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Quinta-feira, Outubro 21, 2021

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Tomar | Ser cego não impede Paulo Santos de ser advogado há 17 anos

Paulo Santos tem 49 anos, é advogado em Tomar e Ferreira do Zêzere desde há 17 anos e exerce esta atividade apesar de ser invisual. Encara este obstáculo com naturalidade, já habituado a contornar as dificuldades de quem não consegue ver. “O problema não é ser invisual, o problema é estar numa terra pequena onde há pouco trabalho”, lamenta o jurista.

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Reconhece que as profissões liberais têm altos e baixos mas não desanima. A reabertura do tribunal de Ferreira do Zêzere teve pouco impacto na sua atividade até porque são poucos os processos judiciais neste concelho. E por isso, Paulo Santos procura “ir buscar processos a outras localidades”. No dia em que o entrevistámos estava a acabar de chegar de Torres Novas onde participou num julgamento. Para se deslocar de Tomar, cidade onde reside, para Torres Novas, foi no automóvel do seu cliente. Noutros casos é a sua funcionária que o transporta para outros tribunais, como Santarém, por exemplo.

Paulo cegou aos 11 anos devido a um glaucoma. Até aí, via normalmente. Nessa altura frequentou durante dois anos um colégio para cegos em Coimbra. Regressou depois a Tomar e ali estudou, no “Liceu”, até ao 12° ano numa altura em que não havia computadores e eram poucos os livros em braile. Escrevia os seus apontamentos numa máquina de braile.

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Ingressou na Faculdade de Direito em Coimbra onde gravava as aulas e passava depois para a máquina de braile. Mas alguns professores, poucos, não autorizavam que gravasse as aulas, lamenta Paulo Santos que, apesar destas dificuldades, concluiu o curso em 1996.

Seguiu-se o estágio também em Coimbra, após o que iniciou a sua atividade como advogado, primeiro em Coimbra, depois em Tomar e Ferreira do Zêzere.

A evolução tecnológica tem sido preciosa para que Paulo Santos possa exercer advocacia sem limitações. Desde o virar do século que os equipamentos informáticos para cegos têm evoluído e hoje em dia o advogado utiliza os computadores, o telemóvel e a internet sem problemas. Faz questão de agradecer ao Instituto de Emprego e Formação Profissional, organismo que oferece esses equipamentos especiais e que custam milhares de euros.

Nos processos judiciais tem mais trabalho do que um advogado com visão normal porque tem de converter textos e som para braile e vice-versa.

Apesar de tudo não se queixa e diz com orgulho que já teve até agora 800 a 900 processos judiciais. Como jurista não se limita à barra dos tribunais. Também desenvolve trabalhos nas áreas do registo e notariado.

Um desportista eclético

É ao fim do dia e ao fim de semana que Paulo Santos se dedica à atividade desportiva de que tanto gosta. Procura duas a três vezes por semana frequentar o ginásio com o objetivo da manutenção física.

Para praticar canoagem Paulo utiliza um kayak com dois lugares (Foto: DR)

Além disso pratica canoagem no clube desportivo da Nabância, modalidade para a qual precisa da colaboração de outro canoísta no kayak k2. Passado o inverno conta retomar a atividade este mês de março. “Custa é começar”, reconhece a sorrir.
Como atleta federado já participou em várias provas nacionais como o campeonato nacional de 1000 metros e o campeonato regional.

O advogado invisual a participar na prova de atletismo Três Léguas do Nabão (Foto: DR)

Participou também duas vezes na Meia Maratona da Nazaré e nas Três Léguas do Nabão, provas onde foi acompanhado por um guia.
Apaixonado pelo futebol (é benfiquista) fez parte de uma equipa de cegos quando estava em Coimbra. Nas partidas de futebol 5, só o guarda-redes vê. Os restantes jogadores, como Paulo, conseguem acertar na bola porque esta tem uns guizos e é através do som que conseguem saber onde está o esférico.

O problema dos buracos nos passeios

Quando perguntamos a Paulo Santos quais as maiores dificuldades que sente no dia a dia aponta em primeiro lugar “a miséria dos passeios que temos em Tomar”. Para quem não vê, os inúmeros obstáculos no passeios e os imprevistos, como os buracos, são um perigo. “Uma pessoa está sempre a tropeçar”, lamenta o nosso interlocutor. Refere os buracos nos passeios, os altos e baixos do pavimento, as árvores mal posicionadas, bem como os sinais de trânsito, candeeiros e outros obstáculos que diariamente tem de contornar.

“Basta uma pessoa distrair-se um bocado e põe logo o pé no buraco, com o risco de sofrer entorses”, critica Paulo Santos.

Como “vê” a festa dos Tabuleiros

Mas a falta de visão, que afeta Paulo Santos desde a infância, não impede que sinta o ambiente da festa dos Tabuleiros e “veja” o cortejo com alguém ao seu lado a explicar-lhe qual a freguesia que vai a passar.

Paulo gosta de “ver” e sentir a Festa dos Tabuleiros (Foto: DR)

“É evidente que quem vê tem outra perspetiva, mas eu sei como é que é feito um tabuleiro”, afirma Paulo Santos explicando de seguida os diferentes componentes do Tabuleiro. Só gosta de saber qual a freguesia que vai a desfilar e para tal precisa de ajuda.

Não se sente diferente do restante público e habitualmente assiste ao cortejo. Em festas anteriores chegou a colaborar na ornamentação das ruas.

“O que acho giro é o convívio que a festa proporciona. Se calhar noutras alturas as pessoas não se falam e a festa é uma forma das pessoas conviverem”, afirma Paulo Santos que realça a importância do convívio entre os moradores das ruas no trabalho de ornamentação.

“Eu gosto da Festa dos Tabuleiros. É uma festa da tradição da cidade, mexe comigo como mexe com as outras pessoas. E as pessoas de fora adoram isto”, conclui o advogado invisual.

*Artigo publicado em março de 2017, republicado a 28 de dezembro

Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

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