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Segunda-feira, Novembro 29, 2021

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Ferreira do Zêzere | Samuel Silva: “É no sonho de fazer desenhos e esculturas que projecto a vida”

Apesar de ser natural de Santa Maria dos Olivais (Tomar) Samuel Silva, 28 anos,  é Ferreira do Zêzere que reconhece como terra natal. Teve a oportunidade de fazer uma residência artística entre agosto e dezembro de 2017 no Campus da Odder Hojskole, na Dinamarca, onde acabou por ser colocada uma escultura da sua autoria depois de concorrer e ser seleccionado pela Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere.

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Licenciado em Escultura na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, posteriormente  – e com um curso profissional como técnico de cerâmica criativa no Cencal – trabalhou de noite e de dia para completar a sua escultura na Odder Højskole. O mediotejo.net chegou à fala com o jovem artista ferreirense para saber mais sobre como alcançou este marco e quais são as suas aspirações artísticas.

Escultura de Samuel Silva está no Campus da Odder Hojskole, na Dinamarca Foto: D.R.

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Como descobriu a vocação para as artes?
Quando era pequeno um dos meus passatempos favoritos era desenhar e recordo-me de pensar  “se fizer isto para o resto da vida serei feliz”. Mais tarde, notei que as esculturas prendiam-me o olhar e que tinha gosto em tocar nos objectos para sentir as formas e as texturas. A ideia é ter a escultura/desenho como profissão. É nesse sonho que projecto a vida.

Considera que Portugal está preparado para acolher jovens artistas ou a emigração é sempre o caminho mais fácil?
Só estive emigrado os 5 meses que estive a realizar a escultura na Odder Hojskole na Dinamarca. Voltei em Janeiro e agora estou a pensar nos próximos passos. Não sei se será o caminho mais fácil ou não. Contudo, o que considero importante na ideia de emigração é a experiência boa ou má que a pessoa irá carregar consigo, modelando ou definindo ainda mais a sua ideia de ser e que por consequência afectará as obras que o mesmo fizer.

Como surgiu a possibilidade de ter uma escultura no jardim de uma escola na Dinamarca?
Por sorte, tomei conhecimento que o site da Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere apresentava a oportunidade de fazer uma escultura na Odder Hojskole na Dinamarca. Como tal concorri e fui seleccionado.

Que cuidados teve na concepção desta obra de arte?
Sendo uma escultura site specific tive que ter em conta todo o ambiente. Foquei-me em perceber a relação da escola enquanto instituição e edifício (arquitectura, espaço verde, trajectos, etc), os alunos e os professores. O estudo permitiu-me pensar num conceito que me fizesse sentido para a relação dos elementos que acabei de citar. Depois tive que ter em atenção na escolha da matéria a trabalhar, tento preocupação com o peso, resistência mecânica e resistência à intempérie. Outro factor importante foi a escala, quis que a dimensão das esculturas reunidas fosse semelhante à escala humana, pois isso atribui à escultura um carácter mais humano ao encará-la.

Escultura de Samuel Silva é composta por 4 peças com formas aleatórias, idealizadas à priori mas que foram sendo modificadas por influência de estímulos à medida que eram materializadas Foto: D.R.

Que significado tem esta obra e qual a mensagem que pretende passar com a escultura idealizada?
Espero que tenha vários significados pois é sinal que a escultura tem vida própria. Terá o significado que lhe atribui e o significado de quem a observa e esses significados/percepções não são constantes no tempo. Dando um exemplo, as escultura greco-romanas têm hoje em dia um significado/percepção diferente do que lhe fui atribuído na época. Pois, para mim, um dos pontos da escultura é a relação entre o pensamento/sentimento e a matéria (o objecto), por outras palavras entre a imaginação e o real, e por isso dependendo da pessoa e das épocas o pensamento/sentimento muda, mudando também a percepção que temos pela matéria (objecto). Nesse sentido é que fiz um paralelismo, no meu discurso de inauguração, com a interpretação do poema, consoante a experiência de vida de cada um o poema é interpretado/sentido de diferentes formas.

