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Segunda-feira, Setembro 20, 2021

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Tomar: O Bons Sons por quem vive a aldeia todo o ano (c/ vídeo)

Entre as muitas romarias do mês de agosto encontra-se a que milhares de fãs da música portuguesa fazem desde 2006 à pequena localidade de Tomar que o Bons Sons colocou no mapa. Fomos conhecer Cem Soldos em plena contagem decrescente para mais uma edição, que se realiza entre os dias 12 e 16 de agosto, e quisemos saber como é o festival premiado pelos Portugal Festival Awards e nos Iberian Festival Awards através daqueles que vivem a aldeia todo o ano.

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Há dez anos Cem Soldos era uma pequena aldeia de Tomar que pouca gente conhecia. As excursões chegavam em massa ao concelho para visitar o Convento de Cristo e os cem soldenses, menos de mil entre os cerca de 3200 habitantes da antiga freguesia da Madalena (Censos 2011), mantinham as rotinas diárias imunes à “invasão” dos turistas.

O Sport Club Operário de Cem Soldos (SCOCS) celebrava, na altura, o primeiro quarto de século e decidiu dar-se novas roupagens aos tradicionais festejos de verão através do programa cultural “Acontece Cem Soldos”. A semente estava lançada e a terra revelou-se fértil. Seis edições depois, Tomar já não surge no mapa apenas quando se pesquisa pelo património histórico reconhecido pela UNESCO em 1983.

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O formato escolhido marca pela diferença e vai muito além de uma visita de quatro dias para assistir a alguns concertos. Os visitantes são convidados a viverem a aldeia durante o festival e até à data foram mais de 170.000 as pessoas que o fizeram no mês de agosto. No entanto, a vida cem soldense continua durante o resto do ano com inúmeras atividades na sede da associação, na oficina de costura, no Largo do Rossio e nas ruas onde reina o silêncio, apenas quebrado pelos cumprimentos de quem se conhece há anos.

O Largo do Rossio prepara-se para receber o Bons Sons. Foto: DR
A aldeia prepara-se para receber o Bons Sons. Foto: mediotejo.net

Visitámos a pequena localidade em plena contagem decrescente para a sexta edição do festival de música portuguesa premiado nos Portugal Festival Awards e Iberian Festival Awards e pedimos aos habitantes para nos contarem o que mudou na última década. Maria do Carmo Pires, Marília Carvalho, Ofélia Mourão, Lurdes Silva, Maria José Ferreira e Luís Mourão aceitaram o convite e também partilharam a forma como muda o quotidiano nos dias em que centenas de pessoas se transformam em dezenas de milhar.

Maria do Carmo Pires, 62 anos, chegou a Cem Soldos há vinte anos trazida pelo casamento e a primeira edição do Bons Sons marcou-a pela “novidade”. Há cerca de dois passou a fazer parte da Oficina Criativa, que atualmente já tem criações próprias de merchandising para o festival, fazendo com que as tradicionais Tichas estejam expostas nos próximos dias 12, 13, 14 e 15 de agosto ao lado de sacos com padrões estilizados e almofadas com bolsos para transportar pela aldeia durante os concertos.

Novidades que Marília Carvalho viu nascer nas horas passadas na Oficina das Avós, da qual foi uma das primeiras frequentadoras. Aos 93 anos, acabados de fazer, tem o estatuto de terceira pessoa mais idosa e passou a herança cem soldense a seis filhos, 12 netos e 18 bisnetos com quem já visitou os “novos prédios” construídos entretanto na aldeia que diz conhecer “desde o fundo até ao cimo”. Destaca a participação dos mais jovens na preparação do Bons Sons e apesar da música não ser a sua preferida, não deixa de assistir aos espetáculos num dos oito espaços criados para o efeito sempre que pode.

O atelier de costura recebe a Oficina das Avós e a Oficina Criativa todo o ano. Foto: DR
O atelier de costura recebe a Oficina das Avós e a Oficina Criativa todo o ano. Foto: mediotejo.net

Deixada para trás a oficina de costura, encontramos Ofélia Mourão, que faz os 82 anos no mês do Bons Sons, e Lurdes Silva, com 78 anos. A primeira partilha as raízes transmontanas com um sorriso rasgado que contrasta com a postura mais recatada da segunda, nascida e enviuvada na aldeia. Para Ofélia, o festival “mudou tudo” na terra para a qual veio morar por lhe recordar o marido, contribuindo para a abertura de mentalidades, mas Lurdes prefere ficar em casa durante os dias de enchente ou sair de Cem Soldos. No entanto, descobrimos por portas travessas que a detentora da chave da porta da igreja, cujo adro é transformado no Palco Tarde ao Sol, chegou a receber uma serenata do público enquanto assistia a um concerto na janela.

Os Few Fingers fazem parte da lista de grupos que regressam à aldeia, mas não pela mesma razão de Desbundixie, Deolinda, Kumpania Agazarra, Lula Pena, Danças Ocultas, Joana Sá, Birds Are Indie, Lavoisier, Sopa de Pedra e D’Alva, que participaram em edições anteriores. O grupo integra o cartaz pela primeira vez e a estreia em Cem Soldos deu-se na gravação do videoclip do single “Our Own Holidays” no pequeno quintal de Ofélia que, além da casa, cedeu igualmente o tempo e participou como “a vizinha cusca” nas “três vezes” que os “moços” passaram por ali.

Mais à frente, com vista para o Largo de S. Pedro onde é montado o Palco Giacometti, falamos com Maria José Ferreira, de 58 anos. Ao longo do ano tanto recebe grupos em casa durante intercâmbios para fazer “pão e bolinhos”, como dá guarida a artistas e técnicos durante o festival. Bons Sons é tempo de caracóis, moelas e “panelões de sopa” em tal quantidade que chega a perder a fome. Os visitantes gostam do petisco e há quem a vá cumprimentar edição após edição.

O ritmo não pára no bar "A Tasca". Foto: DR
O ritmo nunca pára no bar “A Tasca”. Foto: mediotejo.net

As conversas prolongam-se e o sol já vai alto, exigindo um sítio mais fresco. É n’”A Tasca” que encontramos sombra enquanto falamos com o proprietário, Luís Mourão, nascido e criado em Cem Soldos. Aos 45 anos reabriu o negócio do irmão e três anos depois procura manter viva a fama da sangria conhecida no concelho antes do espaço fechar. O barman junta-se às vozes anteriores ao salientar que a aldeia continua a ter vida antes e depois do fim-de-semana mais concorrido do calendário.

Todos concordam que a aldeia e as pessoas mudaram com a energia extra trazida pelo festival que leva meses a preparar e em 2016 promete um cartaz com 50 artistas nacionais. Durante o resto do ano gostam que as ruas e as conversas se mantenham iguais a elas próprias, simples e familiares.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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