Torres Novas | Amigos de Hugo Santos juntaram-se num sentido “obrigado” ao escritor (c/ fotogaleria)

“Sensibilidade”, “rebeldia”, “humildade”, “humor”, “solidariedade” e “amizade” foram algumas das palavras que este sábado, dia 22, se fundiram num sentido “obrigado” durante a homenagem prestada ao escritor Hugo Santos na Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes. Com elas, estiveram as do homenageado, ausente por motivos de saúde, mas presente no som dos vídeos e nas vozes que surgiram na plateia e no palco para partilhar um pouco da vasta obra literária que distingue este poeta, romancista e contista.

O auditório da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, em Torres Novas, não esteve cheio, mas o motivo que levou algumas dezenas de pessoas a juntarem-se na tarde deste sábado confirmava porque razão a amizade é especial. Numa era em que as listas das redes sociais envolvem grandes números, os amigos não se contam pelos “likes” das fotografias ou das frases partilhadas online, mas pelos momentos, mesmo que poucos, passados juntos.

Este é um dos casos em que a qualidade se afirma face à quantidade e quem esteve presente para dizer de forma sentida “Obrigado, Hugo Santos” foram, de facto, os amigos. Aqueles com quem o escritor e ex-docente tem partilhado o percurso de vida com praticamente oito décadas, iniciado nas planícies alentejanas do seu “CampoAmor” (Campo Maior) e fixado, desde a década de 70, nas lezírias ribatejanas que integram a paisagem de Torres Novas.

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Os amigos de Hugo Santos juntaram-se para dizer “obrigado”. Foto: mediotejo.net

A ausência do escritor por motivos de saúde – hospitalizado há cerca de duas semanas na sequência de um acidente vascular cerebral (AVC) – tornou mais simbólica a homenagem organizada por Guilherme Pinto, Joana Santos e Conceição Lopes em conjunto com o município de Torres Novas, representado no palco pela vereadora Elvira Sequeira e o presidente Pedro Ferreira. Na plateia, estiveram caras menos e mais conhecidas, todas conhecedoras do autor de cerca de quatro dezenas de obras literárias em que as palavras expressam formas únicas do amor, família e nostalgia.

Livros, igualmente, (re)conhecidos pelos diversos prémios conquistados, como o Prémio Antero de Quental e Prémio Cesário Verde, na poesia, e o Grande Prémio de Albufeira e Prémio Miguel Torga, na prosa. Os mais novos, com quem conviveu ao longo da carreira de docente do Ensino Básico, que também exerceu no concelho de Ourém, também mereceram as suas palavras impressas no papel, sendo a obra “Eu, a Casa, os Bichos e Outras Coisas” é recomendada no Plano Nacional de Leitura.

Os familiares do escritor foram aguardados com expetativa e chegaram mais tarde, depois de decidido em conjunto começar sem a sua presença. Os abraços com que as filhas Ana Maria e Cláudia e os netos de Hugo Santos foram recebidos à chegada revelaram a empatia e o carinho típico de “um encontro de amigos”, expressão utilizada por Ana Maria como preferível pelo “Zé Hugo”, o pai, para descrever o momento. O filho de Cláudia juntou-se à tia no palco e dedicou algumas palavras ao avô que diz conhecer, sobretudo, pela “genuinidade que ele transporta para os livros e que as pessoas amam ler”.

A homenagem incluiu uma apresentação biográfica sobre o escritor. Foto: mediotejo.net

O Alentejo também marcou presença com Eduardo M. Raposo, do Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa e autor da “Nova Antologia de Poetas Alentejanos” (2012), na qual constam as palavras de Hugo Santos, entre as de 50 poetas. Por sua vez, a terra natal, que o escritor não esquece e sobre a qual partilha a essência através das letras, esteve presente desde o primeiro minuto e deslocou-se à biblioteca municipal na pessoa do presidente da Câmara Municipal de Campo Maior, Ricardo Pinheiro, e de outros conterrâneos.

Questionados pelo mediotejo.net sobre se Hugo Santos tem duas casas, os presidentes dos dois municípios, aquele onde nasceu e o aquele o acolheu como “filho da terra”, foram consensuais ao destacar a dimensão humana que alimenta a escrita e o contributo para a educação e a cultura. O escritor foi considerando um elo comum, justificando a “geminação” dos dois concelhos assumida mais tarde nas suas intervenções públicas. Uma relação fortalecida pelas memórias de Ricardo Ribeiro, ligadas à mãe de Hugo Santos, a D. Delfina, e pelas recordações de Pedro Ferreira à vizinhança na rua que partilhou com o poeta alentejano,a Miguel de Arnide.

