Torres Novas | A magia da maestrina Saraswati Griffith

Um furo no carro fez a maestrina galesa parar em Torres Novas, em 1987. Já não voltou a partir.

Na quietude de Vishuddha, Torres Novas, nasce todos os anos um concerto coral sinfónico

Vozes líricas, experientes e de amadores, ecoam, no primeiro domingo de cada mês, na quietude de Vishuddha, o lugar “mágico”em Valhelhas, no concelho de Torres Novas, que há três décadas recebeu a maestrina galesa Saraswati Griffith.

Licenciada em música pela Universidade de Gales e com um percurso como pianista e depois como maestrina coral sinfónica em Londres, Saraswati quis fazer em Valhelhas o que era normal no seu país: marcar um concerto aberto a quem quiser aparecer para cantar, sem qualquer preparação prévia.

PUB

Marcou o primeiro concerto para fevereiro de 1991 – “Missa em Dó”, de Beethoven -, em Torres Novas. Arrranjou orquestra sinfónica profissional e lançou o desafio que veio dar origem ao Coral Sinfónico de Portugal, com a nuance de perceber que, por cá, a “espontaneidade” exigia alguma preparação.

Daí os ensaios que, desde então, juntam em Vishuddha, no primeiro domingo de cada mês, a partir de outubro, as vozes amadoras e de profissionais que incansavelmente desafia a aparecerem, só tendo a noção de quantas pessoas de facto constituem o coral no dia do concerto.

Ao longo destes anos Saraswati nunca desistiu de chamar quem vai cantando pelos coros amadores do país, mas o grupo tem rondado as 70 pessoas, com um núcleo de persistentes e outros que “vão e voltam, conforme a disponibilidade”, na sua maioria da zona centro do país e, para sua mágoa, pouca presença da região.

Para o projeto do ano 2015– “Te Deum”, de Bruckner, e “Missa Sancti Nicolai”, de Mussorgsky -, (a entrevista decorreu em outubro desse ano), a maestrina voltou a desafiar pessoas da região que “gostassem de experimentar”, sendo seu objetivo treinar essas vozes para entrarem nos momentos “mais gloriosos”, não tendo que interpretar todo um programa que reconhece ser “mais robusto”.

O Coral Sinfónico de Portugal, dirigido pela pianista e maestrina Saraswati Griffith, procura também este ano coralistas experientes e amadores, desta vez para interpretar o Requiem de Verdi. O concerto final terá lugar no Teatro Virgínia a 14 de maio, não muito longe do local dos ensaios, a Quinta de Vishuddha (Valhelhas).

A deslocação não é dificuldade, pois o último espetáculo contou com muitas pessoas do Algarve, preparadas à distância com a ajuda dos respetivos diretores.

“Muitos nunca tinham cantado ao vivo com uma orquestra sinfónica”, disse ao mediotejo.net, salientando que durante décadas só a Fundação Gulbenkian teve um coro sinfónico.

coro
Coral Sinfónico de Portugal, dirigido pela maestrina Sarawasti Griffith

“Pergunto-me porque é que o Coral Sinfónico de Portugal não tem crescido como eu gostava aqui na zona”, deixando no ar o repto também aos muitos jovens a quem deu formação musical e que foram partindo para as universidades.

“Alguns devem ter voltado à região. Onde estão?”, desafiou, salientando a escassez de vozes masculinas em quase todos os coros.

O que se ouve nos concertos que acontecem em abril ou maio no Teatro Virgínia, em Torres Novas, é único e raríssimo a nível amador e fora da capital do país, como testemunham os CD, de edição limitada, que o sonoplasta britânico Granville Cooper faz desde 1998.

Para Saraswati, o que acontece em Vishuddha é “um caso inédito em Portugal”. Os cerca de 50 músicos profissionais, entre os quais solistas “muito bons, porque as obras são difíceis”, aceitam participar apesar da remuneração, conseguida através dos patrocínios de empresas e cidadãos locais, não ser muito elevada.

Um patrocínio que Saraswati faz questão de destacar, pois, mesmo nos anos de crise, esse apoio foi fiel, permitindo que o projeto nunca fosse interrompido desde que se iniciou, em 1990.

 

Uma maestrina galesa fascinada pela “magia” de Vishuddha

Um furo na camioneta – em que, com o marido e os cinco filhos, iniciou uma aventura de um ano “à procura de Sol” – levou Saraswati e a família a descobrirem o lugar a que veio a chamar Vishuddha.

Era o ano de 1987. Pensaram ficar umas semanas, mas nunca mais saíram. Construíram a casa que habitam e uma outra, por onde se espalham pianos e camas, com varandas sobre a paisagem magnífica, onde se realizam os estágios, principalmente de música mas também de meditação, com a presença, pontualmente, de um Lama para dar ensinamentos budistas.

“Vishuddha é o nome do chakra da garganta, um centro energético associado à elevação espiritual, intuição, à criatividade, à expressão e à voz. Foi para explorar estas áreas, com especial incidência na música, que a Quinta de Vishuddha foi construída. A casa, a paisagem, os arredores e a atmosfera local fundem-se de forma a criar as condições ideais para este tipo de trabalho”, salientou.

A camioneta, que durante anos lembrou que esta era uma paragem na viagem em direção ao Sol (sinónimo de Itália no imaginário de então do casal), apodreceu e já não marca o lugar.

Três dos cinco filhos voltaram ao Reino Unido e vivem em Londres, onde estão também os dois netos. Consigo vive uma das filhas e o rapaz mais novo, Sudesh, que faz sucesso no futebol torrejano.

Era ao piano que estava quando a encontrámos, ali onde continua a ensinar quem a procura.

Sentada numa das mesas compridas na varanda sobre a paisagem para a conversa com o mediotejo.net, Saraswati confessa que é em Vishuddha que se sente em casa.

“Amanhã começamos a apanhar azeitonas”, diz, enquanto explica que à música alia o gosto pela terra, por onde se espalham oliveiras e, claro, figueiras – de figo preto, característico desta zona do país, que seca e que não dispensa, todos os dias, ao pequeno-almoço.

*Artigo publicado em outubro de 2015

**Republicado em fevereiro de 2017

PUB

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here