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Sábado, Julho 24, 2021

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Tomar: Grupo de Teatro “Fatias de Cá” estreia-se em cinema com “Sonhar Portukália” (C/Vìdeo)

“Não resistir a uma ideia nova nem a um vinho velho” é o lema do Fatias de Cá (FdC), um grupo de teatro profissional e amador criado em 1979 e que tem a sua sede em Tomar. É com base nesta premissa que entra, em 2016, num novo ciclo: a estreia nos cinemas (uma ideia nova) não esquecendo a experiência de quase 40 anos que tem no teatro (o vinho velho), contando com 56 peças em palco, assistidas por muitos milhares de pessoas.

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“Sonhar Portukália” é o nome do filme do Fatias de Cá que vai – se tudo correr como esperado – estrear-se no grande ecrã na próxima Primavera. Foi rodado em 2011 e tem como base verídica um livro com o mesmo nome, escrito por Lyubomir Cholakov, um búlgaro que veio tentar a sua sorte em Portugal há meia dúzia de anos. Chegou a Tomar após se ter metido num carro com o primo. Vieram à aventura uma vez que Portugal surgia como o “El Dorado”: havia trabalho, havia calor e… havia brasileiras. Além das laranjas, que em búlgaro se chamam “Portugal”.

Aqui chegados, o primo de Lyubomir arranjou emprego numa oficina de carros junto à ponte do Flecheiro e ele arranjou uns biscates na vindima para Carvalhos de Figueiredo. O primo foi para Espanha onde se ganhava mais. Ele retornou à Bulgária mas continua a ter como foto de capa na sua página de facebook uma imagem da cidade templária.

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Lyubomir Cholakov
Lyubomir Cholakov. búlgaro que deu mote ao filme

“Há uns tempos que nos andávamos a dedicar a filmar as peças que fazíamos num misto de ficarmos com uma memória/um documento e de penetrarmos nessa nova forma de comunicação que é o cinema para tentarmos prolongar o ato cultural”, refere Carlos Cavalheiro, encenador do Fatias de Cá. Para o encenador, “o teatro é um momento que se vive pelas pessoas que assistem mas não conseguem passar mais do que a sua própria opinião. Já o cinema  – com todos os inconvenientes que tem – contém vantagem de passar para a Indústria Cultural, atingindo uma maior margem de pessoas”, atesta.

O Fatias de Cá pensou, pela primeira vez, em fazer um filme quando estreou o “Corto Maltese” na Destilaria da Brogueira, em Torres Novas. Decidiram filmar a peça, sem público, e acabou por ser editado mais tarde. Em 1996 repetiram a experiência com as Ligações Perigosas, filmados no Convento de Cristo. Ambos foram editados e este último acabou mesmo por ser estreado em Tomar, sendo o filme oferecido em DVD a quem comprasse o ingresso.

“Achamos que era mais fácil fazer cinema que teatro e começámos a filmar as peças que estávamos a fazer com a preocupação de filmarmos os actores mais velhotes que, pela ordem natural da vida, partem mais cedo. Quem está a ver o filme é como se estivesse a ver o teatro”, explica.

Dessas experiências de filmar peças de teatro evoluíram para a ideia de fazer um filme a sério. O encenador conta ao mediotejo.net como tudo começou. Conheceu Lyubomir Cholakov, em 2007/2008 através do seu amigo arquitecto Sebastião Nobre (já falecido), que lhe apresentou uma ideia de um búlgaro, que estava a pensar fazer em Tomar teatro durante 24 horas. Quando leu o projecto, Cavalheiro concluiu que, afinal, havia no mundo gente tão “maluca” como ele. Tinha de conhecer este Lyubomir. “Contactei-o, combinamos um encontro de fim de semana na Bulgária, ele contou-me a sua aventura portuguesa, divertimo-nos imenso… E eu digo-lhe: “Tu devias era escrever isso em livro”. E ele responde: “É o que estou a fazer.”

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Carlos Cavalheiro, encenador do grupo

O livro foi escrito e publicado na Bulgária. Mais tarde arranjaram um tradutor para perceberem o que é contava. “Gostámos da história e acabámos por decidir passar o ‘Sonhar Portukália’ a filme”, explica, acrescentando que se passa num ano de Festa dos Tabuleiros.

