Tomar: Luis Filipe Fortunato, o fadista que também sabe costurar xailes

Foi na pequena localidade de Curvaceiras, na freguesia de Paialvo em Tomar, que encontrámos Luís Filipe Fortunato e a sua história singular. À beira dos 30 anos tem no fado, na costura e na arte floral as suas grandes paixões. Falamos de um jovem que, sem hesitar, abriu há dois meses um atelier de costura na sua terra natal, a que deu o nome de LippyFlôr LippyArte – Xailes e Tradição. Falamos de alguém que tem como lema “o sonho comanda a vida” e que se deixa comandar pelo sonho.

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A arte floral também é uma das paixões deste jovem tomarense Foto: mediotejo.net

Para além do fado, Luís Filipe Fortunato decidiu aventurar-se, há cerca de três anos, na área da costura – a fazer sumptuosos xailes para fadistas – mas no seu atelier também se destacam flores, muitas flores. “A arte floral foi desde sempre a minha paixão pelo que também decidi ter um cantinho dedicado às flores. Desde o primeiro dia em que me pediram para fazer uns arranjos para um jovem que faleceu – ainda vivia em França – que meti mãos à obra e começaram a pedir-me cada vez mais”, refere.

Agora que se aproxima a altura do Dia dos Finados quem quiser pode ali adquirir o seu arranjo, poupando uma deslocação à cidade. Já teve porta aberta por duas vezes e duas vezes a fechou mas a vontade de não querer parar no mundo não o desmotivou e, por isso, está a tentar novamente lançar-se no mundo dos negócios.

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O fado entrou na vida de Luís Filipe Fortunato aos sete, oito anos embora “tenha feito carreira a fazer bailaricos” como teclista e vocalista. Um tumor benigno na garganta, aos 19 anos, que o levou até França para ser operado, interrompeu este percurso musical.

“Caiu-me o mundo em cima. Mas, graças a Deus, tive na minha família os meus grandes pilares.Tive que deixar os bailaricos porque era algo que exigia muito por mim. Começávamos às nove da noite até às quatro, cinco da manhã sem parar”, recorda o tomarense que também gostava de ter sido advogado para combater as injustiças no mundo.

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Luís Filipe Fortunato é natural das Curvaceiras, Tomar Foto: mediotejo.net

O facto de ter sido acometido por um problema de saúde não o fez desistir de cantar fado. “Não consigo cantar o fado com o diafragma. Aquilo que eu canto, eu tenho que sentir. E aquilo que eu sinto sai-me da garganta. Não consigo inventar uma voz”, descreve, acrescentando que também escreveu alguns poemas para interpretar.

Numa noite, não sendo o fadista convidado, canta três ou quatro fados na primeira parte e outros tantos na segunda. Não se identifica com o fado de Coimbra mas adora o de Lisboa. O fado canção. “Gosto de sentir o que estou a cantar. O tradicional para mim é tradicional. Não quero copiar ninguém. canto como sei, da minha maneira e à minha maneira. Daí não querer ter aulas de canto. Se eu canto assim, cantarei assim até morrer”, assume. Amália Rodrigues é uma das suas referências mas também se identifica com Lenita Gentil com quem já foi aos Estados Unidos cantar.

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Um dos xailes costurados por Luís Filipe Fortunato Foto: mediotejo.net

A paixão pelos xailes nasceu há dois anos e meio, numa altura em que nem sequer sabia que sabia coser à máquina. Tal como no fado ou na arte floral, Luís Filipe Fortunato é também um auto-didacta nesta área. Tudo começou quando foi a Tomar e pediu à sua tia, Aurora Leiria, a quem chama “mãezinha” para lhe ensinar a mexer na máquina de costura.

E começou a coser xailes por estes estarem ligados ao fado. Os primeiros panos que coseu não saíram bem mas acabou por ir aperfeiçoando a cada tentativa. Hoje em dia, em média, demora meio dia a costurar um xaile. Num dia produtivo, cose dois.

“A minha primeira cobaia foi uma amiga que é fadista, Mónica Baptista, e que me pediu para lhe costurar um xaile e com esse xaile eu vou divulgar o teu trabalho. Estraguei muito pano, ao fim de sete ou oito saiu bem”, recorda, vendendo um a dois xailes a cada duas semanas. “Tenho uma fadista que é a Marlene Vila Nova que todos os meses, eu sei que tenho que lhe enviar um xaile de cor diferente”, refere.

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Em média, demora meio dia a coser um xaile. Foto: mediotejo.net

Primeiro o xaile é cosido, depois enfeitado à sua maneira e, por fim, leva as franjas. Cada franja dependurada no xaile é metida com uma agulha de crochet à mão. Cada tracejado é feito à mão, cada lantejoula é pregada. Alguns xailes que já costurou – e dão nas vistas por serem tão brilhantes quanto exuberantes – estão em exposição no seu atelier. Mas também tem xailes mate. Por norma, o preço base de cada xaile é a partir de 50 euros. “Cada xaile é único, personalizado”, garante, acrescentando que agora vai fazer um xaile para Lenita Gentil, com a bandeira portuguesa todo cravejado a missangas, artista que já o aconselhou a aumentar o preço das suas peças.

Clientes não os encontra na aldeia das Curvaceiras – onde diz que, inclusive, muitos os olham de soslaio – por isso tem que divulgar a sua arte através da Internet e da sua página social do facebook.

Aceita encomendas mas também faz xailes por auto-criação. Daqui a uns tempos, talvez para a próxima Primavera, pretende mudar para uma loja maior, também nas Curvaceiras, onde como nas lojas de noivas, as pessoas podem entrar e escolher um dos muitos xailes em exposição em duas paredes.

A aposta na sua terra natal deriva do facto de não pagar renda, o que lhe permite outra sustentabilidade financeira, até porque tem uma filha para criar. “Este dinheiro que estou a poupar em renda de casa já serve para adquirir tecidos na fábrica ou dão para as obras da outra loja”, atesta quem arregaça as mangas todas as vezes que for necessário para enfrentar as vicissitudes da vida. Confessa que é uma pessoa de fé, que vai regularmente a Fátima. Construiu uma capelinha no seu jardim com a primeira Nossa Sra de Fátima que comprou no Santuário.

Diz que os seus sonhos já estão concretizados: ser reconhecido no mundo da música e ser pai. E quando lhe perguntamos qual é o seu lema de vida, a resposta só lhe podia sair do coração para a boca: “o sonho comanda a vida… e a vida é uma folha ao vento que pode mudar a qualquer momento”.

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