Tomar | Sinagoga reabre ao público mais vocacionada como espaço de culto (c/ fotos e vídeo)

A Sinagoga de Tomar reabriu ao público esta sexta-feira, 9 de novembro, de cara lavada. As obras custaram cerca de 250 mil euros sendo que o espaço apresenta-se agora com menos espólio visível e mais vocacionado para a prática do culto judaico, sendo este o templo judaico mais antigo do país.  O templo judaico, localizado no centro histórico, na Rua Joaquim Jacinto (antiga rua da Judiaria) é o mais antigo do país e um dos mais antigos de toda a Europa. 

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Há outras diferenças que agora saltam à vista. Por exemplo, a porta original da Sinagoga de Tomar, ganhou uma nova visibilidade, após as obras de reabilitação que levaram a que este monumento judaico estivesse de portas fechadas durante quase um ano. A porta apenas não está aberta para o exterior porque, segundo nos explicaram, confina com um terreno privado. Calcula-se que a população judaica de Tomar andasse, em meados do século XV, em cerca de 150 a 200 indivíduos, tendo chegado a atingir uma significativa proporção de 30 a 40% do total de habitantes da vila, na sequência da chegada dos judeus espanhóis, expulsos em 1492.

Sinagoga reabriu após 11 meses de obras de reabilitação Foto: mediotejo.net

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Importa, por isso, relembrar que a origem da comunidade judaica de Tomar remonta provavelmente ao início do século XIV, quando aqui se instalou uma comunidade ao serviço da Ordem do Templo e, mais tarde, da sua sucessora, a Ordem de Cristo. O rápido crescimento demográfico, ao longo do século XV, suscitou a criação de uma judiaria, com o encerramento de portas entre o pôr e o nascer do sol. Estas portas situar-se-iam nas extremidades ocidental e oriental desta rua, que passou a ser designada de Rua da Judiaria, mais especificamente nos cruzamentos com as Ruas do Moinho e Direita. A situação da Judiaria, próxima do centro económico e social da então vila, é bem demonstrativa da importância que a comunidade assumiu na sociedade nabantina.

Foi neste contexto que se deu a fundação da sinagoga, em meados do século XV, motivada pelo crescente número de fiéis. A construção deu-se por ordem do Infante D. Henrique, que ao que tudo indica protegia a comunidade hebraica da vila, facto a que não é alheio o cargo que exercia, de mestre da Ordem de Cristo. No entanto, a existência deste templo seria efémera, pois logo em 1496, com a conversão forçada dos judeus ao cristianismo decretada por D. Manuel I, a Judiaria da vila, à semelhança de todas as outras do reino, é abolida, sendo também encerrada a sua sinagoga.

Porta original da Sinagoga ganhou nova visibilidade após as obras Foto: mediotejo.net

O espaço da sinagoga passou então, a partir de 1516, a ser utilizado como cadeia pública. Entre os finais do século XVI e os inícios do XVII, depois das necessárias obras, o edifício passou a local de culto cristão, como Ermida de São Bartolomeu. Após a sua profanação, no século XIX, o antigo templo foi utilizado como palheiro, servindo em 1920, aquando da visita de um grupo de arqueólogos portugueses, de adega e de armazém de mercearia. No ano seguinte, o edifício foi classificado como Monumento Nacional, tendo sido adquirido em 1923 pelo Dr. Samuel Schwarz.

Este judeu polaco, investigador da cultura hebraica, suportou obras de limpeza e desaterro, doando o edifício ao Estado em 1939, sob a condição de aqui ser instalado um museu luso-hebraico.

Menos museu, mais espaço de culto

Para além da reabilitação visível em todas as paredes no edifício, o espaço de culto judaico, também conhecido como Museu Hebraico Abraão Zacuto, conta agora também com novo mobiliário. Este espólio, fruto de milhares de doações, vai integrar um espaço museológico que vai ser construído num edifício adjacente à Sinagoga, numa fase posterior da obra.

