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Terça-feira, Novembro 30, 2021

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Tomar | Os tempos únicos da “Rádio Jovem” revividos 30 anos depois da ‘pirataria’ (c/fotos e vídeo)

“Peça que passa”, “Refúgio da Tarde”, “Pedras Rolantes”, “Blue Jeans” ou “Passageiro da Noite” eram os nomes de alguns dos programas que passavam na Rádio Jovem, uma das pioneiras das rádios piratas em Tomar, cidade que chegou a ter  meia dúzia de rádios em simultâneo nos idos anos 80. Sintonizada em 102.00 FM MHZ, a emissão era feita a partir de um pequeno anexo em Palhavã onde se podiam encontrar réstia de cebola no estúdio. Esteve no ar entre 1978 e 1988, ano que marcou o fim das rádios piratas em Portugal. Trinta anos depois, os radialistas juntaram-se e reviveram os tempos das ‘piratarias’ radiofónicas.

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António Silva, mais conhecido como Tó da Rádio, foi o fundador da Rádio Jovem em Tomar. Na foto, à esquerda e em baixo: nos primeiros tempos da Rádio e à direita na atualidade Fotos: mediotejo.net e D.R.

A história da fundação da “Rádio Jovem” começa com um “culpado”: o irmão mais velho de António Silva, mais conhecido como Tó da Rádio, que o proibia de mexer na aparelhagem. Um dia, desabafou a sua situação com uns técnicos que andavam por ali na rua de Palhavã a arranjar televisões e os mesmos, perante tal desabafo, disseram que lhe conseguiam arranjar um pequeno equipamento para que levar o sinal da aparelhagem para a sua oficina.

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Foi assim que este jovem, que sempre teve uma grande aptidão para a electrónica e que com 14/15 anos viria a tirar um curso por correspondência fundou a “Rádio Juvenil” que viria a ser, três ou quatro anos mais tarde, rebaptizada de “Rádio Jovem”, um nome considerando com mais impacto.

“Depois de ter instalado o tal aparelho, o meu colega da casa em frente já apanhava esse sinal no rádio. Quando o sinal começou a chegar à cidade a malta mais jovem que se juntou a mim sugeriu que mudasse o nome para Rádio Jovem porque o outro era muito infantil”, conta António Silva, que ainda hoje tem a inscrição “Perigo Alta Tensão” na porta da sua oficina.

A grelha da Rádio Jovem rascunhada com apontamentos, um dos desenhos publicitários e o cartão de um dos locutores Fotos: D.R.

A Rádio Jovem esteve em funcionamento entre 1978 a 1988 (o processo de legalização obrigou-as a calar os microfones a a 24 de Dezembro deste ano), sendo que não raras as vezes o emissor interferia com as televisões das redondezas o que chegou a gerar algumas zangas com vizinhos e chamadas para a polícia. “Estava ligado ao rádio amadorismo e quando fazíamos transmissão as televisões ficavam com muitas interferências especialmente à hora da telenovela. Tive muitos problemas com os vizinhos apesar do sinal, devido a uma artimanha que arranjámos, dar que o emissor estava montado na freguesia da Madalena”, disse.

A equipa, que chegava através do passa palavra, trabalhava toda por amor à camisola e era composta por “jovens” com idade compreendidas entre 14 e os 60 anos. “Muitos deles nem os conhecia, apenas de nome. Vinham a pé, com os discos debaixo do braço fazer o programa e depois iam-se embora”, conta o Tó da Rádio.

Alguns dos artefactos da Rádio Jovem, entre CD’S e Discos de Vinil Foto: mediotejo.net

Trinta anos depois, os colaboradores da “Rádio Jovem”, reencontraram-se num convívio na sexta-feira, 27 de outubro. Depois do jantar – enriquecido com um desfile de depoimentos na primeira pessoa e também com muitas mensagens em vídeo por parte de quem não conseguiu estar presente –  a festa prolongou-se na discoteca Rio Bar com música dos anos 80 e 90. Um evento que serviu, sobretudo, para recordar tempos únicos na vida de todos os que passaram pela ‘pirataria’ da rádio tomarense. São muitos nomes, muitos rostos emocionados muitas palavras de agradecimento pela experiência que tiveram graças a um jovem chamado Tó da Rádio.

O grupo de colaboradores da Rádio Jovem que se juntou 30 anos depois Foto: mediotejo.net

Um reencontro que já estava para acontecer há cinco anos e que o mediotejo.net presenciou entre alguns rostos emocionados e a exclamação: “há quanto tempo”. Por entre os convivas, destacava-se a voz grave de Rui Alberto Sequeira, jornalista da Antena Minho, que se deslocou propositadamente de Braga a Tomar neste dia.

“Tornei-me profissional de Rádio começando na Rádio Jovem. As memórias são as melhores possíveis. Serviu, de alguma forma, numa altura em que não existiam muitas saídas profissionais e a comunicação social estava no grau zero, para descobrir alguns talentos dentro da área não só da animação como de informação”, disse ao mediotejo.net.

