Torres Novas | Agrupamento Gil Paes preparado para ano de novos desafios sanitários e curriculares

Isilda Nascimento Pereira é diretora do Agrupamento de Escolas Gil Paes desde 2017 Foto: mediotejo.net

Não está fácil. Praticamente todos os dias os agrupamentos de escolas do país recebem novas orientações da Direção-geral de Saúde (DGS). A entrevista à diretora do Agrupamento de Escolas Gil Paes, em Torres Novas, Isilda Nascimento Pereira, foi remarcada várias vezes. A dificuldade de agendamento é demonstrativa das muitas incertezas que rodeiam este arranque de ano lectivo. Aos constrangimentos da pandemia, este agrupamento acrescenta novos desafios curriculares, com a implementação de um Plano de Inovação e um projeto-piloto voltado para um novo modelo de avaliação. O agrupamento preparou-se à exaustão. Nunca como hoje, admite a docente, foi tão importante os pais confiarem nos professores.

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Com sete escolas, do pré-escolar ao Secundário, e 1960 alunos, o Agrupamento de Escolas Gil Paes é mais frequentemente citado devido às obras da Escola Secundária Maria Lamas. O edifício continua a sofrer a primeira fase da sua requalificação, o que implicou a transferência de seis salas de 12º ano para o Convento do Carmo, mudança que se vai manter durante o primeiro mês do próximo ano letivo. Os alunos vão ter ainda que sair da escola para utilizarem os diferentes equipamentos desportivos municipais, das piscinas ao ginásio, dado que os da instituição vão sofrer uma intervenção de fundo.

O amianto remanescente numa das salas ainda não foi retirado.

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As obras da Secundário Maria Lamas, que se encontram a decorrer dentro do calendário previsto e, parte delas, devem terminar até ao Natal, são porém a menor das preocupações neste ano de pandemia. A logística necessária ao regresso às aulas tomou conta do verão da direção, que foi recebendo gradualmente orientações da DGS até esta última semana.

Outro problema identificado foi a divisão de ciclos por blocos de manhã e de tarde. Separar 2º e 3º ciclos, por exemplo, implicava a vários encarregados de educação estarem disponíveis para deixar um filho de manhã e deixar outro à tarde, o que inviabilizou essa estruturação.

No órgão de direção do agrupamento desde 2005 e diretora há três anos, Isilda Nascimento Pereira constata a importância de conseguir dar respostas às preocupações dos pais com a segurança dos filhos. Com entradas e saídas definidas nas diferentes escolas, consoante as possibilidades dos edifícios; planos de acesso e utilização de Bar e cantinas; horários de intervalos repensados, alguns com permanência em sala; plano de ensino à distância ou misto; higienização reforçada; o agrupamento fez os possíveis por responder às exigências do momento.

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Não vai ser porém possível, constata, garantir o distanciamento social entre alunos em sala, uma vez que há salas em que se tem que partilhar as secretárias. “Não podemos desdobrar turmas, porque isso implicaria o dobro do espaço e dos professores”, explica a diretora, adiantando posteriormente que o agrupamento nem sequer foi contemplado com o reforço de assistentes operacionais. A atuação da população escolar terá que passar pela sensibilização do espírito de responsabilização e consciência dos alunos.

Outro problema identificado foi a divisão de ciclos por blocos de manhã e de tarde. Separar 2º e 3º ciclos, por exemplo, implicava a vários encarregados de educação estarem disponíveis para deixar um filho de manhã e deixar outro à tarde, o que inviabilizou essa estruturação. “Os pais precisam de trabalhar e não conseguiam trazer os filhos à tarde”, refere a docente que esteve a analisar a possibilidade, pelo que a maioria das aulas vão decorrer de manhã, cada turma com sala própria, e só algumas à tarde.

“Os pais têm que aprender a confiar muito na escola”, constata a diretora, admitindo porém que “há aqui uma dimensão humana que nos preocupa muito no regresso às aulas”. A socialização, explica a docente, é uma das componentes da educação e do ensino, pelo que as regras de prevenção da Covid-19 trazem desafios ainda incertos.”Mais que nunca vamos precisar de reconhecer limites”, evidencia.

Um primeiro teste à resiliência deste agrupamento foi o ensino à distância durante o confinamento. Inicialmente o processo foi algo caótico, reconhece a diretora, pois interrompeu processos administrativos a decorrer nas escolas e não havia equipamentos eletrónicos suficientes para distribuir aos alunos. “Muitos alunos sem computador, sem internet; muitos professores sem internet estável”, recorda Isilda Nascimento Pereira. Não obstante, frisa a professora, não perderam nenhum aluno e conseguiram até identificar casos de debilidade social para os quais não estavam conscientes.