Vereadora Filipa Fernandes explicou quais são as diferenças que encontramos na Sinagoga após as obras Foto: mediotejo.net

A vereadora da Cultura, Filipa Fernandes, explicou ao mediotejo.net que o espaço veio privilegiar o culto judaico. “Abrimos portas para que aqui possam vir as comunidades judaicas e que muito nos procuram porque esta é a Sinagoga mais antiga de Portugal. É um espaço mais amplo, com menos espólio porque o que aqui se encontrava estará em exibição no Centro Interpretativo da Sinagoga, que ainda está em obra e não tem previsão de abertura”, explicou. Filipa Fernandes refere que a Sinagoga, tal como reabriu, é mesmo para servir de espaço de culto para os judeus.

Não estão previstas visitas guiadas na Sinagoga de Tomar mas existem vigilantes no espaço – tal como em outros museus e igrejas da cidade – que recebem formação por parte da Divisão de Turismo e Cultura, e que estão preparados para dar explicações aos visitantes. O espaço acolhe, por outro lado, visitantes integrados em visitas turísticas guiadas. Neste dia, por exemplo, o espaço recebeu um grupo de visitantes conduzidos pelo guia João Fiandeiro, da empresa turística “Caminhos com História” que deu explicações minuciosas sobre o templo.

Sinagoga de Tomar recebeu dezenas de visitantes no dia da sua reabertura, nomeadamente participantes de uma Convenção de Yoga Foto: mediotejo.net

A Sinagoga de Tomar é o único templo judaico proto-renascença existente actualmente no país. A sala destinada ao culto desenvolve-se num espaço de planta quadrada, com piso inferior ao do exterior, dividido em três naves de três tramos, apresentando uma tipologia semelhante à de outras sinagogas sefarditas quatrocentistas. O tecto, em abóbada de tijolo de arestas vivas, é suportado por quatro elegantes colunas, com capitéis de lavores geométricos e vegetalistas, e por mísulas embebidas nas paredes.

A disposição destes elementos encerra um significado simbólico: as doze mísulas simbolizam as doze tribos de Israel, enquanto que as quatro colunas representam as quatro matriarcas – Sara, Rebeca, Lea e Raquel. Estas duas últimas matriarcas são as filhas de Labão, facto que explica a razão por que os capitéis são iguais em duas colunas e diferentes nas restantes. Para efeitos acústicos, encontram-se colocadas, embutidas na parede dos cantos, oito bilhas de barro viradas ao contrário, que comunicam com a sala através de orifícios.

A porta virada para nascente, em arco quebrado, lanceolado do lado de fora, era a porta principal do templo. A entrada faz-se hoje por uma modesta porta de vão rectangular, voltada para norte. Este espaço apresenta algumas semelhanças com a cripta de D. Afonso, Conde de Ourém, na Igreja Matriz aquela cidade, nomeadamente no que respeita ao sistema acústico e ao tratamento do espaço interno. Depois de algumas escavações feitas no local, foi encontrada uma sala de planta rectangular, adossada ao edifício principal, destinada ao mikvah, o banho ritual de purificação das mulheres.

A Sinagoga de Tomar vai estar aberta de terça a domingo, não sendo necessário marcar visita previamente, mas também espera por uma visita dos tomarenses. “Esta Sinagoga é da comunidade judaica mas também é dos tomarenses pelo que convidamos todos a usufruir deste espaço, que tem esta acústica fabulosa”, convidou Filipa Fernandes.

O número de visitantes não pára de crescer – em 2016 o espaço foi visitado por 58.191 turistas, com a particularidade de cerca de 70 por cento serem estrangeiros – podendo vir esta a ser uma importante fonte de receita turística para o município que está a ponderar vir a estipular entradas pagas no monumento judaico, um assunto que deverá ser discutido numa próxima reunião de executivo camarário.

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Elsa Ribeiro Gonçalves
Aos 12 anos já queria ser jornalista e todo o seu percurso académico foi percorrido com esse objetivo no horizonte. Licenciada em Jornalismo, exerce desde 2005, sempre no jornalismo de proximidade. Mãe de uma menina, assume que tem nas viagens a sua grande paixão. Gosta de aventura e de superar um bom desafio. Em maio de 2018, lançou o seu primeiro livro de ficção intitulado "Singularidades de uma mulher de 40", que marca a sua estreia na escrita literária, sob a chancela da Origami Livros.

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