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Sábado, Julho 24, 2021

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Torres Novas | Bem-vindos ao Bairro do Grupo Juvenil do Virgínia (c/entrevista)

Sejam bem-vindos ao “Bairro”. Por aqui, os habitantes entre os 12 e os 18 anos de idade não partilham ruas, partilham um palco e cada ator é uma casa onde habita o gosto por representar. As “vistas” não têm monumentos ou montanhas, inspiram-se na série literária “O Bairro” de Gonçalo M. Tavares e podem ser apreciadas este sábado, dia 7, durante o espetáculo do Grupo de Teatro Juvenil que abre a nova temporada do Teatro Virgínia. Fomos conhecer os habitantes e os arquitetos, Ricardo Correia e Rita Grade, e deixamos o convite para uma visita.

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Este bairro com menos de 20 habitantes poderia ser mais um exemplo da desertificação do interior, mas não. Os habitantes são todos adolescentes e a mudaram-se para aqui em outubro do ano passado. Não encontraram casas construídas, tiveram que as ir construindo com os arquitetos nos encontros semanais conjugados com as aulas e as restantes atividades da rotina.

A maioria conhecia o local de passagens anteriores, quatro transportaram as malas da viagem teatral pela primeira vez e a experiência, pelo que nos contam, tem-se revelado “incrível”. Este é o caso de Constança, Sofia, Maria João e Nicole, os novos elementos que se juntaram ao Grupo de Teatro Juvenil do Teatro Virgínia, que estreia a peça “O Bairro” este sábado, inspirada na obra homónima de Gonçalo M. Tavares.

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O Bairro, do Grupo de Teatro Juvenil do Teatro Virgínia. Fotos: mediotejo.net

As quatro jovens partilham agora o nervosismo típico que antecede um estreia e o resto do grupo, mais experiente nestas andanças artísticas, afiança nunca desaparecer. No fundo, vão receber o público “em casa”, partilhando não apenas a peça criada e encenada pelo ator, encenador e docente de teatro Ricardo Correia e a dançarina e coreógrafa Rita Grade, mas também um pouco de si. E, sim, admitem que no momento da despedida vai haver lágrimas de saudade.

A intimidade é confirmada por Rita Grade quando explica como o Bairro foi ganhando forma através do processo em que “queríamos aproveitar para trabalhar o entorno de Torres Novas e achámos que este trabalho nos ia permitir trabalhar sobre o bairro de cada um destes miúdos” nas vertentes afetiva e comunitária. Ricardo Correia acrescenta “a ponte” feita por Gonçalo M. Tavares entre as figuras da filosofia e da literatura e um mundo novo, imaginado, fazendo a “transição entre o real e a ficção que é o sítio do teatro”.

A expetativa dos habitantes é grande, duplicada pela responsabilidade de abrirem a nova temporada do Teatro Virgínia. No entanto, acreditam que valeu a pena abdicarem de ver as séries favoritas na televisão, sobretudo durante as férias da Páscoa em que os ensaios se transformaram em “full-time”. Alguns admitem que o “rec” ficou ligado e mesmo quem faltava no início assume-se rendido. Todos garantem que fazer parte do Bairro lhes mudou a vida.

O Bairro, do Grupo de Teatro Juvenil do Teatro Virgínia. Fotos: mediotejo.net

Não é para estranhar, até porque não falamos de um Bairro qualquer. Os cenários e os textos minimalistas exigem maior dedicação, puxam mais pelo movimento. “Uma experiência nova”, “um desafio”, “temos noção de partes do corpo que nunca trabalhámos e conseguimos comunicar mais connosco próprios”, assim nos vão descrevendo a experiência durante a visita ao imaginário com a essência do Senhor Walser, Senhor Kraus, Senhor Breton ou do Senhor Calvino.

As “sensações” e “o que se vê” não são partilhados quando chegam às casas da família no concelho de Torres Novas e vizinhos, nem através de quaisquer suportes de promoção turística que pudessem ser criados para mostrar este local peculiar. Para viver o Bairro tem que se ir ao Bairro e fazer a viagem. O público em geral embarca às 21h30 de sábado e os alunos do concelho às 11h00 e às 15h00 da terça-feira seguinte, dia 10. Mas, o vão encontrar? Insistimos.

O primeiro conselho recebido é para os visitantes compreenderem “não com a cabeça, mas com o coração” esta comunidade constituída por pessoas que assumem as diferenças entre si e consideram que levá-las para o palco enriquece a experiência. Não só de quem assiste, mas também de quem atua. E, por falar em atuar, quantos querem fazer deste Bairro o primeiro de muitos num percurso profissional dedicado ao teatro? Os “sins” quase são abafados pela expressão “é difícil”.

O Bairro, do Grupo de Teatro Juvenil do Teatro Virgínia. Fotos: mediotejo.net

Quem aqui passa o tempo tem noção de que é necessário “ter os pés assentes na terra” e anseia que o espetáculo contribua para que o público regresse mais vezes, aqui e não só, conquistando espaço “à internet” e outros motivos de interesse que tornaram “as pessoas muito mais caseiras”. O que distingue o teatro? As respostas chegam depressa e oscilam entre “a emoção”, “o contacto”, “viver o momento” e “o convívio”, colmatadas por “aqui sentimos de forma diferente”.

Terminamos a visita com vontade de voltar no dia da inauguração oficial. Não vamos bater às portas porque essas estão abertas e basta entrar.

Pode fazer o mesmo se quiser conhecer o Bairro onde a irreverência da adolescência de Ana Raquel Rodrigues, Beatriz Girão, Carolina Correia, Constança Arreigota, Constança Silva, Daniel de Sousa, Inês Mota, Maria Inês Reis, Maria João Nunes, Mariana da Piedade, Matilde de Oliveira, Miguel Nunes, Nicole Cordeiro, Rita Moita, Sofia do Vale, Tomás Arreigota vive em harmonia com a tradição do teatro.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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