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Sábado, Novembro 27, 2021

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Tomar | História da comunidade judaica em livro põe tónica na tolerância

Maria José Ferro Tavares, considerada a maior especialista portuguesa na História dos judeus e cristãos novos e “a voz do sangue” pela investigação e escrita de matérias tão dolorosas e violentas referentes às denúncias, tortura e acusações da prática do judaísmo junto da Inquisição, lança num novo livro a realidade vivida na comunidade judaica de Tomar, retratando a sua evolução ao longo de quase 300 anos. A historiadora e docente foi também responsável pelos conteúdos e informação que integram o núcleo interpretativo da Sinagoga, inaugurado em outubro de 2019. Esta obra serve também de “grito” e memória por uma sociedade mais tolerante, mais pacífica com a diferença, que saiba conviver com a diversidade, respeitando a liberdade e escolha do outro.

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Apresentado na Sinagoga – a mais antiga do país e o segundo monumento mais visitado em Tomar depois do Convento de Cristo – o livro da historiadora resulta de uma vida de investigação e gosto pessoal sobre a temática do judaísmo.

Foi inclusivamente a responsável pelos materiais e conteúdos que preenchem o Núcleo interpretativo e Museu Luso-Hebraico adjacente à Sinagoga, reunindo ali objetos num espólio físico, mas também informação em equipamentos interativos sobre a Inquisição, os Judeus, a Sinagoga, e muitos outros elementos como dados de “todos os homens e mulheres que caíram nas garras do Santo Ofício”.

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Maria José Ferro Tavares começou desde muito nova, por altura da adolescência, a lidar com os temas do Holocausto e da Segunda Grande Guerra, bem como a Inquisição em Portugal. Muito por influência do avô e do seu pai.

O livro, uma edição municipal, está disponível para venda no posto de turismo e para consulta na Biblioteca Municipal. Foto: mediotejo.net

Por essa razão, tem-se dedicado a este tema e participado ao longo dos anos em inúmeras conferências, publicações e iniciativas, partilhando os resultados de intensa pesquisa e cruzamento de dados.

O livro “Tomar – A comunidade judaica – Entre as teias do judaísmo e do catolicismo”, muito baseado nos processos de Inquisição, motivo pelo qual Maria José Tavares admite que a consulta e recolha não são processos fáceis.

“Este livro mexeu muito comigo, enquanto católica, tenho a maior admiração por estas pessoas”, enquanto “uma comunidade rica, ativa, que foi completamente dizimada”.

O concelho de Tomar, diz, “tinha uma comunidade judaica importante nas relações com a Ordem de Cristo e sobretudo com a família real”, importância essa que na altura era reconhecida nos escritos de Garcia de Resende e Gil Vicente, no Cancioneiro Geral, “mesmo que os gozassem, achincalhassem porque eram cristãos fingidos”.

O que mais fez sofrer a autora foi aperceber-se na investigação que as denúncias de judeus foram feitas por membros de famílias da própria comunidade judaica, como prova de sinceridade da conversão, obrigatoriedade após decreto e que motivou forte perseguição aos sefarditas.

A autora, a historiadora e professora Maria José Ferro Tavares. Foto: mediotejo.net

Todo o seu trabalho incidiu na evolução ao longo de três séculos, num núcleo fechado de famílias, que moravam na judiaria de Tomar, na Rua Direita, em São João, na Corredoura,…, sendo que alguns dos seus membros eram padres e freiras. Até que surge o chama de “tsunami onde as diferentes ondas saíram da própria comunidade judaica”.

Em 15 anos, a comunidade judaica tomarense “foi completamente dizimada”, entre o perdão de 1605 e 1620, desaparece, seja para Lisboa no grupo de penitenciados vivos, ou pela condenação à justiça secular, na fogueira. Outros fugiram para outras partes do mundo, nomeadamente para a Antuérpia.

No final do século XVII e no século XVIII, a comunidade judaica aumenta, mas através de famílias que vinham de outros pontos de Portugal, caso da Covilhã, com a presença de famílias como os Andrade e os Froes.

Também no século XVIII se verificaram ligações esporádicas ao Brasil, com pessoas que vêm para Portugal nessa altura, refere.

