Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Sábado, Setembro 25, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Torres Novas | Boquilobo, a aldeia que guarda a memória do General Sem Medo

O Boquilobo é uma pequena aldeia da freguesia de Brogueira, Torres Novas, onde em 1906 nasceu Humberto Delgado, candidato à presidência da República em 1958 e autor da célebre divisa “Obviamente, demito-o”, quando questionado sobre o que faria com Salazar. Sabe-se que ali viveu o primeiro ano da sua vida e que, aparentemente, por lá terá parado pouco tempo antes de morrer. Na localidade residem ainda hoje vários primos e parentes afastados dos Delgado. Há também uma Casa Memorial, algo esquecida na região. Os turistas chegam sobretudo de fora, em busca da memória do General Sem Medo, assassinado a 13 de fevereiro de 1965.

- Publicidade -

Tão próximo de Riachos, terra de Reserva Natural, o Boquilobo está perdido no interior do Ribatejo, misturando-se com o verde e o rústico de uma terra idosa mas pejada de histórias. Em Brogueira – antiga sede de freguesia, hoje em união com Parceiros de Igreja e Alcorochel- encontramos as primeiras homenagens a Humberto Delgado: um busto com o seu nome, seguido de uma rua com a mesma nomenclatura a caminho do Boquilobo. Assim nos apercebemos que vamos na rota certa.

foto mediotejo.net
foto mediotejo.net

- Publicidade -

Saímos das estradas principais e embrenhamo-nos no Portugal profundo. Para quem desconhece os caminhos, o Boquilobo surge quase de surpresa, uma placa súbita a anunciar a chegada a mais uma aldeia perdida no vale. Perguntamo-nos como nasceram tão isoladas pessoas que conheceram o mundo e que, aquém do final trágico, marcaram a história de um país. Nos idos de 50/60 era tão mais fácil ter medo…

Rapidamente chegamos ao centro da aldeia. Nos censos de 2011, a extinta freguesia de Brogueira registou 1112 habitantes. O Boquilobo é sobretudo conhecido pela sua Casa das Enguias, cujo prato é típico na localidade. As moradias vão-se perfilando com gosto e recato, obedecendo à arquitetura tradicional da região ribatejana, mas esta é uma terra solitária, que tão rapidamente conhecemos como depressa a perdemos nas atribulações de uma viagem.

Humberto Delgado aqui nasceu em 1906, tendo já três irmãs. O pai, militar, mudar-se-ia ao fim de um ano para Abrantes. Regressado ao concelho, fixou-se por Torres Novas. Humberto Delgado viria a ter a sua residência oficial em Alcobaça, mas foi na prática “um homem do mundo”, vivendo em várias cidades e países ao longo da vida. Passou algumas vezes pelo Boquilobo durante a infância e idade adulta, mas nunca mais aqui tornaria a residir.

A Casa que guarda a memória

A viagem do mediotejo.net tem como destino a Casa Memorial Humberto Delgado, espaço inaugurado em 1996 por uma associação própria, mas que em 2009 passou para a tutela da Associação de Defesa do Património de Riachos, que também integra o Museu Agrícola. O edifício pertence à junta de Brogueira e chegou a possuir uma funcionária a tempo inteiro. Hoje é aberto ocasionalmente, sempre que há interessados em visitar o espaço. Pouco conhecido no entanto, há quem se queixe que está sempre fechado.

Grupo de Porto Salvo deixa mensagem no livro da Casa Memorial Humberto Delgado. foto mediotejo.net
Grupo de Porto Salvo deixa mensagem no livro da Casa Memorial Humberto Delgado. foto mediotejo.net

São, na prática, duas casas. Uma requalificada e modernizada, que serve de hall de entrada à casa onde nasceu o General. Esta última está conservada tal como era há um século, com as suas divisões minúsculas e a sua grande lareira. Acompanhamos a visita de um grupo de idosos que chega de Porto Salvo, em Oeiras. É Mafalda Luz, diretora adjunta da Casa Memorial e do Museu Agrícola, quem faz a visita. Pergunta se alguém conheceu o General Sem Medo.

“Vi-o em Chaves”, diz alguém; “Eu também”, refere outra pessoa; “Ele ganhou e ganhou bem!”, afirma o primeiro, prosseguindo mais tarde com a mesma narrativa em torno das eleições de 1958 e a sua famosa campanha, lembrando que “eram multidões. Chegou a andar no ar”.

Quem se desloca para visitar a Casa Memorial Humberto Delgado são sobretudo pessoas de fora, explica Mafalda Luz, adiantando que esse constitui o grosso dos cerca de mil visitantes que o espaço recebe todos os anos. Apesar da terra ter um grande orgulho na personagem de Humberto Delgado, a Casa Memorial não conseguiu criar laços fortes com a população, que raramente a visita.

