Torres Novas | A noite em que Zambujo encheu o Teatro para responder ao grito da cultura (c/vídeo)

Têm sido dias difíceis para muitas atividades, que após a instalação da pandemia, se viram vedadas e encerradas ao público. Aqui, sobressai o setor cultural e das artes do espetáculo, com milhares de profissões associadas, desde o técnico de som, ao cantor, ao bailarino, ao ator que dedica ao teatro. Todos eles parados, e a quem a pandemia de covid-19 puxou o tapete.

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“Existe muita gente a passar mal”, comentam no Teatro Virgínia. A pensar nisto, o nobre Teatro de Torres Novas abriu portas na noite de sábado, com sala esgotada na lotação permitida de 282 lugares, para receber António Zambujo – a par de mais duas dezenas de pólos do país que acolheram concertos de artistas portugueses, unidos no festival solidário “Regresso ao Futuro”, que pretendeu reunir receita para um fundo de emergência e bens alimentares, no sentido de socorrer os profissionais das artes em situação de vulnerabilidade.

O mediotejo.net acompanhou a exceção de reabertura do Teatro Vírginia, recebendo o seu público, que voltou a beber cultura e respondeu ao apelo de solidariedade. O Teatro abriu portas para novamente as fechar, aguardando dias melhores.

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Chegamos ao final da tarde, e deparamo-nos com um aparato diferente do habitual. Circuitos definidos na entrada com fitas que encaminham para as diferentes portas que, por sua vez, encaminham para cada fila do auditório, depois da picagem do bilhete.

Foto: mediotejo.net

Em cada entrada, pedilúvios para que os espectadores pudessem desinfetar os sapatos, seguindo-se o ritual de higienização das mãos com dispensadores verticais antes da entrada na sala. Uso obrigatório de máscara e deve manter-se o distanciamento, respeitando as marcas existentes no chão.

Na entrada da sala, explica a equipa de técnicos do Teatro Virgínia, algo ansiosos pela reabertura excecional, que a lotação foi reduzida para perto de metade, contando-se 282 lugares e mais quatro para pessoas com mobilidade reduzida. Foi desenhado um esquema, respeitando as diretrizes das autoridades de saúde e um plano de contingência adaptado ao local.

António Zambujo chega, de máscara envergada, qual “Zorro” das suas canções, e começa o pequeno ensaio com ajustes para o concerto, momento inédito no palco com o artista a afinar a voz e a guitarra, mantendo a máscara na cara. Sinal dos tempos.

Acolhe o nosso pedido de entrevista, e convida-nos para o palco, lugar que é a sua praia e onde se sente realmente bem. O cantor diz-nos que a reabertura das salas tem superado as suas “melhores expetativas”, num momento em que “o setor da cultura é um dos que sai muito prejudicado pela atual pandemia” de covid-19.

Foto: DR

Depois de dois concertos em Aveiro e com o concerto em Torres Novas, Zambujo sente que pisa novamente os palcos num retomar, ligeiro mas esperançoso, da atividade.

“Ainda bem que podemos ir paulatinamente regressando a uma certa normalidade”, comenta, ainda que reconheça que “ainda não é bem aquilo que se deseja”.

O cantor defende um regresso à normalidade possível de forma “consistente” e “tentando que seja o mais rápido possível, mas sem dar passos maiores do que a perna para não termos que voltar à estaca zero”.

Além da vertente financeira que sofre um grande rombo, há ainda a componente psicológica que afeta todos os profissionais por esta paragem súbita e certeira, que trouxe a tantas famílias situações de vulnerabilidade, uma vez que dependem dessa atividade para pagar as suas contas e, no fundo, sobreviver.

“A parte financeira é muito importante, mas a nível psicológico o regresso é fundamental para nos sentirmos vivos e ativos”, assume.

A receita de bilheteira do festival solidário onde inclui este concerto reverterá para o Fundo Solidário de Apoio aos Profissionais da Cultura, anunciado em abril pela cooperativa GDA – Gestão de Direitos dos Artista e a Audiogest (Entidade de Gestão de Direitos dos Produtores Fonográficos em Portugal), que conta já com 1,35 milhões de euros, e com as parcerias da GEDIPE, que representa produtores de cinema e audiovisual, e da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Foto: DR

No caso concreto do cantor, apesar das múltiplas iniciativas que foram surgindo nas redes sociais, com festivais a proporcionar concertos intimistas em direto no Facebook ou Instagram dos músicos e bandas, a partir de suas casas e entrando nas casas dos cibernautas, a fome de palco e a necessidade de estar numa sala cheia de gente de carne e osso, que assiste ao espetáculo, aplaude e interage é algo impagável e não substituível.

