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Sexta-feira, Setembro 24, 2021

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Tomar: Na Olaria dos Figueiredo é tudo à moda antiga

José Miguel Figueiredo herdou do pai o gosto pela olaria. Isso está bem patente na empresa “Talhas, Herança e Tradição – Olaria, Lda” que labora na Asseiceira, em Tomar, onde cada peça é ainda produzida de forma artesanal.

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Pai e filhos unidos pela mesma arte

Aos 76 anos, o boné na cabeça confere-lhe um ar descontraído. Américo Oliveira Figueiredo está sentado num banco a observar o trabalho dos oleiros da “Talhas, Herança e Tradição – Olaria, Lda”, empresa dirigida pelo seu filho, José Miguel Figueiredo, de 45 anos, e onde cada pote de barro é executado artesanalmente.

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O negócio da olaria já atravessou gerações na Família Figueiredo, natural da freguesia de Asseiceira, uma das mais populosas do concelho. José Miguel, dedica-se de alma e coração à sua atividade e faz questão de manter todo o processo artesanal de produção. Por isso, por aqui e acolá, vamos encontrar máquinas que mais parecem relíquias de museu mas que foram ressuscitadas e estão a laborar em pleno. Muitas vieram de cerâmicas da região que fecharam portas,  porque esta é uma arte “trabalhosa” e ao qual os mais novos viram a cara também por “culpa dos pais”.

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José Miguel Figueiredo com dois colaboradores

Américo Figueiredo tem uma lucidez fora do comum. Recorda que ainda se lembra do avô a trabalhar o barro. Foi com o pai que aprendeu o ofício, aos 11 anos quando largou a escola. Com 12 anos já metia as mãos no barro e moldava as peças com um rolo. “Punham-se uns trapos em cima para o barro amaciar e, depois, quando tinha 12 anos já começava a dar aqueles rolos para fazer os potes”, recorda.

Na Olaria dos Figueiredo a roda do oleiro é apenas usada para fazer a base dos potes. Tudo o resto é a rolo. Cada peça é única. O antigo oleiro recorda que é do tempo em que as pessoas viviam da olaria e do que a terra lhes dava. De Inverno, as pessoas iam amanhar as suas propriedades. De Verão faziam os potes de barro e, mais tarde, os púcaros ou o  tijolo. Era o que se fazia cá na Asseiceira”, conta ao mediotejo.net.

Atento às palavras do pai, José Miguel recorda que, na freguesia da Asseiceira, existiam pequenas cerâmicas instaladas em propriedades “por aqui e acolá” e que se dedicavam à produção do Tijolo, especialmente entre os meses de março e setembro. “Estamos a falar de uma indústria que já tem pelo menos três séculos de existência nesta freguesia”, aponta. O pai não o deixa mentir:  “Tenho potes em casa que datam de 1700 D.C. e que foram produzidos cá, na Asseiceira”.

O processo de fabrico de peças nesta ampla olaria de Asseiceira – quem passa no exterior está longe de imaginar quão grande é – não difere muito do que se fazia antigamente. É um princípio que José Miguel faz questão de manter. “Tenho muito orgulho de produzir as peças tal como o meu bisavô o fazia”, atesta.

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O oleiro, de 45 anos, a trabalhar o barro

José Miguel Figueiredo também deixou a escola muito cedo. Tinha 12 anos e fê-lo contra a vontade dos pais. O progenitor acena que sim com a cabeça.  Mesmo assim, José Miguel fez imperar a sua vontade e até aos dias de hoje não parou. O empresário, que também é oleiro, casado e com dois filhos e ainda não sabe se vai ter sucessores mas, acrescenta, não será ele a forçar o seu futuro.

Com quatro, cinco anos já ia para a olaria do pai e gostava muito. “Tínhamos a olaria, junto à EN110, onde se faziam potes, cântaros, entre várias peças. Eu comecei a gostar disto e ainda gosto, apesar dos altos e baixos desta atividade”, conta.

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Américo Figueiredo aprendeu esta arte com o pai

As instalações onde actualmente se encontram eram as de uma antiga cerâmica pertença de Manuel Ferreira Eusébio, fundada por volta de 1950. Esta, por sua vez, tinha resultado de pequenas cerâmicas, algumas das quais instaladas em pequenos barracões ou telheiros, encostadas às barreiras. Produziam, na época, o chamado “tijolo de burro” ou a “telha de canudo” que também José Miguel pretende voltar a fazer na sua cerâmica.

O oleiro – recordando o que ouvia dos mais velhos – conta que nos anos 50, o bairro era moído com a ajuda de uma vaca, mula ou cavalo que andava ao redor de uma vasilha com capacidade para 200 litros. Um engenho manual muito idêntico ao que tira as águas dos poços. Só que a procura aumentou e as olarias foram sendo apetrechadas com outros equipamentos. Os fornos a lenha também ficaram cada vez maiores.

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Máquinas antigas continuam a laborar

O oleiro revela  que o barro é composto por várias camadas, sendo que quanto mais “gordo” é o barro melhor. E é “a olho nú” que os Figueiredo determinam isso, não tendo necessidade de recorrer a um laboratório tal como acontece nas grandes fábricas. Aliás, na Olaria dos Figueiredo, o barro é preparado numa máquina que tem cerca de 70 anos e que foi comprada por Américo Figueiredo em Amiais, Torres Novas, por “10 contos”. Mais tarde, para que desse mais rendimento, comprou um motor a gasóleo por “25 contos” para puxar por ela. As “fieiras”, assim designadas, são as primeiras máquinas que as cerâmicas tiveram. Tinham moldes próprios e era ali que produziam o tijolo. Na olaria de José Miguel há uma novidade: uma máquina de fazer púcaros, que data de 1974, que comprou recentemente a um oleiro que deixou de trabalhar. “Veio cá ver a máquina a trabalhar e até lhe vieram as lágrimas aos olhos”, conta.

