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Segunda-feira, Dezembro 6, 2021
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Tomar | Planos, um festival de espírito livre que abre horizontes sobre o cinema curto mundial

O Planos – Festival Internacional de Curtas-Metragens de Tomar arrancou na quarta-feira no Cineteatro Paraíso para mostrar 53 filmes até ao próximo domingo, juntando novos filmes e novas nacionalidades a uma edição que se deveria ter realizado em 2020. O programa incide num formato de cinema curto que começa a reunir cada vez mais fãs e curiosos, e que no país já vai estando na mira de realizadores que integram circuitos de festivais, muitos vindos de outros países, e que até produzem trabalhos de propósito para entrarem na competição tomarense. O mediotejo.net foi conhecer quem está por detrás da organização desta mostra de cinema que dá oportunidade de assistir a estreias absolutas, curtas premiadas e obras internacionais num festival com entrada livre e de portas abertas a todos os gostos e idades.

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Encontramo-nos ao final da tarde, em horário pós-laboral, com Paulo Graça, 35 anos, designer gráfico, mas também ilustrador, e nas horas vagas cineasta/realizador. Por motivos profissionais, Pedro Caldeira, 40 anos, editor de vídeo, encontra-se connosco por videoconferência, residindo na capital.

Pertencem ao mesmo grupo de amigos em Tomar, onde todos acabam por se conhecer, mais que não seja de vista ou através do amigo que é amigo em comum.

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Começam a contar-nos a história que fez com que o cinema cruzasse os seus horizontes, e na mesma cronologia surgem dois projetos em paralelo. Recuamos sete anos.

Paulo tinha saído da faculdade, e a paixão pelo cinema levava-o a querer explorar mais sobre esta área. A certa altura, em 2014, surge a oportunidade de produzir o videoclipe da banda tomarense da qual Pedro faz parte, Ashes.

Com a experiência que tinha na altura, “que era praticamente nenhuma”, confessa Paulo, fez o videoclipe e entende que teve algum sucesso na região. O “bichinho” da edição passou para Pedro, que acompanhou o trabalho.

Paulo Graça e Pedro Caldeira durante a produção de uma das primeiras curtas-metragens da produtora Tripé. Foto: Tripé

Troca de impressões e conversa puxa conversa, surgem ideias em catadupa e ambos fazem a sua “escola de cinema” com curtas-metragens como “Viagem” e “Pegões“, esta última escrita por Pedro Caldeira, e ali foram aprendendo por sua conta. “Foi uma experiência interessante para aprendermos sozinhos. Entretanto o Pedro já estudou edição de vídeo e profissionalizou-se nesse campo. Temos uma experiência diferente, fomos aprendendo por nós e um pouco com os outros”, conta Paulo.

Com isto, cria-se um círculo de amigos com gosto pelo cinema, pelas artes, produção e realização, fotografia, representação,… e foram fazendo filmes. Surge a marca “Tripé”, com essas primeiras curtas. Acaba por ser uma produtora, mas à qual não se dedicam a tempo inteiro por terem empregos paralelos, e que funciona em jeito de coletivo de amigos que faz cinema e não só, produzindo outro tipo de trabalhos, como filmes institucionais e publicitários, videoclipes e outros.

É partir daqui que também começam a ganhar confiança na qualidade dos seus trabalhos, e os dois projetos vão ganhando embalo.

Em 2015, participaram no concurso mundial 48H Film Project, em que tiveram de produzir uma curta durante o fim-de-semana com alguns elementos pré-definidos pela organização. Saíram vencedores de Castelo Branco e foram representar não só Castelo Branco como Tomar – por ter sido filmado na cidade e por toda a equipa ser tomarense – em Atlanta (EUA) com “O Arquivo“.

Sabendo do feito, surge um convite do Município de Tomar para que organizassem uma mostra de cinema na cidade, e assim nasceu o Planos – Festival Internacional de Curtas Metragens, com a sua primeira edição em 2016.

Paulo e Pedro durante a última edição do Planos, em 2019. Foto: Paulo Martinho

O Planos, dizem, sempre teve inerente a intenção de ser um festival internacional, e aparece com intuito de mostrar “que o cinema em formato curto também existe e tem tanto potencial e interesse como as longas, e acaba por ser mais variado”.

“É uma maneira dos jovens realizadores mostrarem o seu trabalho, foge ao monopólio dos Estados Unidos porque acabamos por ter uma variedade muito maior no que toca a países que participam”, explica Paulo, dando conta do arranque em 2016, numa edição que foi um sucesso.

