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Sábado, Outubro 16, 2021

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Torres Novas | Bibliotecas de Alberto Manguel, ou as “estranhas criaturas” que nos tornam viajantes mágicos no espaço e no tempo

São as bibliotecas “estranhas criaturas” que desde a longínqua Biblioteca de Alexandria se assumem como espaços imunes a fronteiras territoriais e temporais? São estes os locais em que o livro é o ponto de partida para uma viagem universal que transforma o leitor num viajante mágico? A tudo isto, Alberto Manguel disse “sim” esta quarta-feira, dia 20, na conferência que integrou a terceira edição do Encontro da Rede de Bibliotecas Associadas à Comissão Nacional da UNESCO.

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O evento dedicado ao tema “A Felicidade” realizou-se na Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes ao longo do dia em que se apresentou o Plano de Atividades da Rede das Bibliotecas associadas à Comissão Nacional da UNESCO (CNU), se entregaram os prémios do concurso “O que é a Felicidade” e os grupos de trabalho com representantes de diversas bibliotecas nacionais se juntaram para refletir sobre os temas “As Bibliotecas como centros de aprendizagem” e “Que Bibliotecas Públicas do futuro?”.

Alberto Manguel. Foto: mediotejo.net

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O início da tarde ficou marcado pela conferência com Alberto Manguel, o escritor, tradutor e bibliófilo que foi os olhos de Jorge Luís Borges quando este decidiu escrever poesia sem que a cegueira se afirmasse como entrave para conhecer as palavras dos outros. O palco do auditório foi partilhado com Carlos Vaz Marques, que assegurou a moderação perante uma plateia cheia, mais interessada em ouvir do que em questionar.

Foi perante leitores, bibliómanos, bibliófilos e bibliotecários que Alberto Manguel cruzou a História da Humanidade para falar sobre os locais que têm o livro no seu centro e que na Mesopotâmia, por exemplo, chamavam de “clínicas da alma”. Na biblioteca municipal de Torres Novas encontrou a “luz”, “hospitalidade” e “generosidade” com que caracterizou os torrejanos no início da intervenção em que falou sobre a identidade das bibliotecas públicas.

A plateia do auditório. Foto: mediotejo.net

Os espaços que, segundo o antigo diretor da Biblioteca Nacional da Argentina, geram “nómadas literários” com a capacidade de imaginar “mundos melhores”, de forma crítica e informada. O leitor não é um sujeito passivo que absorve o que lê. Cada livro, cada tema, é bebido e saboreado num cenário marcado pela universalidade pois defende que a “biblioteca é só um dos nomes que damos ao Universo” e é nela que se tem encontro marcado com a “Felicidade”.

“se a espécie humana vai sobreviver
como criaturas com inteligência”
– de que não tem grande esperança –
“será em grande parte devido ao esforço do pequeno bibliotecário da pequena biblioteca da pequena cidade, que continua acreditando que a leitura é importante e que a inteligência tem valor”

Por isso, o bibliófilo enaltece a “luta de formiga” que as bibliotecas públicas desenvolvem, ao procurarem fomentar a leitura “num oceano de forças negativas” de uma sociedade marcada pelo consumismo e a falta de ética.

Em entrevista à Lusa, no final do encontro, falou do seu próximo projeto – uma “História das Utopias” – e de bibliotecas, da leitura como subversão, e das dificuldades que a criação de leitores impõe, num contexto social mais amplo.

“Quando falamos de problemas das bibliotecas, da criação de novos leitores, de educação, de comportamento cívico, de violência, não são problemas isolados, são problemas da estrutura da nossa sociedade. Não podemos pedir que uma biblioteca funcione como um centro de criação de cidadãos éticos dentro de uma sociedade que não é ética”, considera.

Contudo, apesar de todas as dificuldades, Manguel acredita que, “se a espécie humana vai sobreviver como criaturas com inteligência” – de que não tem grande esperança – “será em grande parte devido ao esforço do pequeno bibliotecário da pequena biblioteca da pequena cidade, que continua acreditando que a leitura é importante e que a inteligência tem valor”.

