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Tomar | Nos bastidores do Bons Sons com Lena d’Água e Primeira Dama (c/ fotos e vídeo)

As despedidas do Bons Sons fizeram-se este domingo, dia 12, depois de Cem Soldos ter voltado a receber milhares de festivaleiros para viver a aldeia durante quatro dias. Acompanhámos os últimos momentos e fomos até aos bastidores para conversar com Lena d’Água e Manuel Lourenço (Primeira Dama) pouco antes de encerrarem o palco Lopes-Graça com a estreia conjunta num festival. Um encontro fugaz durante o qual se falou sobre o amor de verão que os une no novo projeto e dos próximos (álbuns) que estão à espreita.

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Durante quatro dias, mais de cinquenta atuações nos oito palcos do Bons Sons revelaram e confirmaram que a música portuguesa está de boa saúde. Os Dead Combo recebiam pedidos de encore no palco Lopes-Graça quando nos encontrámos nos bastidores com Lena d’Água e Manuel Lourenço (Primeira Dama). Dali a menos de duas horas, a música a ecoar no Largo de São Pedro seria a que os une desde o ano passado quando ele decidiu ligar-lhe de Berlim a convidar para fazer um concerto na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa.

Ela aceitou o pedido, ele pulou de alegria e assim se oficializou o amor de verão iniciado com um passeio pela “Rua das Flores”, tema do álbum homónimo de Primeira Dama editado em 2017, que juntou uns beats ao refrão de “Perto de Ti”, sucesso de Lena d’Água acompanhada pela banda Atlântida. Quando a música saiu, Primeira Dama ainda não era nascido, mas o encontro já estava marcado pelo destino e agora afirmam juntos que só querem estar perto um do outro.

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Mini-concerto surpresa no último dia dos Bons Sons

No caso do Bons Sons, também estiveram por perto os elementos da banda Xita que ajudam a vestir com novas roupagens outros temas do ícone da música portuguesa, como “No fundo dos teus olhos de água” e “Jardim Zoológico”. Letras de sempre com novos sons, sem deturpar a essência do pop-rock admirado nos temas da artista que foi a primeira vocalista feminina de uma banda de rock, os Beatnicks, e integrou os Salada de Fruta.

A diferença de idades, a rondar os quarenta anos, não se traduz em reverência durante a entrevista em que revelam admiração mútua. Lena d’Água e Primeira Dama são cúmplices nesta relação musical que parecia ser pontual e, afinal, se transformou em coisa séria. Sim, porque há amores de verão que duram muitas primaveras pela vida fora e – tal como cantaram no mini-concerto surpresa que deram à tarde – surgem “Sempre que o amor me quiser”.

Podemos pegar no mote do festival Bons Sons deste ano e dizer que falamos aqui de um amor de verão entre ambos. Conheceram-se na “Rua das Flores” e desde então…

Miguel Lourenço (ML): É verdade. Já conhecia a Lena antes, mas essa canção foi um meio para isto se efetivar enquanto um concerto dos dois. Se o tema é “amor de verão”, então isso está certíssimo pois vamos tocar uma canção da Lena que eu acho que é uma das melhores canções sobre amor de verão que é o “Dou-te um Doce” e as minhas do meu último disco são todas sobre amor de verão, portanto, não há muito como fugir a esse tema. Se há um concerto que tem amor de verão aqui escarrapachado é o nosso.

Lena d’Água (LA): O nosso tem, sim.

Era para ter sido um encontro pontual, mas parece que este amor de verão se tornou coisa séria e duradoura.

ML: Sim, era para ter sido um concerto que fizemos na ZDB (Galeria Zé dos Bois, em janeiro deste ano) e depois pareceu inevitável que as coisas se fossem repetindo. Aparecia um concerto, depois aparecia outro.

LA: O primeiro correu bem, o segundo também correu bem. Hoje é o terceiro, também vai correr bem. Temos mais um (a 7 de setembro no festival Milhões de Festa, Barcelos) e outro talvez.

E como descrevem este amor de verão? Há diferenças entre ambos, mas existe uma harmonia e construiu-se alguma coisa com ela.

LA: Sim, o pedido foi mesmo feito no verão (riem-se os dois).

ML: Sim, foi em agosto do ano passado. Estava em Berlim numa viagem que fizemos, eu e pessoal da Xita (Xita Records, editora de Primeira Dama). Estávamos lá, era verão, eu já andava a matutar esta coisa e tinha dado um toque da ZDB para pensar nisso. Pensei “é agora ou nunca” e num dia em que fiquei em casa pensei “vou fazer algo útil na vida em vez de estar só aqui”. Pensei “é hoje que vou ligar à Lena. Vamos marcar isto, vamos fazer isto”.

