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Domingo, Agosto 1, 2021

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Torres Novas: A última geração de vendedores de Laranjas do Pafarrão

No início do século XX, um morador do Pafarrão, freguesia de Chancelaria, desbravou mata e pinhal na encosta da Serra D’aire e começou a plantar as primeiras laranjeiras. Anos depois um outro morador, por não poder deslocar-se às feiras, começou a vender as suas laranjas à porta de casa. A ideia correu a vizinhança e ganhou tradição. Hoje, por alturas de março, o Pafarrão organiza uma Feira da Laranja. Esta é a terra das laranjas! Mas há quem afirme que estamos a assistir à sua última geração de vendedores de rua.

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É sabido que por alturas de fevereiro começa a ser boa época para ir às laranjas ao Pafarrão. O comentário, feito dito popular pelas gentes da região, deve-se ao facto de na pequena localidade ter nascido há muito a tradição dos seus moradores venderem as laranjas dos seus pomares à porta das moradias ou em carrinhas e barracas ao longo da estrada principal, entre Fátima e Torres Novas, que atravessa a aldeia. A laranja aqui é uma marca identitária e nome de uma feira que este ano se realiza entre 5 e 6 de março.

O mediotejo.net desceu a Serra D’aire e foi à procura da história das laranjas do Pafarrão. À entrada da localidade encontrou Gracinda Rosa, 61 anos, que após o desemprego se decidiu a enveredar pelo negócio que nasceu por alturas do seu bisavô. “O meu avô plantou os primeiros três pomares que temos”, conta olhando para o outro lado da estrada, onde se erguem pujantes árvores de fruto, “isto eram só pinhais”. “No início era a laranja de Setúbal (ou de Espinho) que tinha pevide e era mais ácida”, relembra. Mas, nessa época, poucas laranjeiras havia no Pafarrão. “Há 25/30 anos foi a grande força de fazer pomares. Nessa altura a única coisa que rendia aqui era a azeitona, o figo, pelo que criou-se esta alternativa”, reflete.

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Em carrinhas, barracas ou à porta de casa, por esta altura laranjas não faltam no Pafarrão. foto mediotejo.net

Há três décadas a laranja ganhou fama e tinha muito escoamento, razão pela qual se multiplicaram os vendedores de rua do Pafarrão. “Agora já não, em parte por causa das grandes superfícies”, explica Gracinda Rosa, que apanha as laranjas pela manhã nos seus pomares e vai vendê-las à tarde para a barraca que possui junto à estrada. “Isto dá trabalho! É preciso fazer represas, cuidar das árvores. É o ano todo!”. Entretanto mudou também a laranja, passando-se a dar prioridade ao cultivo da laranja da Baía, mais doce e sem pevide. Gracinda vende-a a 80 cêntimos e 60 cêntimos o quilo, mas há quem refira que é muito cara.

O tempo das laranjas é mesmo o atual, entre os fins do Inverno e os inícios da Primavera. Gracinda costuma vender laranjas até junho, mas afirma que este ano terá que se retirar mais cedo. “Este ano os ventos fortes estragaram 80% da produção. Este ano vou-me mais cedo, mas em novembro estou cá de novo”.

A maioria dos produtores de laranjas do Pafarrão vendem nas feiras, sendo que os mais antigos iam fazer o mercado de Tomar. “Há muitos, muitos anos houve um senhor que era sozinho e não tinha transporte para ir ao mercado. Começou a vender à porta de casa e pegou”, explica Gracinda Rosa a história da venda de rua. Hoje ela própria tem uma barraca, devidamente licenciada para a venda, mas antes “era só com um chapéu de praia”, comenta. Vendia-se laranja sem se coletar nas finanças, até que a GNR começou a passar pelo local e a exigir os documentos aos vendedores. “Não compensa”, é o lamento final de Gracinda.

