Quinta-feira, Fevereiro 25, 2021
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Tomar | Os lugares e o tempo de Sophia pela biografia de Isabel Nery

Sophia de Mello Breyner Andresen faria 100 anos no próximo dia 6 de novembro. Quis o tempo que partisse 15 anos antes, deixando como legado contos infantis, ensaios, discursos, teatro, traduções, valores políticos e, claro, a poesia. Isabel Nery conhece estes e outros pormenores da sua vida e deu-os a conhecer esta segunda-feira, dia 27, durante a apresentação da primeira biografia da mulher que conquistou o Prémio Camões e um lugar no Panteão Nacional.

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A obra “Sophia de Mello Breyner Andresen”, publicada em maio deste ano e que já vai a caminho da terceira edição, foi apresentada ao público pela autora, Isabel Nery, na Biblioteca Municipal Dr. António Cartaxo da Fonseca. O mediotejo.net conversou horas antes com a jornalista, ensaísta e escritora para descobrir o que a motivou a escrever sobre um dos grandes nomes da literatura portuguesa, cujos versos surgiram publicados pela primeira vez nos Cadernos de Poesia, em 1940.

Os cinco filhos não foram as únicas crianças a ouvir os seus contos infantis e são várias as gerações que cresceram com as memórias d’“A Menina do Mar”. Esse mar que une continentes e os lugares que foram marcando a escrita de Sophia de Mello Breyner Andresen. Os mesmo lugares que Isabel Nery visitou depois de aceitar o convite da editora A Esfera dos Livros e iniciar o processo de escrita que durou cerca de três anos.

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Apresentação da biografia na bibolioteca municipal de Tomar. Foto: CM Tomar

As formas de apresentar a vida de Sophia de Mello Breyner Andresen podiam ter sido muitas, mas a autora optou por uma reportagem biográfica, conciliando a sua experiência profissional e a ligação da biografada aos lugares que “eram muito importantes para a Sophia”. Da Grécia à casa na Travessa das Mónicas, em Lisboa, passando pela ilha de Föhr, de onde o avô era natural, e Lagos.

Sophia era “uma poeta do real” e as suas palavras não se circunscreviam ao cenário envolvente, nem eram limitadas pelo que o olhar captava. Segundo a autora, a relação de Sophia com os lugares era muito maior, “não tinha só a ver com o aspeto das coisas, era o que estava implícito”. A clareza da linguagem tornava a mensagem acessível a todos sem se tornar ambígua ou desprovida de conteúdo.

Capa do livro. Foto: DR

Para Isabel Nery fazer a viagem por esses lugares que formam o mundo próprio de Sophia foi a “parte que deu maior prazer na biografia”. Uns ficaram marcados pela pesquisa, outros pelos testemunhos que recolheu e a eles juntaram-se as entrevistas a pessoas que conviveram com a poetisa que não era indiferente ao que se passava à sua volta, nomeadamente a nível político.

A importância de contextualizar as palavras de Sophia foi outro objetivo de Isabel Nery e a biografia não deixa de ser também uma viagem pelo tempo e a História do país num período que Isabel Nery considera “muito interessante”. É possível que se leia Sophia de outra forma depois de tomar conhecimento do estatuto social com que nasceu e colocou em risco ao optar por uma intervenção cívica ativa.

Enquanto voz denunciadora da política de Salazar, por exemplo, fundou e integrou a Comissão Nacional de Apoio aos Presos Políticos e, apesar de católica, subscreveu a “Carta dos 101 Católicos”, criticando a guerra colonial e o apoio da Igreja Católica ao regime. Pela sua casa passaram políticos e intelectuais e um ano após a Revolução dos Cravos, em 1975, foi eleita para a Assembleia Constituinte pelo Partido Socialista.

Sophia na Assembleia Constituinte. Foto: Inácio Ludgero

Quanto à poesia, Sophia conheceu-a antes de saber escrever com as leituras que ouvia por casa em criança. Hoje em dia, outras crianças têm contacto com as sua escrita ao longo do percurso escolar e a mensagem, destaca Isabel Nery, “mantém-se atual”, metendo os mais jovens “a pensar sobre temas interessantes” sem se enfadarem. Sophia, acrescenta, “pode acompanhar-nos toda a vida”.

Etapa após etapa, começando por um mundo de fantasia em que não faltam seres imaginários até à poesia mais intensa. Uma escrita “intergeracional” da pessoa sobre quem Isabel Nery fala com conhecimento de causa. É quase como se de uma amiga se tratasse depois das muitas viagens em que esta a “guiou” pelo seu tempo e os seus lugares enquanto a sua história ganhava forma na biografia.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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