Eu liguei-lhe a dizer “como é que é, queres fazer isto?” e ela respondeu “claro”. Ainda lhe disse se queria ser ela a escolher as músicas, mas ela respondeu “escolham vocês”. Foi um processo muito importante e isso foi umas das coisas que tornou isto muito mais… é ela (Lena d’Água) perceber que existe uma geração que conhece a obra, respeita e tem favoritos de quem já viveu outro tipo de música noutros anos. Ela ter-nos dado possibilidade de escolher as canções foi um passo super importante para isto correr como corre.

LA: Exatamente.

Lena dÁgua e Primeira Dama nos bastidores. Foto: mediotejo.net

E como é que a Lena reagiu ao pedido?

LA: Ele disse-me “isto pode ser uma ideia muito estapafúrdia, mas eu gostava que pensasses nisto” e eu disse-lhe logo que sim.

ML: Foi automático e eu fiquei a saltar de um lado para outro na casa onde estávamos em Berlim, “vamos fazer o concerto! A sério? A sério!” e, pronto, aconteceu (Lena ri-se).

Como foi este processo de dar novas roupagens a temas…

ML: (interrompe) icónicos.

Sim, com letras que todos conhecem.

LA: Já não é a primeira vez para mim. Já fiz os meus temas com músicos de jazz, já fiz piano e voz, só com um trio, mas com ideias deles, que são muito mais novos do que eu e metem a eletrónica, coisa que os músicos com que eu tenho feito não têm usado e eles usam. Isso é um acrescento muito fixe porque, quando é usado na medida certa, é muitíssimo bom. Eu gosto imenso.

ML: Uns beats, umas brincadeiras.

Os encontros deste amor de verão têm corrido bem nos ensaios?

ML: Têm corrido bem. Nós fazemos muito trabalho de casa porque a Lena é uma máquina, já tem muitos anos disto. Normalmente só precisamos de acertar pormenores com ela, fazemos uns quantos ensaios e a coisa está feita. Como já é a terceira vez que vamos tocar, cada vez é preciso estar menos em cima dessa situação.

Do lado do nosso trabalho de casa, foi correndo melhor. É aquela coisa normal. Nós também somos miúdos, há umas alturas em que as coisas correm melhor, há outras que correm pior. Neste momento, está num sítio em que toda a gente se sente confortável ali, é bonito, toda a gente está a tocar para a canção e as coisas fluem de uma maneira correta. Depois soa tudo muito bem, pois com a Lena fica tudo a soar muito bem.

LA: (ri-se) Eles estão todos em Lisboa, trabalham muito sem mim porque eu estou a viver numa aldeia a 80 quilómetros de Lisboa… não é 80, mas é quase. Eles fazem o trabalho de casa, ensaiam eles e eu faço um ensaio ou dois e está a andar.

ML: Corre sempre bem.

Lena d’Água durante o concerto. Foto: mediotejo.net

Neste amor de verão surgiu algum desafio inesperado ou a coisa fluiu naturalmente?

ML: A magia destas canções e muito do génio do Luís Pedro Fonseca, que era quem fazia as canções da Lena com a Lena… Esse é o grande traço da canção pop, uma coisa que até é bastante complicada muitas vezes parece effortless, que é a coisa mais simples de sempre e o lado mais difícil foi arranjar um compromisso entre aquilo que é o nosso som de agora e a maneira como encaramos essas canções e tentar manter essa linhagem incrível de uma pop dos anos 80 que é super completa.

É um trabalho muito duro de fazer a alguns níveis, mas quando entramos naquilo chega a uma altura em que acaba por fluir naturalmente. Não é difícil.

LA: Isso é que é o mais importante.

ML: Há algumas versões que já estão mais diferentes…

Então já se arriscou na relação…

MN: Sim. Por exemplo, “No fundo dos teus olhos de água” (do álbum de Lena d’Água “Perto de Ti”, lançado em 1982) já é uma canção de um de nós, mas continua a ser a canção da Lena e é isso que é bonito.

Em qualquer um dos casos, cantam sempre sobre o amor. A certa altura achava-se que o tema era lamechas. Esta é uma nova forma de cantar o amor?

ML: Por mais que uma pessoa altere e que o objeto faça o ângulo das coisas mudar um bocado, na verdade está-se sempre a cantar sobre amor.

LA: Sim, seja humano ou não.