Este ano, devido ao adiamento que a pandemia trouxe em relação à edição de 2020, juntam-se duas edições numa, e a mostra aumenta em termos de exibições, atividades e dias da iniciativa que se estende de 17 a 21 de novembro, de quarta-feira a domingo.

“Alargámos a seleção, para que pudessem entrar filmes que tivessem sido produzidos entre 2020 e 2021, que não poderiam ter concorrido antes, e isto é quase como duas seleções oficiais juntas, 53 filmes ao longo de cinco dias no festival”, que integram três sessões especiais que este ano acontecerão.

Uma das partes do programa do festival é o Planinhos, alusivo a cinema infantil, vertente que sentiram necessidade de introduzir na segunda edição do Planos.

“Quando surgiu o festival julgo que não fazíamos a mínima ideia de como organizar e estávamos a descobrir. E de ano para ano tem sempre existido uma avaliação do que corre bem e de como pode melhorar e o que podemos acrescentar. A certa altura, não tínhamos sessões de animação e surge a necessidade de os pais poderem trazer os filhos consigo, dando também continuidade à parceria com o Cineclube de Tomar. O Planinhos mudou para uma sexta-feira, e já se reflete em termos de público, porque temos adesão direta das escolas e isso torna o festival mais interessante”, explica Paulo Graça.

Prémios atribuídos pelo Festival Planos, que inclui sessão competitiva na exibição dos filmes. Foto: Paulo Martinho

No caso do coletivo tomarense, nem todos trabalham na área do cinema, existindo pessoas que fizeram teatro amador, que vêm da área da música, ou que simplesmente pretendem fazer algo criativo e diferente. Havendo também pessoas já mais vocacionadas para o cinema de curta-metragem por que já sabem que é isso que têm de fazer para mostrar o seu trabalho.

Quanto ao público, “vem crescendo”, na opinião de Pedro Caldeira, e é muito fomentado online porque mesmo instintivamente as pessoas já vão a uma plataforma como o YouTube e assistem a curtas-metragens. “Só falta transportar para a sala de cinema. Felizmente há festivais de cinema que têm uma parte dedicada às curtas-metragens. E os festivais como o Planos têm vindo a crescer e têm vindo a surgir mais, o que é bom. Nos dias de hoje faz muito sentido, as pessoas irem a uma sala de cinema e em vez de ficarem duas horas para um filme, ficarem uma hora e tal e verem cinco ou seis filmes pequenos”, argumenta.

Um entrave ao crescimento deste segmento das curtas prende-se com o facto de não haver muita exibição em sala, segundo Paulo Graça, e a única forma que os realizadores acabam por ter de expor os seus trabalhos é através destes festivais. “O Planos acaba por ser um festival inserido nesse percurso e felizmente já é reconhecido dentro do meio, e cada vez somos mais conhecidos, não só a nível nacional, como também internacional”, admite.

O festival sempre teve uma componente internacional muito forte, e em todas as edições vai contando com estreias em Tomar. “Lembro-me que estreámos uma curta indiana que foi bastante bem recebida, foi estreia nacional e depois entrou num circuito de festivais e ganhou bastantes prémios”, recorda.

“O meio em Portugal acaba por não ser muito grande, o que torna fácil conhecermos os realizadores. Há relação de proximidade com outros festivais, onde temos parceria com o Leiria Film Fest, e temos sempre uma troca de filmes. Mostramos os vencedores de cada edição em Tomar e em Leiria, respetivamente, em cada um dos festivais”, explica.

Advertência para o que dita o senso comum, que poderá indiciar que este tipo de formato é algo mais restrito, mas o objetivo é, precisamente, não o ser.

“Muitas vezes as pessoas ficam com a ideia de que o cinema de curtas é para um grupo mais inteletual, mais artístico, e que não se enquadra propriamente no cinema comercial. O que é facto é que não sinto que seja uma verdade neste momento. O Planos é um festival comercial, acessível, com todo o tipo de cinema e acaba por ser um festival feito de várias pessoas para toda a gente. É o que pretendemos oferecer a Tomar, uma seleção eclética, que se adapta a todos e qualquer pessoa que lá vá acaba por encontrar algo que realmente goste, dentro do seu estilo”, frisa Paulo Graça.

O festival tem como casa o Cine-Teatro Paraíso, equipamento nobre da cultura tomarense no centro histórico da cidade e recentemente renovado. Foto: Paulo Martinho

Quanto ao futuro e à inspiração que este festival pode trazer junto das novas gerações, os organizadores esperam que o Planos possam estimular a entrada de jovens nesta área “que se diz muito difícil, mas que não é”.

