Torres Novas | Aos 60 anos, Cineclube quer criar Arquivo Digital de Cineclubismo

Nuno Guedelha preside há associação que no início de 2020 celebrou os seus 60 anos Foto: Cineclube de Torres Novas

Fundado em 1960, o Cineclube de Torres Novas celebrou em janeiro os seus 60 anos. Espaço de cinema, mas sobretudo de associativismo, a coletividade tem uma longa história de participação e debate, emitindo cinema comercial mas sobretudo aquele que foge às massas e propicia a discussão. O próximo projeto já está em marcha: a associação quer criar em Torres Novas um Arquivo Digital de Cineclubismo, único no país.

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A ideia para um Cineclube partiu do falecido historiador e primeiro secretário-geral da CGTP-IN, Francisco Canais Rocha, nos idos de 1959, quando se mudou para Torres Novas. O projeto começou a ser discutido entre amigos e vários nomes para os órgãos sociais tiveram que passar pelo crivo da Censura, antes de se chegar à lista final e constituir-se a associação, já em 1960.

Nuno Guedelha, atual presidente do Cineclube de Torres Novas, recorda ao mediotejo.net que até ao 25 de abril de 1974 sempre se viu cinema na cidade, não obstante os limites à liberdade. Episódios houve, recorda, em que as projeções foram interrompidas a meio pelo censor presente para cortar cenas. Mas havia cinema francês, cinema norte-americano, projetado sem problemas desde que viesse de entidades consideradas legítimas pelo Estado Novo. “Até 1974 o Cineclube era mais uma associação cultural “, onde além de cinema se promoviam debates, livros e exposições, e onde os jovens podiam falar mais livremente.

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O Cineclube permaneceu durante anos instalado num espaço junto à praça 5 de outubro, até que nos inícios do século XXI se mudou devido à degradação das condições. Primeiro para o antigo Cine-teatro Virgínia, depois para o Hotel Os Cavaleiros – Estúdio Alfa, encontrando-se atualmente na Biblioteca Municipal. Ao longo dos anos foi adquirindo um arquivo próprio, que hoje contempla cerca de 200 filmes, maioritariamente de cinema português.

Em 2019 as sessões ao ar livre de verão do Cineclube juntaram cerca de 400 pessoas. Este ano o acesso terá que ser limitado Foto: Cineclube Torres Novas

“Nos anos 70 e inícios de 80, as pessoas quando se queriam juntar iam até à associação, até para ver televisão”, recorda o responsável, “eram muito poucas as casas que tinham uma televisão em condições”. Via-se então muito cinema, sendo que no pós 25 de abril conseguiu-se aceder ao cinema de leste, asiático e sul-americano.

Os anos 80 e 90 foram os mais sensíveis para a associação, recorda Nuno Guedelha, devido à explosão do VHS e depois do DVD que levaram a uma queda abrupta de consumo de cinema em espaços próprios. Muitos Cineclubes pelo país fecharam. Em Torres Novas, afetado também pelas transformações tecnológicas e sociais, o Cineclube “voltou a ser um clube de cultura”, de livros, de exposições e debates, e não tanto de cinema.

Só nos anos 2000 a associação começou a voltar-se novamente para a exibição de filmes, de forma regular, inclusive nas aldeias do concelho. “A experiência de cinema deixa de ir só ver o filme, mas ir ao cinema com os amigos”, constata, mudança de mentalidade que acompanhou o melhoramento da qualidade de exibição das películas. Ao mesmo tempo, os órgãos diretivos do Cineclube de Torres Novas mudaram, surgindo uma nova geração que quis dar uma nova vida à coletividade.

Em janeiro deste ano, a associação celebrou os seus 60 anos com um Cine-concerto. A programação para 2020, já delineada, teve que ser entretanto toda reestruturada devido à pandemia e alguns filmes vão passar para 2021. Se tudo correr dentro do previsto, as sessões de cinema são retomadas em setembro, novamente com um filme por semana. Em cartaz estavam pensados filmes como “Variações”, “Joker” ou “Parasitas”, este último vencedor entretanto do óscar de melhor filme, mas o programa terá que ser repensado de acordo com a disponibilidade das distribuidoras.

Para já, este verão, nos meses de julho e agosto, o Cineclube espera pode fazer sessões ao ar livre de cinema de animação, numa parceria com a Câmara de Torres Novas e a Hamburgaria da Vila, respeitando as regras da Direção-geral de Saúde. “As crianças precisam urgentemente de sair de casa”, reflete o responsável, permitindo deste modo proporcionar alguma alegria e convívio aos mais novos.

Atualmente a associação tem mais de 340 sócios e há muito que Nuno Guedelha dá a cara pelo Cineclube. Questionado sobre o futuro, o responsável comenta que o futuro do cinema é neste momento incerto, em parte devido ao crescimento das plataformas de streaming e dos meios digital. Destaca assim que o Cineclube gostaria de continuar a exibir cinema, mas também a fazer formação para cinema.

“Queremos que em Torres Novas exista um arquivo digital de cineclubismo”, adiantou, único em Portugal, projeto para o qual já existe uma candidatura ao Instituto de Cinema e Audiovisual. Neste espaço, explica, estará guardado todo o espólio dos cineclubes portugueses e da Federação Portuguesa de Cineclubes, numa parceria que o Cineclube de Torres Novas está a tentar estabelecer com outras associações e a Universidade da Beira Interior. “Estamos a formar uma série de parcerias para que possa ser uma realidade até ao próximo ano”, referiu.

“O papel dos cineclubes é tão importantes na história do cinema nos últimos 60 e tal anos que é fundamental haver um local onde todo este espólio possa ser consultado”, permitindo assim o seu estudo a nível académico. “Essa é a nossa meta futura. Se garantirmos isto, então o cineclube tem um futuro muito risonho”, reconheceu Nuno Guedelha, porque a instalação do arquivo em Torres Novas abrirá novas portas à instituição. “Não ser apenas uma sala de cinema, mas ser um local onde as pessoas que gostam de cinema possam ir e aprender mais”, explicou.

“Eu vejo o cinema muito mais como uma experiência, do que apenas como um mero filme”, salientou, daí acreditar no papel dos Cineclubes, na sua vertente de debate, como tinham nos anos 60.

A associação não descura o cinema comercial, mas tenta conjugar com películas com mais profundidade e menos conhecidas. “O primeiro tópico é sempre a qualidade do filme”, adiantou, passando depois a escolha do filme a exibir pelo tema, pela popularidade e, por fim, pela origem. “O Cineclube enquanto associação cultural quer é lançar o debate, que as pessoas conversem”, sintetiza.

A concluir, Nuno Guedelha lembra que o Cineclube não é só cinema, possuindo também um clube de xadrez, que se encontra na 2º divisão nacional.

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