Quando foi diretor da Biblioteca Nacional da Argentina, Manguel deu início a um projeto de formação de professores a que chamou “apaixonados pela leitura”, por acreditar que as crianças aprendem por imitação, e que pessoas verdadeiramente apaixonadas pelos livros deixam transparecer essa paixão, conquistando aqueles que ensinam.

“Há que ser visivelmente apaixonado. É a única coisa que podemos fazer” para lutar contra os preconceitos de uma sociedade marcada pelos valores do consumo, disse à Lusa, salientando que, “na história da escrita, os leitores nunca foram a maioria, sempre foram a elite, mas é uma elite à qual todos podem pertencer, é como um clube elitista, mas com as portas abertas”.

Para Alberto Manguel, a tarefa de criação de leitores “é dificílima” na “sociedade suicida” em que vivemos, e a esperança está na “inteligência e na imaginação dos jovens”.

“Se conseguirmos dizer-lhes que a melhor forma de rebelião está na sua inteligência, que a leitura é a forma mais efetiva de subversão, quem sabe podemos conseguir algo”, declarou, salientando que “se cada leitor converter um leitor, imediatamente duplicamos o número de leitores”.

“Se conseguirmos dizer [aos jovens] que a melhor forma de rebelião está na sua inteligência, que a leitura é a forma mais efetiva de subversão, quem sabe podemos conseguir algo”

“Vimos ao mundo como criaturas capazes de refletir, de imaginar, de ter um sentido ético e muito disto na sociedade da escrita passa pela literatura, aprendemos empatia através das personagens da ficção, aprendemos a comunicar uns com os outros, aprendemos a memória dos nossos antepassados, a experiência passada”.

“Se a esses leitores em potência se inculca desde muito cedo não confiar na sua inteligência, não deixar que a sua imaginação se exercite, seguir as restrições dos sistemas educativos, que atualmente são campos de treino para o escritório e a fábrica, gradualmente tornamo-nos em seres que não refletem, porque os valores da reflexão e da leitura são o difícil”, declarou.

O seu próximo projeto – depois do último livro, “Embalando a Minha Biblioteca” – é o de escrever uma “História das Utopias”, passando em revista todas as tentativas de criação de sociedades utópicas que falharam “por cobiça, por ambição, por incapacidade política”.

“O paradoxo essencial da nossa espécie é que, desde que começámos a ter consciência de nós mesmos, desde o aparecimento do Neanderthal ou mesmo do Sapiens, nunca podemos imaginar uma sociedade medianamente justa e medianamente feliz. Nunca. Sócrates quando, na República, passa em revista as formas de sociedade, não há nenhuma que lhe pareça efetiva para a felicidade humana”.

“Não sei por que é assim. Porque conseguimos inventar as coisas mais extraordinárias (pôr uma pessoa na lua, derrotar doenças terríveis) e não conseguimos imaginar como viver juntos e ser mais ou menos honestos uns com os outros, e mais ou menos felizes”, disse.

“Conseguimos inventar as coisas mais extraordinárias (pôr uma pessoa na lua, derrotar doenças terríveis) e não conseguimos imaginar como viver juntos e ser mais ou menos honestos uns com os outros, e mais ou menos felizes”

“Uma História da Leitura”, “Todos os Homens São Mentirosos”, “Dicionário de Lugares Imaginários”, “O Amante Extremamente Minucioso”, “No Bosque do Espelho”, “A Cidade das Palavras”, “Uma Histórida da Curiosidade”, “A Biblioteca à Noite” e “Embalando a Minha Biblioteca” são alguns dos títulos de Manguel publicados em Portugal, que também incluem “Com Borges: Um Livro-Homenagem ao Excepcional Escritor Argentino”.

Além das bibliotecas da rede Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (33 membros e seis em processo de adesão), este encontro em Torres Novas contou com a participação de outras bibliotecas públicas de todo o país, tendo abordado temas como os 25 anos do manifesto da UNESCO, as bibliotecas como centros de aprendizagem e o futuro das bibliotecas públicas.

*Com LUSA

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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