Por outro lado, confrontada com os que seguiam o procedimento da Inquisição, denunciando os próprios familiares para serem poupados à morte, num ato de traição mas também para se salvarem a si próprios em total desespero, assume a autora a dureza dos factos, que sentiu na pele ao aprofundar a pesquisa.

“Outros não tiveram essa sorte, e nunca foi possível saber qual foi o seu destino, se foram mortos na fogueira, se foram torturados, se perderam os bens que lhe foram confiscados,…”, admite, referindo que “o problema dos cristãos-novos é que é uma guerra entre ricos e pobres, com inveja e vingança entre irmãos”.

Apresentação decorreu no templo judaico tomarense, na Sinagoga mais antiga do país. Foto: mediotejo.net

Segundo a historiadora, há registo inclusivamente para uma só família que chega a levar “quase 100 pessoas para os cárceres da Inquisição ou transforma-as em fugitivos, obrigando-os a fugir de Tomar e do país” para não serem condenados. Facto que dá que pensar, e nos registos até se observa alusão a esses denunciantes como “família de má rês”.

No livro, destaca a historiadora uma parte referenciada, que diz respeito ao “Ai de Tomar!”, um grito,”numa ameaça que é feita quando um dos filhos do judeu Simão Jusarte, Leonardo, é preso e levado para a Inquisição”, como sendo o subcapítulo que mais lhe “doeu” a escrever e que marca esta investigação sua.

Com o Holocausto a não ser, na opinião da autora, tão mortífero em relação ao Nazismo, reconhece ainda assim, que apesar de não ter havido um número tão grande de mortos, a marca deixada nos que sobreviveram foi profunda e para sempre.

Em pleno século XXI, reconhece que, dadas as notícias veiculadas pela comunicação social por todo o mundo, tal leva a interrogar “será que isto volta?”.

“Todo este meu interesse pelos judeus, é um pouco para «para que a memória não esqueça», para que estas coisas não se tornem a repetir, nem para um lado, nem para outro. Como diz o Papa Francisco, as pessoas têm que se amar”, sublinha Maria José Ferro Tavares, logo aludindo ao facto de Jerusalém ter estado transformado num verdadeiro “palco de guerra”, e considerando que “as pessoas têm que se entender nas suas diferenças, porque são seres humanos e temos que respeitar as diferenças”.

Foto: mediotejo.net

Paulo Monteiro, da empresa Glorybox, um dos responsáveis pela coordenação técnica do Núcleo interpretativo da Sinagoga e pelo trabalho gráfico desta obra de Maria José Tavares, considera-a “a melhor investigadora da temática em Portugal e quem sabe até da Península Ibérica”.

“Todos os municípios adorariam ter um trabalho com esta profundidade, e sobretudo ter uma história milenar de fé”, diz, frisando que a Sinagoga é “um sítio que mostra a história de muita gente que sofreu, e que aqui encontra o seu ente superior”.

O livro é “algo muito poderoso, que mostra histórias de vida que foram determinantes e que mostram outros tempos, que espero que nunca mais voltem. O que importa é o futuro, e esta casa está aberta para o futuro e para todos aqueles que queiram cá vir”, termina.

Da parte do Município de Tomar, concelho que se pretende assumir como “destino ecuménico”, a autarca Anabela Freitas reconhece que o livro tem dupla qualidade, para “ensinar e dar a conhecer aos tomarenses aquilo que foi a presença judaica no território” mas também “levar o território além fronteiras, ao ler o livro sobre Tomar”.

Foto: mediotejo.net

Por outro lado, enfatizou que Tomar, enquanto território onde coexistiram as grandes religiões, desde o islamismo, ao judaísmo e ao cristianismo, quer ser uma cidade assente na tolerância e que valoriza o ecumenismo, considerando que este livro é fundamental para refletir sobre o futuro neste âmbito. “Queremos ser um território tolerante, e tudo fazer para isso”, termina.

Editada pelo Município, com trabalho gráfico da empresa Glorybox, responsável pela conceção do Núcleo Interpretativo da Sinagoga, a obra está disponível para venda no posto de turismo ou para consulta na Biblioteca Municipal de Tomar.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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