O filme foi rodado em Portugal (não faltando Tomar e um pouco por toda a região centro), Espanha e na Bulgária, com os atores do grupo Fatias de Cá e alguns figurantes, onde não falta o próprio Lyubomir Cholakov. O livro aborda o enorme fascínio que ele sentiu quando se confrontou com Tomar, terra a que ele chama “a cidade mágica”, existindo partes do filme que incluem imagens da Festa dos Tabuleiros de 2011.

O filme, com duração de uma hora e meia, poderá vir a ser distribuído não só em Portugal como no estrangeiro. Para muitos atores do Fatias de Cá, foi a sua primeira experiência em cinema. Carlos Carvalheiro descreve-o como uma “epopeia” de alguém que faz uma viagem e acaba por embarcar numa experiência que o vai mudar para sempre. “É uma viagem de descoberta de si próprio no confronto com um sítio especial. Transporta para os olhos de um estrangeiro o fascínio que Tomar exerceu sobre ele”, resume.

Nele são relatadas as peripécias da viagem do Búlgaro (aqui protagonizado por Carlos Carvalheiro) por Espanha, a tentativa falhada de arranjar emprego em Almeida e a chegada a Tomar, com o castelo iluminado lá em cima. Quando o primo lhe pergunta: “Que será que nos espera nesta cidade?”, ele responde mais a si do que ao primo: “Seja o que for, aqui está”, vê-se no trailer. O começo e o fim do filme  tem como palco a Bulgária.

O grupo já tinha algumas peças filmadas tais como “Corto Maltese” e  “As Ligações Perigosas” mas este é o primeiro projecto pensado como filme, indicando que o grupo se prepara para um novo ciclo, cumpridos que estão os seus primeiros 36 anos de existência. “O cinema surge como uma aposta de nós, Fatias de Cá, aprendermos mais coisas”, sintetiza Carvalheiro.

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O Fatias de , criado em 1979, na Sociedade Nabantina em Tomar, legalizou-se em 1982 como associação cultural vocacionada para o teatro.

É assumido pelo Ministério da Cultura como entidade com actividade teatral de âmbito profissional em 1998. Recebe o estatuto de utilidade pública em 2001. Entre 1979-1982, o grupo nasce com um grande sucesso, “Fatias de Cá com Nini Ferreira”, um serão cultural realizado em 10 de Junho de 1979.

São também criadas novas estruturas culturais que foram uma espécie de pedrada no charco no marasmo cultural tomarense. Foi quando resultou um diferendo com a direcção eleita em 81 o que provocou a saída da Nabantina.

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Carlos Carvalheiro numa das muitas atuações

“Os mil dias que abalaram a Nabantina (79/82) é o tempo do nascimento, que se constitui como uma espécie de pedrada no charco no marasmo cultural tomarense; o seu espectáculo “O Con(s)certo” de Karl Valentim (81) foi apresentado por todo o País e permitiu o início da visibilidade do então grupo amador”, descreve a súmula histórica do grupo.

Entre 1982 e 1986 o grupo “Fatias de Cá” não consegue encontrar um espaço para ensaiar, tendo que aproveitar todas as momentâneas cedências de espaço. O espectáculo mais marcante deste período terá sido “O Con (s)certo” de Karl Valentim, estreado na Nabantina em 1981 e apresentado por todo o país. Em 1984 o grupo leva avante a ideia de fazer 14 “Fatias de Bar É…”, lançando um desafio cultural na “noite” tomarense. Mas foi também neste período que se começaram a sentir dificuldades económicas, muito das quais derivadas dos prejuízos resultantes do Festival de Teatro de Tomar em 1982 (e onde participaram, entre outros, a Comuna, a Barraca, a Cornucópia, o Bando, Mário Viegas e José Mário Branco).

O espectáculo mais marcante de 1984 foi “A Menina Inês Pereira”, a partir de Gil Vicente, estreado no Convento de Cristo-Tomar, onde também foi organizado o 1º Festival de Teatro de Tomar.

