Tomar | Vincent McCallum: o cidadão do mundo que é o rosto do Multicultural Travelling Fest

Recebe-nos de sorriso rasgado, cabelos ruivos soltos ao vento e uma tranquilidade de quem está em paz consigo e com o mundo. Estamos no Jardim das Oliveiras, o refúgio de Vincent McCallum, um escocês de 56 anos que reside na pacata localidade de Outeiro, freguesia de Serra-Junceira, a poucos quilómetros de Tomar. É ele o mentor do “Multicultural Travelling Fest”, um evento que traz músicos internacionais a Tomar entre 27 de julho e 4 de agosto. Pretexto mais do que suficiente para justificar uma conversa informal com este assumido cidadão do mundo que tornou a cidade templária como sua terra adotiva desde criança.

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O Programa do “Multicultural Travelling Fest 2018”, que decorre ao ar livre, entre o largo da Capela Santa Iria (21h30) na Rua Marquês de Pombal e a Praça da República (22h00), é o seguinte: 27 julho – Garance Louis; 28 julho – Vincent McCallum & David Almendra; 3 agosto – Leonie Evans, e 4 agosto – Swagger Blues. A ideia era fazer um evento único maior, preenchendo a cidade com música, mas, não havendo possibilidade, para já oferece-se quatro noites de verão à fresca com música de vários pontos do mundo.

Vincent McCallum vive em Tomar desde os 9 anos mas já atuou um pouco por todo o mundo Foto: mediotejo.net

Vincent nasceu em Inglaterra em 1961. É filho de pai escocês e de mãe inglesa. Veio para Portugal com os pais, que eram professores em Lisboa, quando tinha dois anos. Depois de viver na linha de Estoril, veio para Tomar em 1970, uma vez que a mãe foi aqui colocada e apaixonou-se por Tomar. “Eu e o meu irmão mais velho fomos aqui criados. Viemos viver para o Poço Redondo e depois na Fonte D. João”, conta.

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O pai tocava violino e piano, embora não fosse músico, e Vincent descobriu que a música haveria de ser o seu mundo com apenas 11, 12 anos. “Começámos (eu e o meu irmão mais velho) por ver os grupos a atuar e o nosso fascínio era tanto que não dançávamos porque não tirávamos os olhos dos grupos. Depois fizemos os nosso próprios instrumentos e, sem aulas, aprendemos a tocar de forma autodidata”, recorda, acrescentando que o pai lhe comprou uma guitarra por 400 escudos na loja “Cuco” em Tomar.

“Arranjou-se um livro de acordes e quando aprendi três acordes comecei a atuar. Atuei no casamento do atual presidente de junta, Américo, com um grupo que constitui com o meu irmão e o meu pai, os Shooting Stars (Estrelas Candentes)”, conta. Vincent McCallum recorda que tocavam covers mas com 12, 13 anos começou a escrever as primeiras letras. Foi muito cedo que descobriu, e decidiu, que a música iria fazer parte da sua vida.

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Com 17 anos vai para o estrangeiro, regressando esporadicamente. O irmão acabou por montar uma empresa de som em Inglaterra, tendo trabalhado como técnico da mesma com muitas bandas. Viver da música é possível, com todos os altos e baixos que caracterizam a vida artística, defende.

“Passei metade da minha vida em hotéis de quatro e cinco estrelas e outra metade em valetas”, conta a rir. Trabalhou como técnico de som mas o que o movia era estar a atuar em cima do palco e nunca desistiu desta paixão.

“Passei metade da minha vida em hotéis de quatro e cinco estrelas e outra metade em valetas”, conta o músico a rir. Foto: mediotejo.net

“Não toco em grandes festivais mas já atuei no Pavilhão Atlântico e nos Açores, em festivais para 20 ou 30 mil pessoas, mas o que é mesmo gratificante é tocar em salas para 60 ou 100 pessoas porque há mais comunicação interpessoal” entre o músico e o público. Costuma tocar a solo mas quando se desloca ao estrangeiro toca com músicos amigos, integrando-se em outras bandas. No percurso de vida musical, foi manager e produtor.

A estabilidade maior vive-a desde que tem o Jardim das Oliveiras, uma quinta no meio da natureza que chegou a funcionar nos anos 90 com um bar, onde ficam hospedados os seus amigos músicos vindos de todo o mundo. O seu quintal chega a parecer um parque de campismo por vezes.

