Tomar | Nuno Castanheiro: sobreviver à queda de uma aeronave e voltar a voar

Superação. É esta a palavra certa para descrever a história de Nuno Castanheiro, um barbeiro de 47 anos que vive e trabalha em Tomar. Teremos que recuar até ao dia 3 de janeiro de 2015. Foi neste dia que sobreviveu à queda de uma aeronave no Aeródromo de Valdonas (Tomar) quando a mesma se preparava para aterrar. O piloto, José Borga, seu grande amigo e companheiro de horas de voo, morreu. No último mês de setembro, Nuno Castanheiro voltou a sobrevoar os céus da cidade templária, cumprindo a promessa que fez em homenagem ao amigo – e não passa um dia sem o lembrar.

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Nuno Castanheiro, barbeiro em Tomar, conta como conseguiu superar o trauma do seu trágico acidente Foto: mediotejo.net

A voz de Nuno Castanheiro não treme enquanto nos conta a sua história. Estamos perante alguém com uma enorme força interior. As palavras saem certas. Com sentimento. Mas firmes. Até porque não se lembra de nada relacionado com o acidente. A sua mente apagou esse dia, só se recorda dos momentos em que entrou no recinto do Aeródromo e que a sua filha o acompanhava nesse dia.

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Depois do acidente, do qual ficou ferido com gravidade com múltiplas fraturas e derrames internos, passou três semanas internado nos Hospitais de Abrantes e Tomar. Seguiram-se operações ao joelho e ao pé esquerdo (que ficou esmagado) e mais de um ano de reabilitação e fisioterapia. Em sequela do acidente resultou uma incapacidade física de 40% e tem consciência que terá que levar uma prótese no joelho que tem as cartilagens presas com arames. Do resto, não se queixa de nada.

As dores de alma essas são as mais difícil de gerir mas Nuno Castanheiro conta como lidou psicologicamente com a situação dramática que vivenciou. “Não é fácil. Temos que acreditar que conseguimos levar a vida para a frente. Se nos apegamos a uma situação dolorosa do passado acabamos por morrer também. Mas tenho que confessar que todos os dias me lembro do José Borga. Está todos os dias na minha cabeça”.

Nuno Castanheiro e José Borga no dia do voo fatídico Foto: D. R.

Nuno não tem memória do momento entrar no avião, de descolar, de fazer o voo, nem do acidente. Julga que é uma defesa da sua mente. Durante uns meses valentes “andou com a cabeça desarrumada” e fazia perguntas sobre o que tinha acontecido, mas ninguém lhe contava, o que o deixava mais aflito.

Quando veio o GPIAA-Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves ao aeródromo para analisar o acidente é que percebeu o que tinha acontecido. Assume que a culpa foi humana e que a aeronave caiu porque se deixaram seduzir pela adrenalina.

“Se cumprirmos as regras do jogo, as aeronaves são muito seguras. É mais seguro do que sairmos a pé para rua. “Falhámos algumas regras do jogo”, confessa. Assumir isto ajudou-o a ficar mais em paz. “Estou consciente do que é certo e errado e assumi essa culpa. Eu e o Borga falhámos.”

“As pessoas tem que viver o dia de hoje como se fosse o último. Não temos nada garantido. Temos que o aproveitar. Eu já tive um pé do outro lado. Já percebi que vamos embora sem dizer adeus”

Assim que recuperou a mobilidade voltou de novo ao Aeródromo de Valdonas, onde tem muitos amigos na ATAUL – Associação Tomarense de Aviação Ultra-Leve, entidade que gere este espaço. Não porque tenha que provar nada a ninguém, mas sim porque gosta do ambiente que ali se vive.

A 20 de setembro do mesmo ano já estava como espectador do Encontro dos Templários, ainda em canadianas, mas não pensava em voar. O tempo foi passando e do ponto de vista psicológico pensou que “se alguém o deixou cá ficar para viver” devia continuar com a sua vida.

“Não vou deixar fazer aquilo que gosto. Poderei não ter tanta disponibilidade devido à vida familiar e profissional mas sempre que tiver uma janela de tempo, eu vou voar”, atesta. Nuno diz que nunca teve dúvidas de que iria voltar a voar.

“Recebi uma lição muito grande. Deus deixou-me ficar na Terra e deu-me o ensinamento de que devia continuar a fazer o que gosto, mas com cuidado.”

Desde então, dá mais valor à vida. Até na estrada, mudou o seu comportamento.

Nuno Castanheiro mantém a paixão de voar. Foto: D.R.

Depois do acidente, Nuno voltou a entrar num avião civil, sem qualquer arrepio na pele, em 2016, quando viajou com o padrinho. “Penso que isto acontece porque não me lembro do acidente, não tenho essa memória”, explica, acrescentando que cabe nos a nós, sempre que passarmos por uma situação mais dramática, superar a mesma. “A vida depende muito da nossa atitude. Não fiz isto para provar nada a ninguém.”

“Já percebi que vamos embora sem dizer adeus”

Em setembro voltou a entrar numa aeronave e a sobrevoar os céus da cidade de Tomar. Nesse domingo, disse baixinho que estava a pagar uma promessa que fez ao seu amigo Borga e que ia voar em sua homenagem. Quisemos saber como a família e amigos reagiram a esta decisão e encontrou mais recetividade entre os associados da ATAUL.

“Há quem me diga que gosta de me ver voar, quem me dê os parabéns por ter voado com a consciência de que ultrapassei este trauma. O maior trauma que tenho ainda é o de ter ficado, durante alguns meses, dependente dos outros, e a perda do José Borga. Só descansei quando cheguei à campa dele, em julho do mesmo ano, e o fui ver. Porque ele foi-se embora sem a gente se despedir”, recorda, acrescentando que é por isso que o amigo está todos os dias na sua cabeça.

“Saber que alguém que estava ao nosso lado se foi embora é muito difícil. Eu chego ao aeródromo e olho para o hangar CS-UPH onde ficava a aeronave e estou à espera de o ver a aparecer”, confessa.

A quem conta a sua história, Nuno quer transmitir uma mensagem. “As pessoas tem que viver o dia de hoje como se fosse o último. Não temos nada garantido. Temos que o aproveitar. Eu já tive um pé do outro lado. Já percebi que vamos embora sem dizer adeus.”

O dia de hoje é sempre o mais importante. Já assim pensava antes mas esta experiência reforçou esta visão. “Não vale a pena agarrarmo-nos a um problema, à dor. Temos que o resolver a seguir”, afirma, convicto.

E a voz de Nuno Castanheiro só se emociona verdadeiramente na última pergunta desta entrevista. “Se pudesse dizer alguma coisa a José Borga, o que lhe dizia?””. Ele responde aos soluços, com a mão a bater no peito: “Obrigado. Muito obrigado, Borga.”

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Elsa Ribeiro Gonçalves
Aos 12 anos já queria ser jornalista e todo o seu percurso académico foi percorrido com esse objetivo no horizonte. Licenciada em Jornalismo, exerce desde 2005, sempre no jornalismo de proximidade. Mãe de uma menina, assume que tem nas viagens a sua grande paixão. Gosta de aventura e de superar um bom desafio. Em maio de 2018, lançou o seu primeiro livro de ficção intitulado "Singularidades de uma mulher de 40", que marca a sua estreia na escrita literária, sob a chancela da Origami Livros.

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