Tomar | Mais antiga Sinagoga do país revitalizada e sonho de Schwarz cumprido

Foto: mediotejo.net

A Cidade Templária inaugurou na terça-feira, dia 15 de outubro, o Núcleo Interpretativo da Sinagoga de Tomar e o Museu Luso-Hebraico Abraão Zacuto – o “sonho” do judeu Samuel Schwarz -, dois espaços emblemáticos que fazem parte da memória tomarense e cultura judaica, inseridos na História do país. A mais antiga sinagoga do país estará assim aberta ao culto e ao saber, ganhando escala e lugar privilegiado num concelho que se afirma como um destino “ecuménico”. A sinagoga é, depois do Convento de Cristo, dos mais visitados monumentos do concelho.

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A presidente da Câmara Municipal de Tomar, Anabela Freitas, lembrou, durante a sessão de inauguração do Núcleo interpretativo e Museu Luso-Hebraico, que a sinagoga chegou até aos dias de hoje e se manteve aberta graças a Luís e Teresa Vasco. “Temos de os evocar, que efetivamente mantiveram a nossa sinagoga aberta, porque é de todos nós, para que possamos estar hoje aqui. Senão, ela tinha fechado e não estaríamos onde estamos hoje”, disse a autarca.

“Que este seja um primeiro passo para a criação daquilo que nós pretendemos no nosso concelho, que é um concelho ecuménico. É isso que também pretendemos na nossa estratégia de afirmação, não só nacional, mas também internacional”, afirmou.

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A sinagoga há muito necessitava de intervenção de reabilitação, sobretudo devido aos efeitos da humidade na sua estrutura, o que levou o município a submeter candidatura a fundos comunitários através do programa Portugal 2020, que permitiu um investimento em matéria de obra física a rondar os 280 mil euros.

Já a intervenção no piso superior, para instalação do núcleo interpretativo, foi candidatado pelo município ao mecanismo financeiro do Espaço Económico Europeu (EEA Grants), que financiou o equipamento e os conteúdos em formato digital que dotou o piso de toda a estrutura museológica.

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Por outro lado, surgiu pelo Instituto Politécnico de Tomar, através dos alunos do Curso de Fotografia, a oportunidade de acompanhamento e registo do processo de desenvolvimento deste projeto, que será publicado em livro e que fará parte das memórias tomarenses.

Presentes na sessão estiveram os arquitetos Fernando Sanchez Salvador e Margarida Grácio Nunes, do gabinete fssmgn arquitectos lda, responsáveis pela obra de requalificação do espaço.

Foto: mediotejo.net

Fernando Salvador endereçou votos de agradecimento à Câmara, nas pessoas da presidente Anabela Freitas e da vereadora com o pelouro da Cultura, Filipa Fernandes, não esquecendo a Divisão de Cultura do município, na pessoa da coordenadora Ana Soares, e toda a equipa técnica que se envolveu, num coletivo de mais de 20 pessoas, com o objetivo de cumprir com esta requalificação e valorização da “jóia” ali presente.

O arquiteto mencionou que, através da intervenção no edifício do núcleo, se pode denotar “vestígios arqueológicos de valor” e que se vieram a descobrir outros através de escavações no logradouro/pátio da sinagoga, quer no terreno adjacente que “potenciam muitos vestígios de épocas anteriores”.

Por outro lado, na sinagoga o intuito foi “manter o valor patente na matéria física e histórica do espaço”, tendo sido feita restauração compatibilizando os materiais com os já existentes, no sentido de “precaver futuros danos, e salvaguardando o edifício”.

Quanto ao núcleo museológico, pretendeu-se clarificar o espaço, dotando de condições para que pudesse albergar uma exposição de cultura judaica e testemunhos, nomeadamente em peças que constam no mobiliário fixo e móvel.

Também na sessão esteve Paulo Monteiro, um dos responsáveis pela coordenação técnica, nomeadamente no que toca à recolha documental e exposição de objetos, bem como realização do filme de contexto quanto ao território, cujas imagens são projetadas no piso superior do núcleo interpretativo.

O responsável, passando também pelos agradecimentos, lembrou que todo o processo envolveu “a história de uma comunidade e de muitos povos”, muito mais do que um edifício.

