Tomar | Seminário recordou embaraço e glória de La Lys 100 anos depois

“O Centenário da Batalha de La Lys e o Dever de Memória”. Foto: mediotejo.net

A Batalha de La Lys, travada a 9 de abril de 1918 na Flandres (França), foi o tema do seminário “O Centenário da Batalha de La Lys e o Dever de Memória” realizado esta segunda-feira, dia 9, na Biblioteca Municipal Dr. António Cartaxo da Fonseca. A tarde dedicada ao episódio bélico da I Guerra Mundial que, um século depois, continua a representar um misto de embaraço e glória para Portugal, terminou com o Hino Nacional.

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Militares, civis, académicos e público em geral marcaram presença na plateia do auditório durante a iniciativa promovida pela Associação de Turismo Militar Português em parceria com o Núcleo de Tomar da Liga dos Combatentes, o Instituto Politécnico de Tomar, a Câmara Municipal de Tomar, o Exército Português e a Entidade Regional de Turismo do Centro de Portugal.

A sessão de abertura juntou os responsáveis das entidades sediadas no concelho de Tomar, nomeadamente a presidente da Câmara Municipal, Anabela Freitas, o vice-presidente do Instituto Politécnico de Tomar (IPT), João Corado, o presidente da Associação de Turismo Militar Português (ATMP), Álvaro Covões, e o presidente do Núcleo de Tomar da Liga dos Combatentes (NTLC), Manuel Carlos Cosme da Silva.

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Sessão de abertura e o final, em que se cantou o Hino Nacional. Fotos: mediotejo.net

O último acabaria por se manter na mesa, na qualidade de moderador, depois do momento inicial que ficou marcado pelo anúncio de que o Monumento aos Mortos da Grande Guerra será relocalizado para ter maior visibilidade. A escultura da autoria do escultor Henrique Moreira, inaugurada em 1931 na Várzea Grande recebeu, na manhã desta segunda-feira, uma cerimónia organizada pelo NTLC.

A tarde do dia em que se assinalou o Centenário da Batalha de La Lys ficou reservada para o seminário. Os dois primeiros oradores foram Luiz Graça, Professor da Universidade Católica, e o Coronel Luís Sodré de Albuquerque, diretor do Museu Militar de Lisboa, que falaram sobre as “Causas / Origens da Primeira Grande Guerra: A intervenção de Portugal” e “A Batalha de La Lys na literatura memorial”, respetivamente.

O segundo par de intervenções – realizadas pelo Tenente-General Manuel Marques Cardoso, do Exército Português, e Luís Mota Figueira, diretor do Laboratório de Turismo do IPT – foi moderado por João Pinto Coelho, Secretário-Geral da ATMP. O militar abordou “O Corpo Expedicionário Português e a Batalha de La Lys: A participação do BI / RI 15 na Batalha” e o docente deu a conhecer o seu ensaio “Direito e Dever de Memória na História Militar”.

Os oradores e os moderadores do seminário. Fotos: mediotejo.net

Todos os intervenientes partilharam o palco do auditório com a obra do pintor local Tó Carvalho dedicada ao “Soldado Milhões”. A expressão foi criada para exaltar a resistência dos soldados portugueses que na madrugada de dia 9 de abril de 1918 enfrentaram um ataque feroz integrado na ofensiva “Georgette”, delineada pelo General Ludendorff. Uma vez iniciada a batalha no setor de Ypres, os que sobreviveram regressaram a casa com nome próprio, os que tombaram regressaram como “soldado desconhecido”.

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Os soldados do Corpo Expedicionário Português (CEP), na maioria homens que trocaram as enxadas pelas armas, não tiveram apenas as tropas alemãs como inimigo. Contra a Divisão comandada pelo Marechal Gomes da Costa estavam também a má preparação e o número reduzido de militares, assim como os equipamentos menos avançados e guardados na altura em que esperavam ser rendidos e que ditaram o fim das munições.

Obra do pintor local Tó Carvalho dedicada ao “Soldado Milhões” e público. Fotos: mediotejo.net

Os factos, baseados em dados históricos e testemunhos de sobreviventes, foram apresentados de forma consensual pelos quatro oradores, que fizeram igual referência ao cenário político português da altura, com divisão entre belicistas e anti-belicistas. A intenção de demonstrar um poderio militar inexistente terá sido um erro que nem o “Milagre de Tancos” – como ficaria conhecida a instrução em apenas três meses, sob orientação do General Norton de Matos, secundado pelo General Tamagnini, dos 20.000 militares portugueses enviados para as trincheiras da Flandres – abençoou.

A necessidade de preservar a memória da Batalha de La Lys, independentemente de representar um misto de glória e embaraço para o país, foi apontada não só pelos oradores, mas também pelo presidente da ATMP, com quem tivemos oportunidade de falar. Segundo Álvaro Covões, La Lys foi uma batalha “trágica” e o seminário não foi organizado numa ótica de dia festivo.

Perante a tragédia, afirmou, “temos este dever de memória, de nunca esquecer o sacrifício, principalmente de muitos soldados (…) que foram obrigados a ir à tropa e não se negaram a representar a sua Pátria”. Além disso, importa conhecer e dar a conhecer a História sem deixar de lembrar “as más memórias” pois é com elas que também se “constrói o futuro”, aprendendo com “o que foi feito de bem ou mal no passado”.

Fotos das trincheiras portuguesas e alemãs. Fotos: mediotejo.net

Na ótica do turismo militar, Álvaro Covões afirmou que o episódio bélico deve ser considerado pelo “contributo de todos aqueles da região que participaram”, destacando que são muitas as pessoas que sentem uma ligação pois têm casos, diretos ou indiretos, de antigos combatentes na família. A “figura simbólica do soldado desconhecido” surgida na Batalha de La Lys, a par da participação portuguesa na I Guerra Mundial, também foram salientadas como fatores que podem “gerar fluxos turísticos”.

A ATMP tem organizado várias iniciativas, como o seminário sobre storytelling que teve lugar no Convento de Cristo de Tomar em fevereiro. Na ocasião, focou-se o legado Templário, mas defendeu-se a criação de narrativas apelativas, baseadas em dados históricos, sobre episódios militares, no global, para atrair visitantes e turistas ao Médio Tejo. A Batalha de La Lys faz parte da memória da região e do mundo e são muitas as histórias que podem ser contadas a partir da História, assegurando que o soldado desconhecido não seja esquecido.

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