É costume acontecer, não só em Tomar, mas também quando decorrem apresentações de filmes da Tripé noutros festivais “há sempre curiosidade inerente às pessoas mais jovens de querer perguntar como as coisas se fazem e como acontece, principalmente os que mais tarde tencionam estudar cinema”.

“O mundo das curtas começa muitas vezes com realizadores mais jovens, que querem mostrar o seu trabalho e é começar com um formato porque nunca se parte para uma longa metragem. Esta é a porta de entrada e o lançamento dos mais jovens no mundo do cinema”, releva Paulo Graça.

A curta-metragem no que toca a recursos tem ganho muitos adeptos e o formato curto é emergente e muitas vezes fora-da-caixa, até porque em comparação com a longa metragem pode representar “mil e uma vantagens, sendo às vezes um centésimo do trabalho” de um filme longo, quer em termos de tempo despendido, quer em termos financeiros.

“Já tivemos curtas muito boas, e relativamente simples. Às vezes é uma família a jantar, à mesa, e há uma situação. Em termos logísticos, não é complicado. O que é complicado é fazer. A ideia tem que ser muito bem trabalhada e explorada, ser posta cá para fora”, remata Pedro, reconhecendo que pode demorar longos meses e até anos a escrita de um bom argumento e os ajustes de uma produção, sem nunca ter certezas sobre se o produto final sairá premiado.

Foto: Leiria Film Fest

No caso da Tripé, a mais recente curta “Dessa Água Não Beberei“, da autoria de Pedro e Paulo, vencedora do Prémio do Público e o de Melhor-Curta Metragem Regional na edição de 2021 do Leiria Film Fest, demorou cerca de dois anos a ser produzida.

No que toca à continuidade do festival, por certo continuará a crescer, e no futuro já está em cima da mesa introduzir uma vertente prática e pedagógica, com dinamização de workshops de edição de vídeo, escrita, filmagens.

“Temos tido sorte com o Planos e com os filmes que recebemos, porque são os filmes que fazem o festival”, nota Paulo, referindo que a seleção é muito cuidada e traz filmes que estarão em estreia absoluta em Portugal. Esse processo passa pelo filtro de Pedro e Paulo, e tudo começa numa plataforma online, onde são feitas candidaturas ao longo de um mês e meio.

Os organizadores têm como base a tentativa de “variar em estilos, em nacionalidades, que permite cruzamento de culturas em Tomar”, sendo que os pré-requisitos estão definidos: que os filmes não excedam 15 minutos de duração, o festival resume-se para já em curtas-metragens de ficção – mas poderá no futuro ascender para a animação e documentário. Não são aceites trabalhos de cinema experimental.

Depois da triagem feita por Pedro Caldeira e Paulo Graça – sendo que num ano atípico o festival já chegou a receber milhares de participações e tiveram de pedir ajuda a alguns amigos para selecionar e validar candidatos – a média deste ano rondou as 500 candidaturas de curtas-metragens. Mas a seleção oficial é composta por apenas 36.

Cine-Teatro Paraíso, em Tomar. Foto: mediotejo.net

A quinta edição arrancou na quarta-feira, dia 17, para durar cinco dias. Quanto à edição de 2021 do Planos, as pessoas “podem esperar emocionarem-se, rir, serem surpreendidas com pequenos filmes, alguns com dois minutos, numa cidade muito acolhedora que é Tomar e numa sala muito bonita que é Cine-Teatro Paraíso. A entrada ainda por cima é livre”, avisa de antemão Pedro Caldeira, com expectativas em alta.

Por seu turno, Paulo Graça deixa o mote para que as pessoas se sentem em frente ao grande ecrã do cineteatro tomarense e se preparem para assistir a uma seleção oficial “bastante eclética e adaptada para todos, com cada sessão estudada ao pormenor em termos de géneros e tempos, e é uma oportunidade única de ver filmes que não conseguem ver em praticamente mais lado nenhum, a não ser em circuito de festivais”.

“Muitos dos filmes vão estar em estreia em Portugal, alguns que passaram por festivais de renome internacional. Vamos ter filmes que fizeram parte da seleção oficial do Festival de Cannes, Berlinale, Sundance, um vencedor do Prémio Sophia, até filmes que foram gravados em Tomar e pela primeira vez vão estar numa seleção do Planos. É uma oportunidade de ver algo muito variado e que, sem dúvida, deixarão memórias a quem for assistir”, conclui.

O Cine-Teatro Paraíso tem cerca de 400 lugares. O sonho passa por, um dia, conseguir encher a sala.

ESPREITE A PROGRAMAÇÃO DA 5ª EDIÇÃO DO PLANOS:

Tomar | Festival ‘Planos’ coloca em exibição 53 curtas-metragens de mais 25 países

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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