“Queremos aqui contar a história daqueles portugueses que faziam parte da cidade, que tinham aqui o seu local de culto, e daqui partiram para o mundo, foram perseguidos e que hoje continuam ainda a ter nesta casa de fé o seu lar. Com 500 anos e que foi recuperado, esta jóia que aqui temos”, referiu Paulo Monteiro.

Ali retratadas estão as pessoas e a fé, procurando-se focar os vários momentos da história da comunidade judaica, “em vários momentos na museografia, através de painéis que abrem ao contrário, porque tem a ver com a forma como o povo judeu lê – ao contrário – e ao abrir, permite ter os conteúdos em inglês do outro lado”, explicou. Também existe um documentário baseado na presença da comunidade judaica em Tomar.

Todos os conteúdos contaram com colaboração da Professora Maria José Ferro Tavares, “a maior especialista sobre os judeus e cristãos novos em Portugal”, disse Paulo Monteiro, acrescentando que está a mesma a escrever um livro sobre a comunidade ao longo de quase 300 anos.

Foto: mediotejo.net

Quanto aos objetos expostos, foram cedidos à comunidade “com muito amor, fé e esperança”, e fazem parte do espólio da sinagoga. A exposição estará em “permanente mudança”, onde haverá circularidade dos objetos em vitrine.

Outra vertente é a interatividade, onde a informação sobre a Inquisição, os Judeus, a Sinagoga, e muitos outros elementos como “todos os homens e mulheres que caíram nas garras do Santo Ofício”.

“É um projeto para explorar, para vir, para descobrir e sobretudo um templo para visitar. É um espaço de História, de memória e de fé. E é uma fé que continua bem enraizado no coração de muitos de nós (…) e é isso que queremos, que seja uma casa de fé, de todos, de esperança e de culto”, concluiu Paulo Monteiro.

Aquele núcleo, será agora um centro que reúne um espólio e narrativa da presença sefardita em Tomar.

Crê-se que o templo hebraico havia sido construído no início do século XV, tendo sido classificado Monumento nacional desde 1921. Segundo Anabela Freitas, a sinagoga tomarense é o segundo monumento mais visitado, logo a seguir ao Convento de Cristo, sendo que em 2018, mesmo estando o espaço em obra e com acesso condicionado, recebeu cerca de 89 mil visitantes.

A intervenção incluiu ainda o edifício contíguo à sinagoga, onde, em escavações realizadas em 1980, se pensa terem sido encontrados vestígios do que foi o local do ritual da purificação e o do fabrico do pão, ainda que Anabela Freitas admita não existir consenso quanto ao assunto.

No piso inferior, estando as ruínas tornadas agora mais visíveis, o espaço passará a poder ser também visitado, embora de forma condicionada e com marcação prévia para pequenos grupos, “por razões de segurança”.

A docente e historiadora Maria José Ferro Tavares, especialista na história dos judeus e cristãos novas em Portugal, fez uma contextualização histórica sobre a presença da comunidade no país e em Tomar, fechando a sessão solene de inauguração deste núcleo. Foto: mediotejo.net

No futuro está a autarquia a trabalhar para a “continuidade” do projeto, tendo sido adquirido um terreno contíguo, com projeto já adjudicado e que será um jardim alocado ao monumento. De momento decorrem escavações arqueológicas no local.

Quanto à criação do Museu Luso-Hebraico Abraão Zacuto, a edil lembrou ser um “sonho” de Samuel Schwarz, judeu polaco investigador da cultura hebraica que adquiriu a sinagoga de Tomar ao Estado português em 1923, dois anos depois da sua classificação como monumento nacional, para a resgatar do estado de abandono em que se encontrava. Schwarz deixou lavrado em escritura pública, aquando da doação do edifício ao Estado em 1939, a sua vontade para que o projeto museológico se cumprisse.

Recorde-se que, com a ordem de expulsão dos judeus no final do século XV, a sinagoga foi transformada em cadeia do concelho e, mais tarde, em ermida da invocação de S. Bartolomeu, sendo que no século XIX chegou a funcionar como celeiro e armazém de mercearias.

Tomar integra a Rede de Judiarias de Portugal, a cuja assembleia-geral preside, sendo um dos objetivos dos 40 municípios da rede fomentar o turismo religioso judaico, sobretudo oriundo dos Estados Unidos da América.

Fotogaleria:

* c/ Lusa

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