há uma tradicional feira de velharias pela manhã, mas a hora de partida marcada para o meio-dia coloca constrangimentos a algumas deslocações. Há quem organize uma ida à missa. Nas conversas institucionais, combina-se tocar o sino pelas 10h00 de 11 de novembro em Torres Novas, dia do armistício da I Guerra Mundial, reproduzindo o que será feito também nas restantes geminações desta cidade francesa.

A Paris de Hermano Sanches O vereador dos Assuntos Europeus na Câmara Municipal de Paris, Hermano Sanches, é natural de Alcaíns, Castelo Branco, e é ele quem recebe a comitiva torrejana numa primeira paragem no domingo, dia 8, no Hotel de Ville, próximo da Catedral de Notre Dame.

Hermano Sanches, vereador na Câmara de Paris Foto: mediotejo.net

Conforme vai explicando ao longo da visita, o município parisiense tem por hábito receber as delegações que visitam a cidade, organizando todos os anos uma receção para a comunidade portuguesa em França. O objetivo é dar a conhecer a cidade e, se houver esse interesse, estabelecer ligações que promovam a própria língua francesa. As portas estão mais que abertas, vai salientando, a Portugal.

O edifício municipal, destruído aquando a Comuna de Paris (1871) e reconstruido de seguida, é uma daquelas visitas improváveis a colocar num itinerário de viagem, mas que, como tudo em Paris, tem uma história própria e com a sua grandiosidade, representativa do que foram os primeiros tempos da República. Querendo imitar o melhor que se fazia na monarquia, possui salas e salões com os espelhos e dourados de Versalhes, candeeiros e pinturas murais que narram os momentos chave da revolução de 1789. Hermano Sanches partilha estes pormenores aos torrejanos, com detalhes históricos que fazem a delícia de quem se interessa pelos temas. Um busto de Marianne esculpido pelo próprio Rodin ou um retrato de Descartes nas paredes de um dos grandes salões são algumas das preciosidades do edifício.

Auditório da Câmara de Paris surpreende os visitantes Foto: mediotejo.net

Busto de Marianne da autoria de Rodin Foto: mediotejo.net

Pormenor: Corredor do Hotel de Ville de Paris a imitar Versalhes Foto: mediotejo.net

Mas a sala onde toda a gente estagna e arregala os olhos de verdadeira surpresa é o auditório onde se realizam as assembleias municipais. Parece uma Assembleia da República em miniatura, São Bento no coração de Paris, com umas pequenas galerias, inclusive, para o público. “Que tal uma assim em Torres Novas?”

O grupo senta-se nos lugares dos deputados e Hermano Sanches explica a organização municipal de Paris, o orçamento de que dispõe e as competências e incompatibilidades dos representantes. O orçamento municipal faz-se em mil milhões, são aprovados centenas de decretos por sessão e só se pode falar durante cinco minutos. “Respeita-se o tempo?”, pergunta impertinente, a jornalista. “Nem sempre”, confessa.

Comitiva torrejana na Câmara de Paris cont., vereador português Hermano Sanches fala sobre o interesse nas relações com os municípios portugeses

Publicado por mediotejo.net em Domingo, 8 de Abril de 2018

Tiram-se fotos e Pedro Ferreira não resiste em tocar o pequeno sino que marca a cadência das reuniões municipais. A realidade autárquica é aqui complemente outra. Muitos ministros nacionais chegavam a exercer funções municipais antes da situação se tornar incompatível. Hermano Sanches é a prova viva de uma comunidade portuguesa que se vai cada vez mais misturando com a estrutura de França.

A “revolução” Marcelo Pelas 16h00 de domingo, véspera do centenário da batalha de La Lys, um dos maiores desastre militares que Portugal viveu na sua história, a solenidade do momento começa a ganhar forma física.

Marcelo Rebelo de Sousa foi o centro das atenções em França Foto: mediotejo.net

Às 17h00 é necessário estar na Avenue des Portugais para o descerramento de uma placa comemorativa pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o Primeiro Ministro, António Costa. Estão presentes algumas centenas de portugueses, cuja circulação está vedada por grades. Uma banda filarmónica toca, um rancho dança, erguem-se bandeiras portuguesas e aguarda-se pelos Chefes de Estado e de Governo. São representantes da comunidade portuguesa em França que vieram sobretudo para ver Marcelo.

