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Terça-feira, Dezembro 7, 2021
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Torres Novas | À descoberta do Trilho da Rata Cega partindo do livro de Paula Araújo

A linha férrea que ligou os concelhos de Torres Novas e Alcanena no final do século XIX ganhou novos passageiros com o novo romance de Paula Araújo. “O Trilho da Rata Cega” junta História e Amor a bordo da composição assim conhecida pelos descarrilamentos constantes, e também por “Comboio Menino” devido à pequena dimensão. Conversámos com a autora sobre a obra que considera “um filho”, lançada em setembro último, e partimos à descoberta de alguns pormenores deste episódio histórico.

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O pedido feito pelo Barão de Matosinhos na reunião da Câmara Municipal de Torres Novas a 8 de julho de 1886 resultou num episódio histórico que os mais velhos ainda falam e com o qual os mais novos podem ter um contacto simbólico. Há muito que os carris deixaram de existir, mas as memórias da “Rata Cega” e do “Comboio Menino” estão presentes numa placa e nas linhas prateadas que atravessam a cidade de Torres Novas, nomeadamente em frente à Praça do Peixe, na rua Serpa Pinto / Atriz Virgínia.

Este ano, o primeiro troço da linha férrea entre Torres Novas e Alcanena comemoraria o seu 129º aniversário e o percurso completo o 125º. Alguns defendem que funcionou durante cinco meses e outros apontam para um prazo mais longo, três anos, sendo durante no último período que se desenrola a história de amor do livro “O Trilho da Rata Cega”, de Paula Araújo, lançado no passado mês de setembro com a chancela da Editora Cordel d’Prata.

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O lançamento do livro decorreu no Museu Agrícola de Riachos. Fotos: mediotejo.net

O local escolhido foi o Museu Agrícola de Riachos, perto da atual estação ferroviária de Riachos – Torres Novas – Golegã, de onde o “Comboio Menino” partia. Artur Gonçalves, nas suas “Memórias de Torres Novas”, refere que após a passagem por Riachos, os passageiros iam subindo e descendo nas estações de serviço situadas no final da Rua das Freiras, em Torres Novas, na Bela Vista ou Alto da Senhora da Vitória, na Ribeira Branca, na Zibreira, na Gouxaria e, por último, à entrada do chamado bairro do Lavradio, em Alcanena.

O tema da linha construída e explorada pela Companhia de Caminho de Ferro de Torres Novas a Alcanena sempre fascinou Paula Araújo que, apesar de ser natural de Lamego, morou em Torres Novas durante 22 anos. A pesquisa histórica revelou-se difícil devido à parca existência de registos e nenhuma imagem conhecida. A falta de apoios constituiu outra dificuldade.

Descarrilamento após descarrilamento que, à semelhança da “Rata Cega”, não levou ao fim da viagem pois a docente de inglês na Chamusca não desistiu.

Locomotiva semelhante à da Rata Cega / Comboio Menino e horário. Fotos: DR

O contacto da editora surgiu três meses depois do lançamento do romance juvenil “Os Segredos do Lapedo”, lançado em julho de 2017 com a chancela da Textiverso. Para o prefácio, a escolha recaiu sobre a fadista Teresa Tapadas, que esteve presente no lançamento em que disse ter encarado o convite como “um desafio enorme”, facilitado pelo facto livro ser “viciante” e pelo qual se deixou “embrenhar”.

A narrativa da obra que Paula Araújo considera “um filho” foi ganhando forma em torno de algo que, segundo escritora licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, Estudos Ingleses e Alemães pela Faculdade de Letras de Coimbra, “está como um mito na memória, sobretudo, dos torrejanos”. A bordo seguem a História e o Amor vividos por personagens de todas as classes sociais e cujos encontros foram pensados para “prender o leitor do início ao fim”.

O prefácio da obra foi escrito pela fadista Teresa Tapadas. Fotos: mediotejo.net

Nesta quinta obra literária de Paula Araújo não se percorrem apenas os 21 quilómetros entre Torres Novas e Alcanena. O fim da linha não se faz quando termina o percurso constituído, na sua maioria, por uma via de bitola estreita assente sobre estradas, de tipo americano, e a história que começou a ser pensada em 2010 abrange outros episódios históricos marcantes, como o 25 de Abril de 1974 e a construção da Vala Real.

Uma obra feita “com amor e paixão”, refere a autora, que não esquece “o trabalho dos camponeses de Riachos” e na qual “muita gente se vai rever”. O tipo de escrita, acrescenta, é “simples” e segue o “discurso único” que a caracteriza em qualquer estilo literário, seja no romance, em artigos de opinião ou nos contos infantojuvenis com que tem brindado o público ao longo dos últimos anos.

Ação da Companhia do Caminho de Ferro de Torres Novas a Alcanena e notícia sobre um dos descarrilamentos. Fotos: DR

Em “O Trilho da Rata Cega”, Paula Araújo, decidiu por o “leitor à prova” através dos mistérios que são revelados no final da viagem literária. Durante a entrevista e no dia do lançamento da obra, data em que teve o “filho pela primeira vez nos braços”, optou por manter o suspense e convidou os leitores a percorrem o trilho que desapareceu fisicamente quando foi desmontado e vendido como sucata em 1896, mas ganhou novos passageiros em 2018.

Nota: As imagens referentes à Rata Cega / Comboio Menino (algumas do Arquivo Histórico da CP) foram recolhidas na página de facebook “Companhia de Caminho de Ferro de Torres Novas a Alcanena”, administrada por Pedro Triguinho e Nuno Vasco, a quem agradecemos a cedência.

*Publicada em setembro de 2018, republicada em janeiro de 2019

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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1 COMENTÁRIO

  1. Do Texto: “A linha férrea que ligou os concelhos de Torres Novas e Alcanena no final do século XIX …” Uma pequena rectificação. Nessa altura Alcanena pertencia ao concelho de Torres Novas.

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