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Quarta-feira, Janeiro 19, 2022
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Torres Novas | Célia Bar”rock”a e o novo canto do Indifado (c/ entrevista e músicas)

Célia Barroca sobe ao palco este sábado, dia 12, e leva os temas dos álbuns “Tejo” e “Lágrima Tola”, mas não acompanhados pelos instrumentos musicais do costume. O fado encontrou-se com o rock dos músicos Luís Santos (Siul Sotnas), Pedro Ferreira, Edgar Ferreira, Telmo Santo e Patrícia Pinto e reinventou-se no “Indifado”. Marcámos encontro em Riachos, a terra natal onde vai atuar, para conhecer a fadista e o projeto que transforma o “Canto Velho” num novo canto, provando que “o fado de hoje já não se canta como há 100 anos”.

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A música faz parte da vida de Célia Barroca desde que se lembra. No entanto, as primeiras memórias que partilhamos não as são suas, mas as da vizinha do lado que ouvia cantar a menina de quatro anos no quintal da casa de família em Riachos, concelho de Torres Novas. As dela começam quando era chamada para dentro de portas pela mãe, Maria Noémia, e onde era o pai, Manuel Barroca, quem cantava enquanto preparava as récitas apresentadas às gentes da terra entre encomendas de alfaiataria.

Depressa percebemos que o teatro e a música, duas artes pelas quais é conhecida, lhe estão nos genes. O primeiro ganhou estatuto profissional com o curso nesta área (antecedido pelo de História) e a fundação e participação como atriz no grupo Teatro do Século, em Lisboa, durante três anos. Aprofundou-se com a carreira de docente de Expressão Dramática na Escola Superior de Educação de Santarém que mantém até aos dias de hoje.

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O público mais regular são os alunos, mas voltou a ter contacto com aquele que aplaude no fim do espetáculo com a encenação da peça “Antígonas” de Jean Anouilh, apresentada na Casa do Povo de Riachos durante a mostra de teatro “Bons Vizinhos” que o Teatro Virgínia promoveu em 2014. Outros aplausos virão quando o grupo de teatro amador a que atualmente pertence der passos mais firmes.

Fotografia promocional do projeto “Célia Barroca & o Indifado”. Foto: Paralelo 39

A música também lhe corre na veia artística, com o fado a ganhar lugar próprio entre as canções que foi interpretando nos concertos caseiros ou na Sociedade Velha Filarmónica Riachense. O “primeiro espetáculo”, aos 12 anos, foi no salão paroquial junto do antigo ringue de patinagem e muito próximo do jardim onde conversámos, que a população conhece como Jardim 25 de Abril, durante o qual foi descoberta pelo ensaiador Alfredo Chora.

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Nessa altura, a música que é hoje Património Imaterial da Humanidade surgia misturada com outras canções portuguesas da moda, nomeadamente as do Festival da Canção e, mais tarde, em estado puro nas tertúlias organizadas por alguns amigos regressados de África. Encontros culturais que levavam pessoas de Coimbra aos Riachos e chegaram a levá-la da vila torrejana à Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa.

Foi por essa altura que conheceu Rui Girão e José Carlos Marona, com as respetivas viola de fado e guitarra que começariam pouco depois a acompanhar-lhe a voz. A vontade de gravar o primeiro disco foi ganhando forma, concerto após concerto, e em 1997 surgia “Tejo”, uma edição de autor à qual se seguiu uma “Lágrima Tola”, inspirada em Amália e que deu nome ao segundo trabalho discográfico, gravado em 2003.

A fadista durante a entrevista no Jardim 25 de Abril. Foto: mediotejo.net

No meio de peças de teatro e temas musicais ainda surgiu a dança durante os 15 anos em que fez parte do Rancho Folclórico “Os Camponeses” de Riachos. Começou por cantar, mas preferiu ir para o centro do palco naquela que Célia Barroca diz ser “uma das experiências mais ricas que tive na minha vida”. Não só pelo ambiente envolvido, mas também pelos festivais internacionais que lhe permitiram “sair para o mundo”.

Lá fora dançou, por cá continuou com outras artes. Não apenas o teatro e a música, mas também a pintura e a escrita. Os encontros com as telas e as tintas davam-se “quase de forma compulsiva” na fase em que a pintura lhe proporcionava momentos de descontração, tendo chegado a partilhar a criatividade nesta vertente em exposições pontuais. A faceta é hoje menos visível, mas existem “provas” e uma delas é a obra exposta no Museu Agrícola de Riachos.

No caso da caneta, o número de provas aumenta pois os versos que ia “cantarolando” nas viagens diárias transformaram-se nas letras de temas que integram o segundo álbum, juntando-se às de Rodrigo Leão em “Vida tão estranha”, de Ary dos Santos em “O meu amigo está longe” ou de Belo Marques em “Fora d’horas”, presentes no primeiro. A autoria das músicas, por sua vez, é partilhada por Luís Petisca, cuja guitarra portuguesa já acompanhou Vicente da Câmara, António Zambujo, Camané ou Mariza, e Luís Martins, ex-guitarrista dos Silence 4.

