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Torres Novas | A arte de Carlos Reis 155 anos depois do seu nascimento

O concelho assistiu ao nascimento de Carlos Reis há 155 anos. Uma história com mais de século e meio marcada por pinceladas luminosas e bucólicas que perduraram até aos nossos dias e fomos conhecer no museu municipal de Torres Novas, do qual é patrono desde 1942. Margarida Moleiro, diretora do museu, e Teresa Lopes, técnica de Conservação e Restauro, guiaram-nos na visita que fizemos no dia do aniversário do artista com quem se “cruzam” todos os dias.

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Carlos Reis deixou a primeira marca no mundo a 21 de fevereiro de 1863 e nos 77 anos que se seguiram foi-lhe acrescentando outras, das quais se destacam os traços da arte naturalista que marca a sua obra. Décadas vividas com os tons escolhidos pelo pintor nascido em Torres Novas para eternizar rostos da realeza e da família, assim como os pormenores de paisagens bucólicas e costumes locais nos finais do século XIX e início do século XX.

Contemporâneo do movimento artístico modernista e testemunha viva das mudanças políticas e sociais que mudaram o país e o mundo nesse período, assumiu-se como eterno naturalista e monárquico até ao fim dos seus dias. A consistência do traço marcado pela técnica encontram-se em obras de todos os tamanhos, desde pequenas bandeiras de porta às telas de grandes dimensões e aos painéis decorativos.

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Algumas das suas peças podem ser encontradas na Sala de Baile do Hotel do Buçaco (Mealhada), no Paço Ducal de Vila Viçosa ou na Sala do Senado do Palácio de São Bento (Lisboa), mas é em Torres Novas, no museu municipal ao qual atribuíram o seu nome dois anos após a sua morte, que a obra tem maior destaque. Visitámos duas salas na companhia de Margarida Moleiro, diretora do museu, e Teresa Lopes, que ali desempenha a função de técnica de Conservação e Restauro.

Busto de Carlos Reis e o núcleo biográfico. Fotos: mediotejo.net

Ambas partilham o dia a dia com a vida e a obra de Carlos Reis, pouco faltando para o tratarem por “tu”. Relação próxima assumida por Teresa Lopes quando nos diz que o trabalho desenvolvido no museu desde 1994 trouxe “o gosto especial”, sobretudo “pela obra” à qual gostaria de dedicar mais tempo uma vez que é recorrente o surgimento de novas peças, muitas de coleções particulares vendidas em leilões e que confirmam a vertente comercial do artista.

O número total, diz, é impossível de contabilizar, todavia, arrisca avançar cerca de 400 referências associadas ao pintor, salvaguardando que acredita existirem muitas mais do antigo aluno inscrito na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa em 1881 e onde teve António Silva Porto, Alberto Nunes, Miguel Ângelo Lupi ou Simões de Almeida como professores. Nomes artísticos influentes com quem se cruzou até concluir o curso em 1889, durante o qual conheceu o príncipe D. Carlos, que acabaria por lhe financiar os estudos.

A amizade entre ambos durou até ao Regicídio de 1908, com a morte de D. Carlos, já rei, e do filho herdeiro no Terreiro do Paço (Lisboa), um dos episódios marcantes para a implantação da República, que ocorreria dois anos mais tarde. Optar por manter a posição política de monárquico acabaria por trazer dissabores a Carlos Reis e, segundo Teresa Lopes, contribui para o “desconhecimento” que o público tem da sua obra uma vez que a crítica da altura não foi benevolente.

Obra “No Caminho da Fonte” junto do retrato de Carlos Reis pintado pelo filho e a assinatura do artista. Fotos: mediotejo.net

A forte ligação à entidade governamental não marcou apenas o ciclo privado de Carlos Reis, mas também o seu percurso artístico com a obtenção da bolsa de estudo que lhe permitiu frequentar a École des Beaux-Arts. Em Paris teve Léon Bonnat e Joseph Blanc como mestres até regressar a Lisboa, em 1895, onde viria a suceder a Silva Porto na docência da Escola Superior de Belas Artes e, mais tarde, tornar-se diretor do Museu Nacional de Belas Artes (1905) e do Museu Nacional de Arte Contemporânea (1911).