Portugueses em França aguardavam por Marcelo Rebelo de Sousa Foto: mediotejo.net

O objetivo: tirar uma selfie com Marcelo Foto: mediotejo.net

Quando o Presidente chega ouvem-se os primeiros gritos. “Senhor Presidente, venha aqui cumprimentar-nos”, alguém chama. Descerra-se a placa e dizem-se algumas palavras da circunstância. Faz-se a ronda pelos porta-bandeiras e realizam-se os cumprimentos oficiais.

Quando Marcelo finalmente cai na multidão, gera-se o caos. De jornalistas e pessoas, com alguma segurança à mistura que depressa desiste de tentar controlar o Presidente. Vem abraço, vem selfie, beijinho aqui e ali, vai criancinha a chorar que recebe um beijinho na mesma, apresenta-se a neta do soldado Milhões (um herói da guerra agora retratado em filme), com quem Marcelo troca algumas palavras mais demoradas.

Já toda a comitiva torrejana e representantes franceses e portugueses estão no Arco do Triunfo para a homenagem ao soldado desconhecido, quando alguém informa que Marcelo está atrasado porque continua na Avenue dos Portugais a dançar folclore.

Multidão composta pela comunidade portuguesa em França gritou por um momento com o Presidente da República Foto: mediotejo.net

Emmanuelle Macron era outra das figuras aguardadas pelos torrejanos, mas interagiu muito menos com a população Foto: mediotejo.net

A popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa surpreende quem não é português. No momento em que este e António Costa depositam coroas de flores no memorial ao soldado desconhecido, é o Presidente que todos aguardam cumprimentar. “Ninguém chega perto”, é o aviso, muito difícil de cumprir. Salta jornalista, salta público para onde não devia de estar e já está tudo de novo nas fotografias. Marcelo aqui respeita o momento, não cumprimenta mais ninguém que não os porta-bandeiras.

Na segunda-feira, 9 de abril, centenário da batalha de La Lys, já o Presidente de França, Emmanuelle Macron, partiu há muito do Cemitério Militar Português de Richebourg e Marcelo e Costa continuam nas selfies. Serão avisados que a comitiva torrejana se encontra presente e, de facto, torrejanos há muitos por ali, até entre os militares presentes para a homenagem. Outro grupo, chegado de Murça, terra do soldado Milhões, também se encontrará nas cerimónias, somos alertados, mas não se chegará a ter conhecimento de mais nenhuma comitiva que tenha viajado propositadamente de Portugal para presenciar todos estes momentos.

Homenagem ao soldado desconhecido no Arco do Triunfo, Paris Foto: mediotejo.net

Ao almoço, num pavilhão desportivo de Richebourg que recebe todos os convidados da Embaixada de Portugal em França, sucede uma derradeira surpresa. O Presidente Marcelo, acompanhado por um discreto António Costa, vem deixar algumas palavras a estes convidados. Recorda o momento que se viveu naquele dia e apela a que se cante o hino nacional. À nossa volta encontra-se uma exposição com várias fotografias das trincheiras e dos soldados que combateram na Grande Guerra.

“Quem é aquele?”, questiona um espanhol face ao aparato súbito de telemóveis e câmaras de televisão quando há poucos segundos estava tudo de prato na mão a servir-se dos pastéis de nata do buffet; “O Presidente de Portugal”, responde-se; “?!… O Macron muito dificilmente faria tal coisa…”

Pelos nossos pais e tios que aqui tombaram (ler reportagem)

De onde tirar uma bendita fotografia do cemitério? Ficam todas estranhas, campas e mais campas sem nada significativo que as distinga além de, obviamente, serem muitas. Procuro um nome, mas as pedras tumulares estão tão gastas pela erosão que as letras se tornam irreconhecíveis; fileiras e fileiras de lápides sem qualquer identidade…

Entretanto o cemitério esvazia, o núcleo de Torres Novas da Liga dos Combatentes aproveita para colocar uma coroa de flores junto ao altar onde minutos antes representantes de França e Portugal depositaram as suas coroas, mesmo ao lado de um ramo enviado pelo Governo alemão. Junto ao brasão português deste altar estão todas as regiões de Portugal, menos o Ribatejo, é notado pelos torrejanos, questionando-se a que se deve a ausência, sem encontrar quem lhe dê resposta.