Acácio Vieira vende laranjas no Pafarrão há 30 anos. Afirma que será a última geração de agricultores. foto mediotejo.net
Acácio Vieira vende laranjas no Pafarrão há 30 anos. Afirma que será a última geração de agricultores. foto mediotejo.net

“A maior parte dos que vendem hoje são os reformados, eu estou desempregada. O estar aqui foi o não deixar morrer aquilo que tanto custou aos meus pais e avós”, reflete. Mas “com os nossos filhos vai-se perder a tradição. É pena, porque a laranja aqui na encosta da serra tem boa qualidade. Quando acabar esta geração isto aqui vai ser só amoras”, termina rindo.

A mesma história narra um pouco mais à frente Acácio Vieira, 66 anos, natural dos Pousos (Leiria), que há cerca de 30 anos começou a comprar terrenos no Pafarrão crente que teria ali negócio para a velhice. “Saiu-me o tio pela culatra”, admite, sublinhando de seguida que “não há fruta como esta” e que tem clientes que vêm de vários pontos do país exclusivamente para comprar a laranja do Pafarrão. “Isto é um micro clima muito bom, há pessoas que dizem que é a melhor laranja do mundo”.

“Somos a última geração de agricultores”, comenta Acácio Vieira, explicando que há poucas décadas é que valia a pena este negócio. Mas “não temos hipótese! Os vendedores estão todos na casa dos 60 anos e até 80. O que vamos fazer?”. Admite que gosta do que faz e que na sua barraca aparecem pessoas de todo lado, nem sempre com as melhores intenções, mas que não tem medo. “Aparece de tudo, médicos, advogados a gatunos. Já fomos assaltados”, relembra.

Vende a laranja a 80 cêntimos e 50 cêntimos o quilo, mas está mais cara que no ano passado. “Foi o vento, a mosca também a picou”, o que torna a laranja deste ano mais cara e em menos quantidade.

A Festa da Laranja

Já António Ferreira, responsável pela organização da edição deste ano da “Festa da Laranja”, a perspetiva não é assim tão pessimista. A venda de laranja no Pafarrão não estará em vias de extinção, mas antes a passar por uma fase de transição, entre uma geração já muito idosa e uma outra, ainda muito jovem.

“Quando criámos a Feira foi por percebermos que o Pafarrão tinha uma fama maior que o que pensávamos”, constata, referindo que há pessoas de bastante longe que reconhecem o valor desta laranja. Nem sempre os locais têm real noção das capacidades dos seus produtos e a Feira foi criada nesse intuito de “motivar os produtores”. O sucesso das primeiras edições foi de tal ordem que aumentaram em 50% os vendedores de rua, afirma António Ferreira.

foto DR
foto DR

“O negócio não me parece nada que esteja a desaparecer, mas a perspetiva comercial aumentou”, salienta o responsável. Dá o exemplo de um jovem de 22 anos que iniciou a sua atividade como produtor e de outros que têm estado a recuperar pomares abandonados, transformando a venda de laranjas no Pafarrão num part-time. “É um ciclo. Há uma geração mais idosa e agora mais novos a interessar-me pela agricultura”, no intuito de um complemento, constata.

António Ferreira comenta que uma boa forma de estimular este negócio seria criando uma organização da produção/colheita, através do associativismo. Encara a estratégia como um investimento local que poderia ser pensado, de forma a valorizar um produto com características únicas, dado o micro clima (mais 2 a 3 graus) da encosta da Serra. Explica que a doçura da laranja deve-se a esse aspeto, o da temperatura acima da média,  que cria um equilíbrio entre os ácidos e os açúcares. A constatação faz-se com a prova da laranja, mas este é um estudo que ainda precisa de ser elaborado.

Entretanto vem aí nova Feira da Laranja, dias 5 e 6 de março, com ligeiras mudanças. “Este ano não chamamos Feira, mas Festa da Laranja, porque os produtores fidelizaram as pessoas junto à estrada e aos fins-de-semana não se vão deslocar para o evento”, explica o responsável. “Há muito clientes que vão àquela estrada” aos sábados e domingos e aproveitam para parar, por exemplo numa ida a Fátima.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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2 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns por esta publicação
    É uma forma de divulgar o que de muito bom há nesta região
    Esperemos que a tradição não morra, porque laranjas como as do Pafarrão não há

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