A fundação do grupo Ar Livre por volta de 1910, antecessor do Grupo Silva Porto, é outros dos marcos importantes da vida exposta na sala mais pequena dedicada a Carlos Reis no museu municipal de Torres Novas. Neste núcleo biográfico está patente o que inspirou o pintor a pegar nos pincéis e imortalizar uma parte do mundo da forma como gostava, confirmando, segundo Margarida Moleiro, que “o naturalismo era, de facto, o que lhe corria nas veias por gosto”.

Uma das salas dedicadas ao pintor e pormenor da obra “No Caminho da Fonte”. Fotos: mediotejo.net

Nos pincéis e não só uma vez que – além das obras pertencentes ao museu municipal e ao Museu Nacional de Arte Contemporânea / Museu do Chiado, cuja parceria nasceu na década de 90, assim como das doações de particulares e da coleção da família – o acervo museológico inclui um conjunto de escritos do pintor. Peças obtidas, sobretudo, devido ao contributo do bisneto de Carlos Reis e que a diretora do museu aponta como a “documentação que nos faltava para dar substância a este núcleo”.

O primeiro contacto de Carlos Reis com o Museu Municipal de Torres Novas deu-se na altura da sua inauguração, a 20 de junho de 1937, depois de ter sido fundado 11 de maio de 1933 por deliberação municipal e instalado na Capela de Nossa Senhora da Piedade. O acervo regressaria à Casa Mogo em 1993 depois de uma passagem pelo Largo dos Combatentes e pelo antigo edifício da Escola Industrial, no Largo do Salvador.

Na abertura estava Gustavo Pinto Lopes, nomeado conservador em 1935 e que o pintor surpreendeu nessa data com um retrato que tinha pintado do amigo. O momento ficou, igualmente, marcado pela oferta das obras “Talha Vidrada” (1926) e “Alecrim do Norte”, a última entregue para ser leiloada pela Misericórdia e que regressou mais tarde ao museu por doação da proprietária, uma habitante das Lapas.

Um dos escritos de Carlos Reis e pormenor do relógio oferecido pela Rainha D. Amélia. Fotos: MMCR e mediotejo.net

Conhecido pela capacidade de transmitir luminosidades através do chamado “pó branco”, Carlos Reis é descrito por Teresa Lopes como “um pintor que nasceu pintor”, dedicando-se de forma “incansável” à pintura e à exploração do “dom natural que desenvolveu e manteve até ao fim da sua vida”. A “coerência” que a técnica e a diretora destacam nas obras sobrepôs-se à fase inicial em que o artista terá procurado “outras linhas”.

Um dos exemplos é o quadro “Manhã em Clamart”, que naufragou com o vapor Saint-André durante o transporte das obras de arte que integraram a Exposição Universal de Paris de 1900 e cujo estudo (1889 – 1896) se encontra exposto no museu. Foi junto deste e outros desenhos a carvão que também falámos com Elvira Sequeira, responsável pelo pelouro da Cultura na Câmara Municipal de Torres Novas.

A vereadora destaca Carlos Reis como “um dos grandes pintores torrejanos” que “desenvolveu um determinado trabalho que nos honra”.

Revela-nos que a obra “Asas” (1933), a produção mais recente do pintor exposta no museu, é a sua eleita e concorda com Margarida Moleiro quando refere que Carlos Reis é o “coração” do museu municipal, mas não se devem esquecer os outros membros do corpo. Para a vereadora, o espaço “não deixa de ser generalista, passando desde a evolução humana à arte sacra e a outros patrimónios que estão sempre em interligação com o espaço museológico porque é aqui que se mistura e se celebra a memória coletiva”.

Elvira Sequeira e a equipa do Museu Municipal Carlos Reis. Fotos: mediotejo.net

Se “Asas” é a produção mais recente, entre as peças mais antigas encontram-se o quadro “No Caminho da Fonte” (1887) e as bandeiras de porta doadas pela família de Carlos Azevedo Mendes, junto das quais a equipa do museu se juntou.