O autarca de Torres Novas, nas declarações ao mediotejo.net, lembrou os tempos em que “observava a simplicidade dele, dentro da grandiosidade do homem”, um “ser humano muito sociável, criador de amizades, criador de sonhos… ele próprio desafiava as pessoas a interrogarem-se sobre vários temas”. Para Pedro Ferreira, Hugo Santos é “um grande cidadão torrejano que fica na memória”, provavelmente com “o coração dele divido em dois”, onde cabem Campo Maior e Torres Novas.

Pedro Ferreira e Ricardo Pinheiro no início da cerimónia. Foto: mediotejo.net

Por seu lado, o autarca de Campo Maior, salientou a “forma absolutamente sentida” que sentiu no convite do presidente do município torrejano para participar na homenagem. O legado de Hugo Santos no concelho que preside também foi apontado por Ricardo Ribeiro, acrescentando que “quando pensamos como a educação e a literatura devem influenciar a melhoria e o crescimento social e económico, nós retiramos deste modelo literário uma forma de interpretar a vida que é absolutamente fascinante”. O próximo passo será uma homenagem no concelho alentejano.

Em suma, Hugo Santos juntou no mesmo espaço gente de muitos lugares para partilhar o sentido “obrigado” numa cerimónia que começou, não com as palavras da literatura a que o associam, mas com a música do Médio Tejo Trio, que representou o Choral Phydellius com os músicos Adolfo Mendes, Marcelo Fortuna e Rafael Umbelino. Pelo auditório ecoaram os acordes das guitarras que, pouco depois, deram lugar às diversas intervenções, numa mistura de discursos, memórias e excertos dos livros que distinguem este poeta, romancista e contista.

Nas palavras de quem falou sobre o homem e a obra destacaram-se a “sensibilidade”, a “rebeldia”, a “humildade”, o “humor”, a “solidariedade” e a “amizade”. Nas do próprio Hugo Santos, declamadas dentro e fora do palco, deu-se o (re)encontro com o escritor que acredita ser possível semear estrelas e que “as grandes verdades serão sempre feitas de pequenas palavras”. No final, antes da ovação de pé feita pelos amigos, revelou-nos um sonho:

Tive um sonho
(Hugo Santos)

Tive um sonho: uma escola aberta, voltada para a luz dos astros, com uma vozinha a inquirir-me do fundo da sala: «Eh, professor, tu sabes isto?». E eu a dizer que não e a esperar que me ensinem.

Tive um sonho: uma escola sem horários, aberta de manhã à noite, com as paredes forradas de pássaros e de sonhos, e com bolas de sabão voando por dentro do coração das palavras e dos números.

Tive um sonho: uma escola sem planos, sem fichas, sem esboços, com a vida sentada a nosso lado, a ensinar-nos as canções de todas as infâncias e a mostrar-nos por onde passam os rios de todas as memórias.

Tive um sonho: uma escola com o chão atapetado de música, para que nos passos ressoem os acordes dos assombramentos.

Tive um sonho: uma escola dentro dum oceano, para que todos pudéssemos ser pescadores de pérolas e utopias.

Tive um sonho: uma escola debruçada para o país que somos e para o país que temos, para que professores e alunos aprendam todos os dias onde descansam os vales, vigiam as serras e o coração das coisas adormece no justo lugar em que as palavras e as emoções se confundem.

Tive um sonho: uma escola com uma floresta crescendo por dentro das salas, alcatifada de nenúfares, com a luz a bater nas folhas das palavras e os frutos crescendo nas pequenas mãos entreabertas.

Tive um sonho: uma escola que diga: «Aqui é a tua casa. Entra». E, ao entrar nos apercebamos de que aquela é a nossa casa e que, para lá dela, todas as outras casas nos pertencem.

Tive um sonho: uma escola onde o olhar saiba adormecer serenamente como os silêncios e não seja precisa a voz para proclamarmos a festa de estarmos.

Tive um sonho: uma escola onde ensinar e aprender sejam sinónimos e não se saiba nunca o suficiente para nos congratularmos com o êxtase da sabedoria.

Tive um sonho: uma escola, um álamo, um rouxinol anunciando as albas e os crepúsculos. E nós a garatujarmos em papel transparente o coral duma lágrima de emoção inesperadamente sobrevinda.

Tive um sonho: e por dentro do sonho uma casa, uma escola, um regato de peixes prateados. E o Sol, grande, de mil cores, dos desenhos das crianças a pousar-nos nas mãos enternecidas.

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Sónia Leitão
Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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