Junta de Riachos também deixou em Richebourg um pedra com uma a homenagem aos combatentes Foto: Elvira Sequeira

A Liga e o presidente de Riachos, José Júlio, que acompanhou a comitiva, procuram alguém a quem deixar as inscrições em pedra que queriam colocar no mural existente no cemitério. O problema, explicaria posteriormente José Júlio, é que o mural foi desmontado para ser reerguido numa parede própria e o guarda do Cemitério terá explicado que não era o melhor dia para fazer tais homenagens. As pedras ali ficaram, confiadas a locais, à espera da sua oportunidade.

Na busca da melhor foto do local reencontro o grupo, que descobriu alguns conhecidos entre o público. O Presidente Marcelo continua a tirar selfies e a cumprimentar quem se dirigiu ao cemitério, acabando por ficar o tempo suficiente para tirar uma fotografia com a maioria dos torrejanos. Apercebo-me então que não vejo António Costa há algum tempo. Olho em volta e descubro-o sozinho, num canto do cemitério, rebaixado sobre o muro exterior, a tirar com o seu telemóvel uma fotografia de perspetiva. “Ora que boa ideia Senhor Primeiro Ministro!”.

Meio esquecido pela multidão, António Costa aproveitou para tirar fotografias Foto: mediotejo.net

António Costa não resistiu às fotos Foto: mediotejo.net

Há uma capela bem próxima, dedicada a Nossa Senhora de Fátima, onde ainda vamos acender uma vela. Um euro em memória dos soldados e por um bom regresso a casa. Esperam-nos mais 20 horas de viagem na terça-feira, dia 10 de abril.

No regresso lembram-se as emoções vividas no Cemitério de Richebourg e a agitação de todos aqueles dias. Há algum cansaço, resultado também da hora madrugadora – cerca das 04h00 – que se deixou Rambouillet. Pedro Ferreira falará de algum alívio sentido pela parte de quem ali se dirigiu. A missão, que começou a ser planeada em Torres Novas há cerca de dois anos, está finalmente cumprida.

Ainda se queria ir à Torre Eiffel tirar uma fotografia, mas a chuva prometida começa finalmente a cair. A trégua que os céus deram durante a viagem começa a chegar ao fim. Vê-se ainda o Sena e os barcos-casa que agora povoam o rio e perdemo-nos pelas estradas congestionadas devido à greve dos transportes públicos que se vive no país.

Há um sono muito tranquilo no autocarro. Só a jornalista tecla.

Comitiva torrejana encontrou em Richebourg conhecidos de Torres Novas Foto: mediotejo.net

A viagem tinha como objetivo preservar a memória. Os nomes de João Francisco Rosa, António Francisco Monteiro, Manoel Castelo Lopes e José Lopes Pereira, torrejanos, foram recordados no centenário da batalha de La Lys. Não foram familiares afastados, foram pais e tios que se recordaram ali, naquele dia. E ao lembrarem-se as histórias dos que combateram e morreram numa guerra espoletada em nome da soberba, pensa-se nas guerras de hoje e nos motivos que tornam desavindos os países. Foi a mensagem deixada pelos Presidentes da República de França e Portugal, ao recordar La Lys 100 anos depois.

A par da nostalgia e da melancolia que se sentiu em Richebourg, houve também a sua dose de êxtase e alegria, e também de imprevistos. Entre o “bonjour” e o “merci”, nem com a polícia se discutiu. Numa onda de política dos afetos, até o cão-polícia a dada altura pedia afagos a um jornalista. Muita segurança, mas todos participaram e tiveram oportunidade de fazer as suas homenagens. Partiu-se com o sentimento de dever cumprido e agradeceu-se a paciência durante o stress protocolar, várias vezes infringido.

Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa ficaram até o cemitério estar vazio e ainda fizeram uma visita surpresa ao almoço dos convidados da Embaixada de Portugal em França Foto: mediotejo.net

Uma aventura de cinco dias em França onde se reforçaram as ligações institucionais entre países, a nível nacional mas também municipal, que muito devem à emigração portuguesa. Assim se percebe quem somos e o que outros foram antes de nós. Assim se abre caminho para o diálogo que tantas vezes é recusado por quem comanda de forma cega, sem querer aprender com o passado. Esta é afinal a herança das guerras: lições para o futuro. Há que preservar a memória do que foram e as consequências que trouxeram.

Ler mais:

Pelos nossos tios e pais que tombaram em La Lys

Região perdeu 128 soldados na Grande Guerra, 12 em La Lys

Seminário em Tomar recorda glória e embaraço de La Lys, 100 anos depois

PUB
PUB
Cláudia Gameiro
Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).