Na fotografia de grupo surgem a técnica de Conservação e Restauro Catarina Nascimento, a socióloga Isabel Pires, os rececionistas Luísa Frade e Paulo Matos e os antropólogos Ana Marques e João Carlos Lopes, ambos do Gabinete de Estudos e Planeamento Editorial.

Com eles, Margarida Moleiro e Teresa Lopes, que surgem sentadas, aparece também Vitória Duarte, a antropóloga física que orienta a oficina pedagógica “Sherlock Bones”. Esta é uma das iniciativas desenvolvidas ao longo do ano com a comunidade escolar e faz com que surjam surpresas entre as obras de Carlos Reis, como os pequenos pedaços de papel com desenhos de ossos que os alunos encontram pelo edifício num peddy-paper.

Encontrámos alguns a partilhar o espaço com o relógio oferecido pela Rainha D. Amélia a Carlos Reis por ocasião do casamento celebrado em Torres Novas, apesar do artista não ter voltado a morar no concelho depois da sua saída na adolescência. As paisagens prediletas eram as da Lousã, onde se fixou na primeira década do século XX, mas as torrejanas mantiveram-se presentes e inspiraram a arte dos seus discípulos.

Quadros de quatro pupilos de Carlos Reis e a oficina pedagógica “Sherlock Bones”. Fotos: mediotejo.net

No museu municipal encontram-se expostas obras de alguns deles, como Frederico Aires, António Saúde, Falcão Trigos e João Reis, o filho, que pintou a Praça 5 de Outubro, a Rua do Salvador ou o Largo do Lamego. Outros elementos da família também estão presente nas paredes da sala maior, pintados por Carlos Reis em óleo sobre tela em “Retrato de Minha Mãe” (1897), “Minha Filha Maria Luísa” (1913) e “Retrato da Minha Filha Leonor” (1925).

Peças que se aliam às das restantes exposições e contribuem para os cerca de 5000 visitantes anuais que vivem a dinâmica implementada, nas palavras de Elvira Sequeira, para “fazer com que “as pessoas sintam este espaço como seu”.

Margarida Moleiro reforça a ideia ao partilhar que “gostaria que o museu afetasse as pessoas e fosse também contaminado por elas e pelo que se passa no mundo”, acrescentando que o trabalho desenvolvido com as associações locais, os visitantes e as escolas “é um modo de contaminação ótimo”.

O programa comemorativo dos 155 anos do nascimento de Carlos Reis refletiu esta aposta ao convidar o público para visitas guiadas e aulas abertas com a Escola de Dança Rita Assis e o Conservatório de Música do Choral Phydellius, que também realizou uma audição de violino e canto. As atividades realizaram-se nos dias 21 e 24 de fevereiro, juntando-se aos projetos desenvolvidos não só dentro do museu, mas também em articulação com outros espaços culturais.

Elvira Sequeira, a dançarina Rita Assis, Vítor Ferreira do Choral Phydellius e Margarida Moleiro junto dos retratos da família de Carlos Reis. Fotos: mediotejo.net

O Convento do Carmo é um deles e no passado dia 18 tiveram início as sessões da nova oficina educativa “Memorando Etnográfico”, com a bailarina e coreógrafa Susana Domingos Gaspar.

As atividades continuam no próximo dia 8 de março, data em que os dois equipamentos culturais passam a partilhar, igualmente, a exposição “Maria Lamas – Mulheres, Paz, Liberdade” dedicada à escritora, tradutora, editora, jornalista e ativista política torrejana, com foco no período que abrange a década de 20 até ao 25 de Abril de 1974.

As relações do Museu Municipal Carlos Reis estendem-se a outras entidades do país e Elvira Sequeira também refere o trabalho que está a ser desenvolvido com o Museu Nacional de Arqueologia.

O resultado será a exposição sobre o crânio humano com cerca de 400 mil anos encontrado em 2014 na gruta da Aroeira, rede cársica da nascente do Almonda, cuja descoberta foi publicada na revista científica “Proceedings of the National Academy of Sciences USA” e divulgada no ano passado.

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Sónia Leitão
Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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