Com o apoio do município e de algumas empresas foi possível dar resposta aos alunos sem recursos, com uma centena de equipamentos emprestados. “Só um não foi devolvido”, constata a docente. Entretanto, adianta, “vem aí o Plano de Transição Digital” e espera-se que até ao Natal sejam oferecidos aos alunos, a nível nacional, computadores e acesso à internet.

“Todos acompanharam? Todos aprenderam? Tenho a certeza que não”, reconhece Isilda Nascimento Pereira. “Houve muitos pais envolvidos e muito cansados de escola”, refere, com um excesso de trabalho para a autonomia dos alunos. “A aprendizagem não pode estar dependente dos pais”, constata, uma das lições aprendidas durante o confinamento.

Para fazer face às debilidades resultantes do final tempestivo do último ano letivo, as primeiras cinco semanas do próximo serão dedicadas à recuperação. O antigo professor de 4º ano vai estar presente nas respetivas turmas de 5º ano para ajudar nessa transição, adiantou, entre outras articulações entre ciclos de ensino. Uma componente, afinal, que já se exige face às novas modalidades da flexibilidade curricular. “O trabalho de professor nunca foi tão especializado como agora se está a exigir que seja”, confessa.

“Muitos alunos sem computador, sem internet; muitos professores sem internet estável”, recorda Isilda Nascimento Pereira. Não obstante, frisa a professora, não perderam nenhum aluno e conseguiram até identificar casos de debilidade social para os quais não estavam conscientes.

Revolução nas metodologias de ensino chega a Torres Novas

A exemplo do Agrupamento de Escolas Artur Gonçalves, também o Agrupamento de Escolas Gil Paes viu o seu Plano de Inovação ser aprovado. Uma das modalidades mais visíveis deste plano é que deixam de existir três períodos e passam apenas a haver dois semestres, possibilitando, espera-se, uma melhor distribuição de conteúdos programáticos e respetiva avaliação.

Mas “o Plano de Inovação é muito mais que a semestralização”, frisa a diretora. Preservando as aprendizagens elementares, é dado espaço à escola para mexer nos currículos e articulá-los com outras disciplinas, criando disciplinas novas. “Os alunos vão ser mais envolvidos e mais ativamente na sua aprendizagem”, procura explica a docente.

Escola Secundária Maria Lamas vai continuar em obras, mas direção garante que não vai afetar medidas de prevenção da Covid-19 Foto: mediotejo.net

Um exemplo é o “Program’Arte”, uma disciplina criada para o 2º e 3º anos que trabalha novas metodologias da Matemática com professores de outros ciclos de ensino, numa lógica ligada às novas exigências resultantes da linguagem da programação. Outra disciplina do 1º ciclo será a “Complet’Arte”, que cruza as Artes com as Línguas. Estes modelos procuram oferecer uma visão de conjunto às matérias, facilitando a aprendizagem individual.

No Agrupamento de Escolas Gil Paes vai ainda dar-se início ao Projeto de Intervenção para a Implementação de uma Avaliação Pedagógica, conhecido por “Projeto Maia”. Segundo Isilda Nascimento Pereira, trata-se de uma nova abordagem na avaliação dos alunos, que retira o peso dos testes e foca-se na aprendizagem real do aluno. Neste sentido, pretende-se que o estudante receba um feedback da qualidade da sua aprendizagem, para assim ir melhorando, não se definindo tanto a partir de uma nova.

“O grande desafio é que os pais entendam esta mudança”, admite a diretora, que salienta que não se trata de desaparecer com os testes, mas apostar numa avaliação mais equilibrada. “Precisamos muito que os pais confiem no nosso trabalho”, afirma.

O agrupamento concorreu ainda ao Plano Nacional das Artes e aguarda atualmente uma resposta, não obstante já tenha estabelecido um protocolo para ter um artista residente. “Já somos um agrupamento com uma vertente forte nas artes”, constata, tratando-se agora de fundir as várias modalidades dispersas num único projeto cultural de escola. O desejo, garante a diretora, é reforçar a ligação com a comunidade, em áreas que vão do teatro ao multimédia, passando pela música, pintura ou escultura.

Entre os desafios sanitários e curriculares, o agrupamento quer continuar a ter a capacidade de dar resposta a todas as exigências que vão surgindo. “A pandemia provou que conseguíamos”, garante a diretora. Mas “não podemos prever tudo”.

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