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Quinta-feira, Agosto 5, 2021

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Tomar | O elixir da juventude por João Antunes, 96 anos

“Estou velho!/Dói-me o joelho/Dói-me parte do antebraço/Dói-me a parte interna/De uma perna/E parte amiga/Da barriga/Que fadiga”. A letra da conhecida música do compositor Sérgio Godinho e que versa sobre o elixir da eterna juventude não se aplica, de todo, aos 96 anos de João Antunes.

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É muito comum encontrá-lo a passear pela cidade de Tomar, onde vive, sempre de fato e gravata. Quase a atravessar um século de vida, João Antunes dispensa a bengala e traz no sorriso o rosto de quem vive sem ralações. Aliás, porque a curiosidade também desgasta o espírito, revelamos desde já qual o segredo do elixir da juventude deste “jovem” nonagenário: a tolerância para com os outros, aliada a virar costas a todos os maus pensamentos. “Temos que aprender a tolerar. Porque senão alteramos o corpo todo. Tolerar não é aceitar. Tolerar é enfrentar as adversidades com bondade. O aceitar vem depois”, atesta João Antunes para quem a melhor alegria passa por poder ajudar os outros.

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É comum encontrar João Antunes a passear pela cidade, sempre de fato e gravata Foto: mediotejo.net

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João Antunes nasceu na freguesia de São Pedro a 26 de junho de 1920. Frequenta a Universidade Sénior de Tomar mas, desengane-se, não é aluno, é professor. Todas as quartas-feiras entre as 14h e as 15 horas, dá aulas sobre a Saúde e o Espírito nas instalações do antigo Colégio Nun’Álvares Pereira, para onde diz que entrou devido à curiosidade em descobrir o que seria esta coisa da “terceira idade”. É ali que ensina aos outros como é que consegue, depois de se atravessar quase um século de vida, um corpo são em mente sã, sem dispensar o telemóvel de última geração que atende, com muita agilidade ali mesmo, à nossa frente.

Durante a sua vida ativa, João Antunes, conta que dedicou-se ao comércio de ouro e relojoaria. Um primeiro casamento falhado – “a maior miséria da minha vida”, confessa –  levou-o a emigrar para o Congo Belga, onde continuou a trabalhar como prestamista. Viria a regressar a Portugal poucos dias depois do 25 de Abril de 1974, mais concretamente a Tomar, cidade onde ainda hoje reside.  “Era inexperiente com  mulheres, fecharam-me os olhos e, casaram-me com ela. Estive dois anos até que, já tinha três filhos, entendi-me com a família dela e fui à minha vida, para África”, recorda. Nunca mais quis viver com mulher nenhuma embora não se tenha negado a namorar sempre que era preciso.

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Ser tolerante e virar as costas aos maus pensamentos é sinónimo de uma vida longa e saudável, garante o tomarense Foto: mediotejo.net

Com uma memória prodigiosa para a idade, João Antunes desfia lembranças. Como aquela vez em que foi acometido por uma doença grave, uma colite, aos 50 anos e que o levou ao contacto com dois professores da Faculdade de Medicina que lhe falaram da prática do ioga. Foi tratado por um padre dominicano, Pierre Duror, que diz o ter tratado do espírito através do ioga. “Desde então e até agora nunca mais tive problemas de saúde. Os medicamentos são para quem acha que precisa de medicamentos”, refere.

Perguntámos, afinal, qual é o segredo da fonte da juventude. A resposta vem pronta: “Virar as costas a tudo o que está colorido de mal”. Por outras palavras, não ter ralações. Outro dos seus segredos passa por não tomar fármacos de espécie alguma. “Só as pessoas doentes é que tomam medicamentos. O corpo é um instrumento da natureza que tem que ser estimado”, atesta, acrescentando que esta selecção começa logo nos pensamentos que uma pessoa tem.

No dia-a-dia, João Antunes conta com a ajuda de uma senhora que lhe trata das lides domésticas. Evita a comida industrial  e bebe, sobretudo, água da torneira. “Como aquilo que preciso e não aquilo que quero. Gosto de tudo o que são alimentos da horta e das árvores. Não quero nada com carnes vermelhas. Só brancas. Dantes ainda ia nessas coisas e por isso é que ficava doente”, exemplifica. Ao almoço bebe à volta de meio decilitro de vinho tinto. Bebidas brancas e com álcool nem pensar. Café “da panela” é o melhor porque leva dentro cascas de laranja e outros vegetais.

“Foge” do fumo do tabaco e de conversas que não lhe interessam alimentar o espírito. Nos dias que correm garante que ainda pratica ioga, dando esse conselho aos muitos que o procuram quando se queixam das mazelas do corpo. Diz que, graças ao ioga, as pessoas podem impor a si mesmas uma alimentação adequada, fazendo exercícios para activar o corpo e até reaprendem a respirar, numa atitude de regeneração contínua.

Os tempos de agora são muito diferentes dos da sua juventude em quase tudo mas é da opinião “que tudo está muito mal” porque as pessoas vivem em função da cabeça e não do coração.  Para João Antunes, devia-se arranjar um método de educação social – tanto para as crianças como para os adultos – diferente da sociedade de consumo que molda a maneira de ser dos humanos a partir do momento em que entram na escola primária. Só até aos 6 anos é que estamos no nosso estado puro, vivendo quase que numa ingenuidade sã mas igualmente preciosa. A partir desse momento, degeneramos e vivemos à semelhança dos padrões, considera. “A vida carismática não necessita de leis ou polícia. Só precisa que a pessoa se deixe viver à luz do seu coração, do que a consciência consciente lhe diz”, atesta.

Diz que a morte não o assusta. “É normal porque tudo o que nasce tem que morrer”, responde com um encolher de ombros. E quando lhe perguntamos o que é que ainda lhe falta fazer, a quatro anos de completar um século de vida, a resposta é desconcertante: “Falta-me fazer tudo. E, sobretudo, fazer bem a tudo o que está à minha volta”.

Aos 12 anos já queria ser jornalista e todo o seu percurso académico foi percorrido com esse objetivo no horizonte. Licenciada em Jornalismo, exerce desde 2005, sempre no jornalismo de proximidade. Mãe de uma menina, assume que tem nas viagens a sua grande paixão. Gosta de aventura e de superar um bom desafio. Em maio de 2018, lançou o seu primeiro livro de ficção intitulado "Singularidades de uma mulher de 40", que marca a sua estreia na escrita literária, sob a chancela da Origami Livros.

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