Tema “Fora d’Horas” na versão “Indifado” (ensaio). Audio: Paralelo 39

Uma vez conhecidos a fadista e as músicas, temos a matéria-prima de que é feito o “Indifado”, o novo projeto musical que Célia Barroca apresenta este sábado no Largo Manuel Simões Serôdio, mais conhecido pelo Largo da Igreja Velha. A antiga Igreja de Santo António, onde os pais se casaram e ao lado da qual morou com a família durante décadas, já não existe, mas Célia Barroca lembra-se do templo religioso “pequenino”.

Não a conheceu nas missas, que entretanto passaram para a nova igreja, mas como sala de ensaios do grupo de teatro. Do interior, recorda também as “camisadas” – tradição de desfiar as camisas do milho para encher colchões – e, dos degraus da entrada, as esperas pela “a camioneta” que a levava até às aulas da antiga Escola Industrial de Torres Novas, atual Escola Secundária Maria Lamas.

A testemunhar esses tempos está a imagem da igreja, imortalizada no painel de azulejos junto da escadaria que dá acesso ao palco. Não o vai pisar sozinha. A partir das 21h30, Célia Barroca terá a seu lado Luís Santos (Siul Sotnas) na guitarra, Pedro Ferreira na bateria, Edgar Ferreira nas teclas, Telmo Santo no baixo e Patrícia Pinto nas vozes, os músicos que, juntamente com a fadista, tornam o “Indifado” um projeto peculiar e inovador.

Célia Barroca no Largo da Igreja Velha. Foto: mediotejo.net

A música da saudade tem dado as mãos ao pop, mas os encontros com o rock são raros e a Paralelo 39 – Associação Cultural de Saberes e Artes, sediada na Casa do Povo de Riachos, já partilhou alguns desses momentos. A união dos dois estilos musicais surgiu em 2015 e teve como “padrinhos” Célia Barroca, Luís Santos e Pedro Ferreira, também eles de Riachos. O fado que já tinha sido acompanhado pelo violino, o contrabaixo ou o violoncelo nos concertos de Célia Barroca viu-se entre guitarradas e toques de baquetas.

Ganhou novo ritmo sem perder a singularidade e a nova essência, a do “Indifado”, foi tornada pública no ano seguinte durante a Festa da Bênção do Gado. O feedback do público foi positivo e seguiram-se dois concertos de menor dimensão, na ação contra a poluição organizada pelo movimento “Basta!” na Praça 5 de Outubro (Torres Novas) em junho do ano passado e outra, no mês seguinte, na Marinha Grande.

A apresentação oficial foi guardada para este sábado na terra natal dos três padrinhos, que não fazem questão de apresentar o projeto como “riachense”. O alinhamento é composto por mais de dez temas e uma novidade, criada em conjunto durante os ensaios, que fará a borboleta de Eugénio Andrade, presente na letra da “Canção de Leonoreta”, esvoaçar pelo Largo da Igreja Velha com os sons compostos por Luís Petisca enquanto a fadista lhe pergunta onde vai e porque não a leva consigo.

“Velho Canto”, de Célia Barroca & O Indifado. Vídeo: Paralelo 39

Como resposta terá “vou ao rio e tenho pressa / não te metas no caminho”. A borboleta seguirá caminho para ir ver o jacarandá, que já deve estar florido”, no largo ficará o público presente no primeiro concerto do “Indifado Tour”. Depois da apresentação do projeto em Riachos, o grupo atua em Alcaíns a 19 de maio e na cidade de Santarém no mês de junho.

O primeiro contacto com o “Indifado” de Célia Barroca, Luís Santos (Siul Sotnas), Pedro Ferreira, Edgar Ferreira, Telmo Santo e Patrícia Pinto será com “O Velho Canto”, um dos temas do segundo álbum da fadista. A escolha foi “consensual” e a primeira mensagem a ser transmitida à plateia é a do “fado que fala de fado”, mas também “de nós todos, de um Portugal do antes e um Portugal do depois, um Portugal velho e um Portugal novo”.

A fadista admite que os puristas poderão não “achar tanta graça” a este fado com “a batida e a energia” dos músicos. No entanto, defende que “a cultura é uma coisa que nunca está quieta e não há nada puro pois somos influenciados pelo que está à nossa volta. O fado de hoje já não se canta como há 100 anos, nem há 50. As coisas vão sempre mudando e daqui a 50 anos será outra coisa também”.

Acrescenta que o fado, à semelhança de outros estilos musicais, tem tido capacidade de se reinventar mantendo o que o torna único. O mesmo fado que é o “Velho Canto”, o “cantar que se renova e tem cada vez mais força” e que a fadista pode assinar como Célia Bar”rock”a diz ser uma “comunhão” com público, um “sentir”. O seu fado “é o prazer de cantar” e quando a união sai “perfeita” é “um prazer muito grande”.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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