“Eram tempos únicos, de muita liberdade criativa, sem grandes constrangimentos em que todas as ideias eram bem acolhidas e que todos assumiam a responsabilidade de estarem à hora para fazerem os seus programas”, acrescenta.

Paulo Pereira, Rui Sequeira, Fernando Rodrigues e José Gaio (primeiro jornalista da Rádio Jovem) passaram por esta rádio pirata Foto: mediotejo.net

O antigo animador da Rádio Jovem, Fernando Rodrigues trouxe, neste dia de festa, algumas memórias com ele, entre discos de vinil e o solo de bateria com o qual abria sempre o seu programa “No Deserto da música”, dedicado a sons mais alternativos.

“Quando a Rádio começou, ainda com as réstias de cebola no estúdio, havia muito vinil, muito peso às costas na mochila. Quando se partia uma agulha dividíamos por todos. Era qualquer coisa…”, refere emocionado. Foi para a Rádio Jovem através de amigos. “Mesmo quem não sonhava com rádio acabou por ir lá ter e o bichinho ficou”, refere. Histórias engraçadas tem muitas, entre a qual aquela noite em que decidiram fazer uma operação non-stop, ou seja, uma emissão sem intervalos.

Também Paulo Pereira, atual colaborador da Rádio Hertz, esteve ligado à Rádio Jovem para onde foi com 17 anos por intermédio de António Antunes, conhecido por Bê-À.  “Tinha um programa de autor com música ao domingo, a “Magia do Som”. Fiz apenas os últimos seis meses até acabar a pirataria mas dali para a frente continuei sempre na rádio. Primeiro na Rádio Cidade de Tomar, depois na Torres Novas FM e agora na Hertz”, conta, recordando os tempos da rádio na pirataria, ou seja, o período anterior à legalização das rádios locais, ditas de ‘piratas’.

“A Rádio Jovem era muito sui generis porque, em termos de programação, tinha um pouco de tudo. Desde música, informação, reportagens desportivas no exterior… A Rádio Jovem teve inclusive dois destaques no Blitz. O que destaco, realmente, são as pessoas algumas das quais ainda ligadas à comunicação social”, atesta.

Já José Gaio, jornalista, foi o primeiro a fazer informação na região de Tomar, precisamente através da Rádio Jovem. Por seu turno, José Glória referiu que era “o mau da fita” porque, sendo o primeiro ali a trabalhar a nível comercial “ninguém queria os seus programas a ser interrompidos com publicidade”.

António Silva, fundador da Rádio Jovem continua ligado ao mundo da rádio até aos dias de hoje Foto: mediotejo.net

Já António Silva recorda em especial os tempos ferozes da concorrência nomeadamente quando apareceu a Rádio Hertz, com um grande poderio empresarial por detrás. “A concorrência despoleta vários interesses e temos sempre que fazer melhor. Quando apareceu a Rádio Hertz quase que havia conflito ou pancadaria quando nos cruzávamos nos exteriores porque, devido aos seus avançados equipamentos muitas vezes sobrepunham-se à nossa frequência para nos calar e os nossos ouvintes queixavam-se porque queriam era ouvir a nossa emisssão”, recorda António Silva.

Alguns dos rostos femininos que passaram pela Rádio Jovem Foto: mediotejo.net

Neste momento, e graças às novas tecnologias e também ao talento inato do Tó da Rádio para a electrónica, a Rádio Jovem pode relembrada ser ouvida aqui, através de gravações com excertos de programas que passaram durante os anos em que se manteve no ar. “Depois de 30 e mais anos, estivemos juntos a falar daquilo que mais gostávamos de fazer: difundir música, falar com gente que nem conhecíamos, ir ao encontro de eventos e torná-los públicos, no fundo, dar voz a quem não a tinha. Era uma Rádio muito à frente”, referiu António Silva, visivelmente feliz.

“Fiquei bastante satisfeito. Muitos nem se conheciam (só de nome) e todos saíram daqui felizes e com vontade de repetir. Isso é um claro sinal que valeu a pena este encontro ou reencontro”, disse.

Veja aqui o vídeo desta festa, numa produção da Rádio Jovem:

festa radio jovem em Tomar. 30 anos depois

Publicado por António Silva em Sexta-feira, 27 de Outubro de 2017

Aos 12 anos já queria ser jornalista e todo o seu percurso académico foi percorrido com esse objetivo no horizonte. Licenciada em Jornalismo, exerce desde 2005, sempre no jornalismo de proximidade. Mãe de uma menina, assume que tem nas viagens a sua grande paixão. Gosta de aventura e de superar um bom desafio. Em maio de 2018, lançou o seu primeiro livro de ficção intitulado "Singularidades de uma mulher de 40", que marca a sua estreia na escrita literária, sob a chancela da Origami Livros.

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