ML: Seja um amor pela luta na sociedade, na cantiga de intervenção, o amor pelo outro…

LA: (interrompe) Seja pelos animais, por exemplo na música “Jardim Zoológico” (também do álbum “Perto de Ti”).

ML: Na verdade não se canta sobre outras coisas, mesmo quando é uma coisa mais objetiva, mais interventiva (Lena d’Água vai anuindo). Parte-se sempre de um sentimento de solidariedade, de amor, de construção. Está sempre ligado.

LA: Eu nem preciso de dizer mais nada (ri-se).

Se há sítio onde faça sentido cantar assim é neste Bons Sons, em que o amor anda no ar. Como encararam o convite para vir viver a aldeia e estrearem-se juntos no palco de um festival?

ML: Era o sítio certo. Se só havia um festival em que fazia sentido fazer este concerto é este.

LA: Eu já não tocava num festival há imenso tempo e vamos encerrar o Palco Lopes-Graça.

Uma responsabilidade acrescida pois vão ter uma multidão à espera.

ML: Seria mais difícil se fizesse menos sentido.

LA: Seria mais difícil se estivessem só 10 pessoas (ri-se).

O nervosismo de Primeira Dama transparece e contrasta com a calma de Lena d’Água.

Primeira Dama durante o concerto. Foto: mediotejo.net

Lena, que conselho dá ao Manuel uma vez que tem mais experiência nisto? Ainda fica nervosa antes dos concertos?

LA: Há sempre uma ansiedadezinha. Eu percebo que eles fiquem assim. O que me acontece, naturalmente, é ficar super relaxada, super calminha porque faz falta…

ML: (interrompe) Faz falta haver assim uma pessoa (Lena d’Agua ri-se).

Mais concertos virão e um deles, pelo que disseram, já está confirmado. Que outros projetos têm para o futuro?

LA: Eu estou a gravar o meu disco e ele (aponta para Primeira Dama) vai ser a seguir.

ML: Sim, o meu ano sabático em termos de lançar discos foi em 2018. Lancei em 2016 (o álbum “Histórias por Contar”) e em 2017 (o álbum “Primeira Dama”) e havia muitos concertos para dar, muita coisa para fazer. O ano de 2019 será o do meu regresso aos discos. Está a começar devagarinho, agora preciso de terminar estes concertos. Depois desta aventura incrível, eu poder absorver tudo o que aprendi aqui e então, daí, fazer um disco.

No caso da Lena, como está correr o trabalho? Já existe alguma data prevista para o lançamento do novo álbum?

LA: Até agora, o trabalho tem sido de preparação em estúdios caseiros. Já foram apresentadas as seis maquetes, não fizemos os temas todos em maquete porque as pessoas implicadas neste trabalho têm muitos outros trabalhos. São pessoas que têm várias bandas, como o Benjamim e…

MN: (interrompe) E o pessoal dos They’re Heading West…

LA: Sim, com quem eu fui ao Festival da Canção (em que interpretou o tema “Eu nunca me fui embora”, com letra e música de Pedro Silva Martins). Logo nessa altura, o Pedro começou a compor para mim. Já me tinha dito algum tempo antes “eu tenho que escrever para ti”, depois foi conciliar agendas das pessoas que eu convidei para virem comigo ao festival como banda, uma vez que os They’re Heading West me tinham convidado a ir cantar com eles na Casa Independente e o Benjamim me tinha convidado para ir cantar com eles ao CCB.

Então eu disse “Pedro, vamos convidar They’re Heading West e Benjamim. Vamos fazer uma banda com bandas, eles são todos amigos. Já está marcado, em dezembro entramos em estúdio com as canções que o Pedro escreveu para mim com esta tropazinha linda.

Ou seja, novos amores de verão não faltam…

LA: É só amor. (ri-se) Aliás, eu estou sem namorado e tu também estás sem namorada.

ML: É verdade, estamos os dois. (ri-se)

Concerto de Lena d’Água e Primeira Dama. Foto: mediotejo.net

Estando aqui no Bons Sons inspirado no amor de verão nunca se sabe se, algures no meio da multidão, não estão os eleitos…

ML: Estão lá, de certeza. (Lena d’Água ri-se)

Vão estar atentos durante o concerto?

ML: Depois da pressão do concerto, tudo é possível.

LA: (ri-se) Os meus amores estão em minha casa à minha espera, amanhã de manhã. Tenho lá quatro cães à minha espera.

ML: Esses é que nunca deixam ninguém mal. (riem-se os dois)

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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