Américo Oliveira Figueiredo deixou de trabalhar em olaria há 20 anos. Ao todo, foram mais de cinco décadas a meter as mãos no barro, num tempo em que se trabalhava de sol a sol. Antigamente produziam-se mais potes para vinhos e azeites. Só mais tarde vieram os vasos para flores. Por norma, os potes nunca ultrapassavam uma altura superior a 1,20m, dado que os vasilhames funcionam por litros. Américo ainda entregou alguns potes numa carroça e aconteceu-lhe, uma vez ou outra, partir um pote pelo caminho mas, assegura, havia sempre algum de sobra para compensar. O pai nunca lhe bateu por causa disso.

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Um pote na sua fase inicial de execução

Histórias, essas tem muitas para recordar. Américo Figueiredo recorda que, certa vez, emprestou uns potes para embelezar uma sala no Convento de Cristo, onde ia decorrer um casamento de família importante. “Quando fui lá descarregar os potes, surge o reitor que me aborda e diz que, no final, tinha que ir com ele para ver uns potes grandes que ali estavam. E a explicação é de que em Tomar, antigamente, era só hortas junto à Várzea Grande e Rodoviária sendo que era nesses potes que os trabalhadores guardavam o vinho e azeite. Potes esses que ainda ali se encontram no Convento de Cristo”, contam.

Recorda ainda que fazia muitas feiras, especialmente no Alentejo. No Verão o que se vendia mais eram os potes para o vinho, sempre feitos em forno de lenha. “Tínhamos que governar a vida. Não havia férias. Era de sol a sol e até às tantas da madrugada. Muitas vezes acordávamos de noite para pôr lenha e aquecer os fornos”, recorda.

E é num grande forno a lenha que, actualmente, os potes ainda são cozidos na “Talhas, Herança e Tradição – Olaria, Lda”, embora se tivesse feito, há alguns anos, uma tentativa num forno a gás. O processo de cozedura, explica José Miguel Figueiredo, é o seguinte: após fazerem as peças, estas ficam a secar numa estufa ou ao ar livre (dependente da época do ano). Depois de estarem bem secas vão ao forno e ali ficam 24 horas. O forno é aquecido a partir de uma pequena fogueira e atinge cerca de 900 graus de temperatura no seu interior.

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O oleiro tem orgulho em produzir como o bisavô

Asseiceira: terra de oleiros 

A freguesia de Asseiceira, no concelho de Tomar e paredes meias com Vila Nova da Barquinha, tem terras férteis em barro. “Por aqui, em qualquer sítio se encontra barro. Aliás, se dermos uma volta pela freguesia vemos alguns buracos nos montes que eram os sítios onde as pessoas iam tirar o barro”, conta José Miguel Figueiredo.

Nesta freguesia rural, eram muitos os que se dedicavam à produção de potes de barro, tijolos de burro e tijoleira. O oleiro conta que só a partir de 1930 é que começaram a aparecer, em barro, os tachos, panela, púcaro e utensílios idênticos, executados a partir de revistas que o seu avô trouxe. José Miguel Figueiredo refere que o seu avó foi um visionário para a época pois soube ver onde qual o caminho a seguir.

“Na Olaria, toda a gente associa os potes à roda de oleiro mas é importante referir que a nossa história está ligada aos potes feitos a rolo. A roda de oleiro apenas faz o fundo dos potes”, ressalva. E é por isso que Cada peça é única. “Temos 50 potes idênticos mas nenhum é igual”, atesta. Deste modo, das mãos do oleiro saem peças que acabam sempre por levar um toque pessoal.

Por isso, José Miguel Figueiredo consegue distinguir os potes que são feitos por si, pelo seu pai ou avô. Aos 45 anos, quando refere ás pessoas de fora que a sua profissão é a de oleiro recebe, de volta, reacções diversas. O sorriso que conserva no rosto durante toda esta reportagem não deixa margem para dúvidas: “Tenho muito orgulho nisso e, principalmente, em manter viva esta tradição. A tradição da minha família e da terra onde nasci”.

Aos 12 anos já queria ser jornalista e todo o seu percurso académico foi percorrido com esse objetivo no horizonte. Licenciada em Jornalismo, exerce desde 2005, sempre no jornalismo de proximidade. Mãe de uma menina, assume que tem nas viagens a sua grande paixão. Gosta de aventura e de superar um bom desafio. Em maio de 2018, lançou o seu primeiro livro de ficção intitulado "Singularidades de uma mulher de 40", que marca a sua estreia na escrita literária, sob a chancela da Origami Livros.

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7 COMENTÁRIOS

  1. “Ao todo, foram mais de cinco séculos a meter as mãos no barro(…)”. Talvez quisesse dizer, cinco décadas? Tirando isto, bom texto, gostei de ler. Cumprimentos e boa continuação.

  2. Realmente boa descricao do texto.E bomainda haver pessoas que continuam dando o seu melhor,apesar das mudancas e evolucao dos tempos,continuam a fazer e a honrar as nossas tradicoes com estas belezas de arte.
    Bom trabalho e a continuacao viva das nossas tradicoes,neste caso da Olaria portuguesa.

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