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Quinta-feira, Outubro 21, 2021

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“Tordos”, por Armando Fernandes

Morreu o Sr. José Dinis, odontologista tal como pai, tendo também exercido as funções de Encarregado da Biblioteca Nº 32, da Fundação Calouste Gulbenkian. Era um homem bom, um tanto mitómano e muito esquecido no tocante a horários. Por isso eu e o Engenheiro José Abreu convivíamos, como sempre, atentos aos seus lendários atrasos.

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Num jantar de passarinhos fritos, umas dezenas, ele esqueceu-se, e quando chegou ao restaurante sito no Pego censuramos o seu atraso castigando-o com o pagamento do festim. Prometeu emendar-se.

Passados alguns dias o «Zé» Dinis falou-me em tordos servidos numa locanda abrantina e, segundo ele, os pássaros eram preparados de modo a provocarem grácil e profundo prazer palatal. Fomos abordar o senhor entendido na matéria de cozinhar aquelas aves de carne delicada, que se alimentam de sementes de azevinho, de bagas e uvas, por isso inimigas dos vinhateiros, sendo caçadas Novembro, Dezembro e Janeiro.

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O senhor patenteava boa relação com o nosso amigo, na altura os tordos estavam debaixo de suspeição em virtude do desastre nuclear em Chernobyl, razão para ter sido fácil encomendar os passarocos, no entanto, quando inquiri se havia tordeias o senhor esboçou um rosto de interrogação a desfazer perguntas.

Os tordos seriam estufados com uma cebolada a aconchegá-los num molho elaborado pela mulher. Sem ais nem uis aceitei a sugestão, o senhor condescendeu em grelhar dois ou três salpicados com pedras de sal, com uvas não sabiam fazer, sublinhava a senhora.

No dia da funçanata aprimorei a pontualidade, a mesa estava posta, do Zé, nem novas nem mandados. Esperei a mordiscar azeitonas, verdosas, acompanhadas por pão e tinto do produtor. Aguardei meia hora, os tordos grelhados apareceram odorosos, convidativos e, decidi não deixar perder os seus eflúvios tentadores.

Dos grelhados passei aos protegidos pela cebolada. Estufados a preceito não colocaram obstáculos à sua consumição, sobravam dois na travessa quando apareceu afobado o autor da proposta de convivialidade palatal. Murmurou desculpas, gargalhou estrepitosamente, colocou os dois tordos sobrantes no prato, sem delongas iniciou a sua mastigação, retomou a conversa da comida anterior. Era assim o Zé Dinis.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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