Entre 1987 e 1991, o Fatias de Cá projecta-se a nível internacional. Chama-lhe “o tempo das vacas gordas”. Participa em festivais na Europa, América e Ásia com “A Fuga de Wang-Fô” a partir de Marguerite Yourcenar, “Hamlet”de Shakespeare ou “Homlet” a partir da banda desenhada de Gotlib e Alexis.

Em 1988, por exemplo, dinamiza a oficina “Queremos Aprender Teatro”, com o Sonho de uma Noite de Verão, de  William Shakespeare. Leva ainda a cena, em 1989, a Crónica dos Bons Malandros, a partir do romance de Mário Zambujal. Seguem-se muitas peças em palco: “A Sapateira Prodigiosa” (Frederico Garcia Lorca, 1990) “Carmen”, (a partir da ópera de Mérimée e Bizet, versão Ana Paula Eusébio, 1990); “A Fera Amansada” (William Shakespeare, 1990); “A Comédia da Marmita” (a partir da peça de Plauto, versão Carlos Carvalheiro, 1991), A Flauta Mágica (a partir da ópera de Mozart e Shikaneder e do romance “Filha da Noite” de Marion Z. Bradley, versão Carlos Carvalheiro, 1991) e Timor (Autores Vários, versão Carlos Carvalheiro, 1991).

T DE LEMPIKA
“T de Lempicka” de John Krizanc , 1998

Entre 1992 e 1995 o grupo passa por um período de resistência a que chama “o tempo das vacas magras”. Estreia duas comédias de Alan Ayckbourn “Confusões” e “A Comissão de Festas”, constituindo-se como alicerce da futura vertente profissional. E ainda “A Menina Feia” (a partir da peça de Manuel Frederico Pressler, versão Carlos Carvalheiro, 1992), “Confusões” ( Alan Ayckbourn, 1994) e “A Comissão de Festas” ( Alan Ayckbourn, 1995).

Entre 1996 e 1999, o grupo tomarense conhece a diáspora. É o tempo em que o FdC demonstra a sua capacidade de fazer deslocar, regularmente, públicos dos grandes centros para ver teatro, como “As Ligações Perigosas” a partir de Choderlos de Laclos (96) e “Tanegashima” a partir de Fernão Mendes Pinto e Nampo Bunshi, em parceria com a companhia japonesa Takebue (98), “T de Lempicka” de John Krizanc (98) que atingiu as 200 apresentações em 2010, “Viriato” a partir de João Aguiar (99) ou “Sonho de uma Noite de Verão” de Shakespeare(2000).

O ano de 1996 mostra em cena “As Ligações Perigosas”, a partir do romance de Choderlos de Laclos e da peça “Quarteto” de Heiner Müller. A peça conta com os contributos da peça “The dangerous Liaisons” de Cristopher Hampton e do filme “Valmont”de Milos Forman com argumento de Jean Carrière, versão Carlos Carvalheiro. Há ainda a registar “Tanegashima”, a partir das narrativas “Peregrinação”de Fernão Mendes Pinto e “Teppo-Ki” de Nampo Bunshi (versão Carlos Carvalheiro e Isabel Passarito, 1997); Tanegashima-Hoi! (Autores Vários, 1998); Tanegashima (Carlos Carvalheiro, 2004), Xanana Gusmão – Liberdade, Liberdade! (Autores Vários, versão Carlos Carvalheiro, 1997) e “T de Lempicka” (John Krizanc, 1998).

Entre 1999-2003, o Fatias de Cá vive um ciclo que auto-denomina como “o tempo dos heróis”. Um tempo em que são implementados núcleos do FdC -Barquinha, Chamusca, Coimbra, Constância, Lisboa, Ourém, Torres Novas – assumindo-se como centros de produção teatral.

Daqui resultaram espectáculos em locais não convencionais como a Destilaria da Brogueira, Torres Novas (“Corto Maltese”), Castelo de Ourém (“A Tempestade”), Museu Machado de Castro, Coimbra (“Astérix no Criptopórtico”), os teatros no rio Tejo de Tancos e Arripiado (“Alcacer Kibir” em parceria com a companhia marroquina La Voile) ou a Quinta das Lágrimas (“Inês”).