No caso desta obra em concreto, como foi moldada?
Não gosto muito de falar sobre a minha ideia/conceito pois sinto que isso poderá condicionar o espectador na forma como o mesmo sente a escultura. Portanto, o breve resumo que irei descrever é aquilo que eu sinto e foi um dos conceitos base (estimulo/inspiração) para criar a escultura, contudo a escultura não se resume só a isso. Formalmente a escultura é composta por 4 esculturas com formas aleatórias, formas idealizadas à priori mas que foram sendo modificadas por influência de estímulos à medida que eram materializadas. Elas estão suspensas por cordas e afastadas entre si. A ideia é que os espectadores, em grupo, interajam com as esculturas, agarrando-as e entrelaçando as esculturas umas nas outras a fim de criar uma nova escultura/forma composta pelas 4 esculturas iniciais. Contudo quando o espectador larga as esculturas (nova forma) as cordas outrora entrelaçadas começam a desentrelaçar-se, assim o espectador só tem uns meros segundos para apreciar a nova forma fruto da sua interacção. Devido às formas aleatórias e à maneira como as mesmas estão fixas, quando o espectador agrupá-las, elas irão criar formas sempre diferentes. E essa nova forma irá permanecer no mundo por breves momentos, por isso cabe ao espectador, antes da forma se desfazer, apreciar/captar/memorizar esse momento, essa nova forma, pois não irá surgir outra forma/momento igual.

O que sentiu nesse momento da inauguração?
Não sou muito ligado à importância das inaugurações. E sinceramente não sei o que senti. Talvez o sentimento de missão cumprida. A inauguração foi para mim o ponto de conclusão do meu trabalho, de mostrar a todos que estiveram comigo o que estive a fazer e agradecer às pessoas que me ajudaram em toda esta experiência. Mas os momentos que me despontaram sentimentos foram, após montar a escultura no sitio destinado, sentir uma espécie de êxtase ao ver a primeira forma gerada. Depois da inauguração estive com um amigo a gerar novas formas e fiquei radiante ao ver a satisfação dele, quase em delírio, ao querer gerar mais e mais formas.

Quais os projectos artísticos em que se encontra atualmente envolvido? E os futuros?
Actualmente não estou envolvido em nenhum projecto mas tenho algumas ideias para projectos futuros e estou-me a preparar para tal. Mas não quero estar a revelar os próximos passos do que quero fazer no futuro, pois o futuro é incerto.

Gostaria de ter uma escultura sua em Ferreira do Zêzere, já que foi a partir desse concelho que surgiu a hipótese de participar neste intercâmbio? Que tema escultórico seleccionaria?
Claro que tinha bastante prazer em fazer uma escultura em Ferreira do Zêzere. E, é curioso, pois é algo que tenho vindo a interrogar-me ao logo do tempo: “se eu fizesse uma escultura em Ferreira do Zêzere o que faria?”. Já me ocorreram diferentes ideias desde a primeira vez que essa questão surgiu na minha cabeça. Mas julgo que algo surrealista ou conceptual encaixa bem no perfil de Ferreira do Zêzere.

É jovem, tem sangue de artista. Qual é o seu lema de vida?Tenho vários lemas, para o caso de algum estar errado. Actualmente o lema que mais sinto é “ouvir a vida”. Este lema sem qualquer contexto pode parecer um bocado tresloucado mas é o que mais me está a fazer sentido actualmente.

Aos 12 anos já queria ser jornalista e todo o seu percurso académico foi percorrido com esse objetivo no horizonte. Licenciada em Jornalismo, exerce desde 2005, sempre no jornalismo de proximidade. Mãe de uma menina, assume que tem nas viagens a sua grande paixão. Gosta de aventura e de superar um bom desafio. Em maio de 2018, lançou o seu primeiro livro de ficção intitulado "Singularidades de uma mulher de 40", que marca a sua estreia na escrita literária, sob a chancela da Origami Livros.

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