“Os Quinta do Bill fizeram aqui a pré-produção do Trilho do Sol e tivemos aqui o Martin Stephenson”, destaca, sublinhando que a estabilidade nunca fez parte da sua vida. Mesmo com esta paixão, a família foi sempre colocada em primeiro lugar. Rejeitou muitos trabalhos e oportunidades para não prejudicar a família. Hoje em dia, a mulher, Rose Ribeiro, vai a todos os seus concertos, dentro e fora do país. Se ela não vai, ele não vai.

Multicultural Travelling Fest: uma mistura de artistas e sonoridades musicais

Foi esta experiência musical além-fronteiras que o fez trazer para Tomar o Multicultural Travelling Fest, um evento que traz outras sonoridades até à cidade templária. A ideia surgiu depois de participar numa tournée que fez na Escócia em 2014. Nos dois anos seguintes, o evento realizou-se apenas no Jardim das Oliveiras e em 2016 interrompeu por conta de Vicent ter passado um verão a atuar em hotéis no Algarve. No total fez 65 espectáculos.

“É uma mistura de artistas, que podem vir de partes diferentes do mundo, e para uma audiência que também é multicultural. Temos fado, jazz, blues, folk… é muito acústico e não tanto bandas e rock. Chama-se Travelling Fest porque, no fundo, é uma família de músicos que anda sempre em viagem, de um lado para o outro”.

No Jardim das Oliveiras fazem concertos mais privados para menos público, com os artistas a dar o seu melhor, pelo que decidiram apresentar a proposta à Câmara de Tomar para, nesta época do Verão, se proporcionar música e cultura no âmbito das Noites Quentes à Fresca. Os músicos ficam sempre alojados na sua casa, tentando-se arranjar espetáculos em outros pontos do país como no Festival Portas do Sol, em Santarém.

“A intenção é mesmo este intercâmbio cultural e era mesmo ter 20 ou 30 artistas que vinham a Portugal e, durante uma semana, atuarem em vários pontos do país fazendo um Travelling Fest em Portugal”, sublinha.

Vincent numa das suas muitas atuações Foto: D.R.

Curiosamente, muitos dos artistas que participaram nas primeiras edições do Multicultural Travelling Fest apaixonaram-se pela zona, pelo Rio e por Tomar existindo hoje em dia uma grande comunidade de estrangeiros residente nesta zona do Médio Tejo. “Em 2015 pensámos em passar isto para a cidade. Inicialmente era para ser em Cem Soldos, mas depois recuámos nessa ideia e apostamos na cidade”, conta.

Vincent McCallum, que introduziu as grandes bandas de tributo em Portugal, sonhava com um Festival num local privilegiado da cidade, como o Jardim do Mouchão, mas a opção acabou por ser tocar em vários dias, à noite.

Em 2017, o evento chegou à cidade pela primeira vez, com uma atuação acústica em frente ao Café Santa Iria, depois a meio da Corredoura, e que acabava na Praça da República. O mesmo músico atuava nestes diferentes locais na mesma noite.

Este ano, os artistas atuam em dois locais: em frente ao Café Santa Iria (21h30) e na Praça da República (22h00), onde foram colocadas aparelhagens. O Festival decorre em quatro noites embora a ideia inicial fosse preencher a cidade com música, num evento maior.

“A nossa visão – e continua a ser – era arranjar duas ou três cidades cá em Portugal que estivessem recetivas em ter uma série de artistas, durante uma semana, a tocar em vários pontos dessas cidades, trocando de cidade, sendo que mantínhamos cá os artistas a viver durante essa semana”, explica. Para tal o apoio dos municípios era fundamental para o êxito desta ideia multicultural, dando oportunidade ao público de contactar com outras sonoridades.

Para Vincent McCallum o mais gratificante em organizar o Multicultural Travelling Fest é o contacto/convívio com os músicos que passam a ser amigos e depois poder contribuir para a dinamização cultural do concelho, trazendo outras culturas até ao nosso país.

Os artistas que atuam são todos músicos profissionais e que nos seus países de origem são bastante reconhecidos do público.

“Estamos a falar de pessoas que vivem da música e de que se não viessem cá as pessoas nunca teriam possibilidade de os ver, de conviver com eles, e de ouvir a sua música”, atesta. Olhando para trás, e para os mais de 40 anos dedicados à música, responde-nos com um sorriso que tudo valeu a pena.

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