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Corto Maltese, 2001

Em 2001 surge “Corto Maltese” – concerto em O’menor para harpa e nitroglicerina, a partir da banda desenhada de Hugo Pratt, – (versão Carlos Carvalheiro, 2001). De destacar também “A Tempestade”, A partir da peça de William Shakespeare (versão Carlos Carvalheiro, 2001). No ano de 2003 chega “Inês de Portugal” a partir do romance de João Aguiar (versão Carlos Carvalheiro, 2003)

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Muitas das peças do grupo decorrem em monumentos históricos

O grupo conhece, entre 2003 e 2006, “o tempo dos rituais”. Tempo de alicerçar o FdC enquanto companhia que convive com uma pequena vertente profissional e uma vasta vertente voluntária, e com a abertura a parcerias internacionais consubstanciadas pela criação do FdC-Marrocos e Bulgária. Destaca-se “O Nome da Rosa” a partir de Umberto Eco, estreado em 2004 no Convento de Cristo, Tomar, envolvendo um elenco vasto, atingiu em 2010 as 200 apresentações.

Exemplos disso são “A Festa de Babette”, a partir do conto de Karen Blixen, (versão Carlos Carvalheiro, 2005), “O Equador passa em S. Tomé e Príncipe” (Carlos Carvalheiro e Ana de Carvalho, 2005) e o inesquecível “Tomar em Revista” (Carlos Carvalheiro, 2006)

Entre 2006 e 2009 o FdC vive aquilo que chama de “tempo dos mágicos”, onde joga com a sintomática a criação da trilogia “Contos do Fascínio”, baseada no universo de Úrsula le Guin, cujas parte 2 e 3 já foram estreadas: “O Anel Quebrado” na Quinta da Regaleira, Sintra e “As Pegadas dos Dragões” em Ourém.

REI LEAR
Rei Lear, 2015

Já entre 2010 e 2012 vive o “tempo do memorial” dedicando a sua arte a Richard III, a partir da peça de William Shakespeare, (versão Carlos Carvalheiro, 2010);  A Encomendação das Almas, a  partir do romance de João Aguiar (versão Carlos Carvalheiro, 2011) ou Momo, a partir do romance de Michael Ende (versão Carlos Carvalheiro, 2012)

O “tempo dos legados” é o ciclo que o grupo vive entre 2013 e 2015 com as peças “Colaboracionistas”, a partir da peça Collaborators de John Hodge, (versão Carlos Carvalheiro, 2013), “O Aprendiz de Feiticeiro” (Contos do Fascínio 1), a partir do universo de Ursula K. le Guin, (versão Carlos Carvalheiro, 2013) ou “A utopia de Thomas More”  a partir da peça “A Man for all Seasons” de Robert Bolt, (versão Carlos Carvalheiro, 2013)

Em 2014, o grupo encena “Dom Quixote” a partir do romance “El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha” de Miguel de Cervantes, versão Carlos Carvalheiro, sendo que em 2015 se destaca com “Lear”, a partir da peça “King Lear” de William Shakespeare e do filme “Ran” de Akira Kurosawa, (versão Carlos Carvalheiro, 2015).

Eis que chegados a 2016 –  após mais de cinco dezenas de peças de teatro encenadas – o grupo de Teatro, constituído por cerca de cem atores voluntários, está pronto dar o salto para a sétima arte.

“Estamos abertos a novas experiências e percebemos que há mecanismos de antigamente que necessitam de ser preservados porque sem eles não sabíamos para onde devemos ir”, resume o ator e encenador Carvalheiro.

Aos 12 anos já queria ser jornalista e todo o seu percurso académico foi percorrido com esse objetivo no horizonte. Licenciada em Jornalismo, exerce desde 2005, sempre no jornalismo de proximidade. Mãe de uma menina, assume que tem nas viagens a sua grande paixão. Gosta de aventura e de superar um bom desafio. Em maio de 2018, lançou o seu primeiro livro de ficção intitulado "Singularidades de uma mulher de 40", que marca a sua estreia na escrita literária, sob a chancela da Origami Livros.

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