“Fiz um concerto logo no início, um festival grande organizado e montes de bandas tocaram, e soube que houve várias iniciativas parecidas. Mas não é a mesma coisa… estar em frente de um telefone a cantar, mesmo que seja para muitas pessoas, não se tem a mesma sensação de estar em cima do palco, frente a frente com o público. A energia é completamente diferente”, afirma, assumindo não ter uma relação “muito próxima com as redes sociais”.

“O que eu quero para a minha vida é estar em cima do palco a cantar e a tocar”, atira, certo do que sente.

A sensação e a vivência destes concertos em tempo de pandemia, três que já teve oportunidade de protagonizar, demonstra uma maior valorização daquele momento, como algo desejado, único e do qual não só o artista, como o público, sentem falta.

Foto: mediotejo.net

A cultura para toda a gente, os que pisam o palco e os que estão na plateia, assume importância enquanto contributo para a saúde mental, para abrir horizontes e efetivamente proporcionar fruição cultural, dando oportunidade às pessoas de “saírem de casa”.

“É preciso que se valorize isso, e que se perceba a importância da cultura para a vida de todos”, frisa, referindo o processo de enriquecimento que a cultura proporciona na vida de cada um, mostrando caminhos, oportunidades e até ajudando a ultrapassar momentos difíceis do quotidianos, seja através “de pequenos pormenores de um quadro, num livro que é lido, numa música que é escutada, qualquer coisa pode fazer uma faísca na nossa vida. Já aconteceu comigo e com pessoas que conheço”, menciona.

Porém, e o tema tem surgido em discussão a nível nacional, especialmente nesta altura de pandemia, a cultura em Portugal tem, na sua opinião, sido “subvalorizada”, e a sua valorização é algo que tem de ser cultivado de início, junto dos mais novos. “A cultura é algo que nos é transmitido, passado, e isso tem que se habituar de início as crianças nas escolas, tem que haver uma ligação… É uma questão muito complexa e há muita coisa por fazer em Portugal”, diz.

“O meu papel é estar em cima do palco a tocar e a cantar, e esperar que as pessoas gostem do que faço. Felizmente com a sala esgotada em Torres Novas, em Aveiro também estava, tenho tido essa sorte e desejo mesmo para os outros artistas de música, teatro, cinema, pintura, tudo é muito enriquecedor”.

Voltar ao Teatro Virgínia, uma sala que já conhece bem e onde já tocou algumas vezes, com bilhetes esgotados e gente pronta a escutar o seu trabalho, é o que o deixa “mais feliz e realizado”.

O foco de António Zambujo reside no futuro, sem olhar para trás, mas não esquecendo o que aconteceu, aguardando dias melhores e o retomar da atividade cultural, tendo presente que isso muito depende do comportamento da sociedade e da evolução da atual situação vivida por todos, com um inimigo invisível à espreita e à espera de um passo em falso. “Tem que haver uma responsabilidade de cada um, que deve ter responsabilidade por si próprio e saber que os seus atos são importantes para que tudo funcione, e se possa voltar ao normal o mais depressa possível”, entende.

Foto: mediotejo.net

No Teatro Virgínia, após o concerto solidário de Zambujo, as portas voltam a fechar-se, mas os técnicos vão continuar a trabalhar na agenda, garantindo que, logo que possível, as pessoas possam regressar e fruir dos eventos em segurança, respeitando as medidas impostas, com regras mais apertadas.

Os funcionários vêem esta nova postura como um reforço da ação fiscalizadora e encaminhadora dos espectadores, desta vez, por exemplo, controlando os lugares ocupados, com distância entre si e permitindo juntar coabitantes. Mas todos devem manter a máscara ao longo do espetáculo.

A programação, cerca de três meses de trabalho praticamente fechado, tiveram de ser reprogramados com datas já previstas em novembro, incluindo nomes como Adriana Calcanhoto. De portas fechadas, fazem-se os trabalhos de manutenção e administrativos, numa época desafiante e com poucas certezas do que virá e quando será possível retomar.

A certeza reside nas pessoas que continuam a querer saciar a fome de cultura, que contactam o Teatro e demonstram querer muito regressar.

Por agora, fecha-se o pano. Resta “olhar para a frente, com cuidado e esperar que as coisas voltem ao normal”.

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Joana Rita Santos
Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres: o conhecimento e o saber, a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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