“As pessoas gostam de ter a casa, mas não sentem a casa”, explica, comentando que com o encerramento das escolas de 1º ciclo de Brogueira e Alcorochel perdeu-se a atividade infantil que se desenrolava em torno do espaço. “O que tentamos fazer é elevar o nome da Casa lá fora”, percorrendo as escolas da região com exposições temáticas.

Nas escolas a associação tenta explicar quem foi Humberto Delgado e o que representou viver na sua época a defesa dos valores da liberdade e da democracia. O contexto já parece muito distante para os mais novos e o seu conhecimento resulta sobretudo do esforço didático dos professores. Nas suas visitas, a associação optou por transmitir um documentário sobre Humberto Delgado, que ajuda a compreender melhor toda a sua história.

Corredores estreitos, quartos minúsculos, a Casa onde nasceu Humberto Delgado está completamente preservada. foto mediotejo.net
Corredores estreitos, quartos minúsculos, a Casa onde nasceu Humberto Delgado está completamente preservada. foto mediotejo.net

A Casa Memorial vai organizando também algumas iniciativas simples no seu espaço, como noites de poesia ou exposições com fotos antigas dos habitantes do Boquilobo. Todo o espólio é sobretudo documental, com jornais, fotografias, livros e algum mobiliário antigo. Quem visita de propósito este pequeno museu vem à procura da memória de Humberto Delgado e são muitas vezes pessoas que viveram a sua campanha política. “O General não estabeleceu aqui uma raiz, era a casa dos avós maternos”, explica Mafalda Luz.

Apesar de não existir grande ligação histórica com a região, a responsável salienta a importância de se preservar este património e continuarem a realizar-se iniciativas que aproximem a população da simbologia do edifício. “O ideal é integrar a casa num roteiro concelhio” que passe, por exemplo, pela Vila Cardílio, como foi o caso do grupo de idosos de Porto Salvo. Mafalda Luz reconhece que a localização do Boquilobo não ajuda a esse intento. Mas frisa que “tem que se levar as pessoas a interessarem-se pelo património”.

“Só os cachopos é que o viram”

Deixamos a visita à Casa Memorial e passamos pelo Café Ludovino, do outro lado da rua, onde a proprietária, Irene Ludovino, exibe na parede uma fotografia do General Sem Medo, envergando o seu uniforme militar. “É uma fotografia original que ele tirou na cela, há muitas pessoas que tiram fotografias junto dela”, explica a proprietária, confessando que recebeu este presente da filha do General, por lhe ter guardado durante muitos anos vários pertences de Humberto Delgado.

Irene Ludovino viu Humberto Delgado pouco tempo antes de morrer, numa breve passagem pelo Boquilobo. foto mediotejo.net
Irene Ludovino viu Humberto Delgado pouco tempo antes de morrer, numa breve passagem pelo Boquilobo. foto mediotejo.net

Que pertences?, queremos saber! “Cartas que ele trocava com um primo, António, que vivia aqui. Vinham em nome de uma Iolanda”, explica a idosa, lembrando-se que esse era o nome que o General usava para as cartas não serem identificadas. O dito primo ria, que ia ler as cartas da sua Iolanda.

Irene Ludovino guardou também fotos e vários documentos. Mais tarde deram-lhe a fotografia do General, em modo de agradecimento. Figura hoje num local central do café e desperta a curiosidade dos turistas.

Casa Memorial Humberto Delgado. foto mediotejo.net.
Casa Memorial Humberto Delgado. foto mediotejo.net.

A Casa Memorial inicialmente teve mais vida, comenta, mas ainda a visitam vários grupos, os quais passam depois pelo seu café. Irene refere que existe muita família do General, sobretudo primos, espalhada pela terra e que ela própria chegou a vê-lo, em criança.

Como era? “Era um senhor já de idade e morreu pouco depois”, recorda. Irene teria uns 12 anos e estava a brincar no largo da aldeia. “Apanhou aqui um wolksvagen e chamou-me. Perguntou: Conheces o Manuel Pombaleiro? Diz-lhe só que esteve aqui o primo Humberto Delgado”. O recado seria para dar mais tarde, mas Irene foi a correr avisar o vizinho. Recorda que o carro ainda se atrasou, mas Manuel Pombaleiro já não apanhou o familiar. “Só os cachopos é que o viram”.

O Café Ludovino, no Boquilobo, exige a foto original de Humberto Delgado na sua farda militar. foto mediotejo.net
O Café Ludovino, no Boquilobo, exige a foto original de Humberto Delgado na sua farda militar. foto mediotejo.net

Humberto Delgado seria assassinado pouco tempo depois, em 1965.

*Reportagem publicada originalmente em abril de 2016

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

- Publicidade -
- Publicidade -

1 COMENTÁRIO

  1. Será que a Casa Memorial já teve obras e já está visitável de novo? Bpa pergunha. Há menos de um ano estava encerrada porque o seu estado estava absolutamente dae a necessitar de uma obra conservação e de restauro a sério. Agora não sei.

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome