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Terça-feira, Janeiro 18, 2022
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Tomar | Fundição Tomarense, a história da última indústria da Levada contada num novo espaço de memória (c/áudio)

O Complexo Cultural da Levada ganhou um novo espaço museológico, permitindo assim a preservação da memória e da História daquele importante complexo industrial tomarense que faz parte do património e identidade do concelho. A Fundição Tomarense, que laborou desde o final do século XIX até 2005, abriu portas noutro contexto este sábado, dia 27, permitindo a visita e fruição do espaço, bem como o conhecimento sobre a produção e vida laboral da indústria do ferro, naquela que foi a última empresa a laborar na Levada de Tomar. Depois da musealização da Central Elétrica e da Fundição, seguem-se os trabalhos para abrir ao público o núcleo da Moagem.

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Este é um projeto que integra a reabilitação e requalificação do Complexo Cultural da Levada, enquanto equipamento cultural e turístico, que tem por objetivo não só a preservação da memória material e imaterial da Fundição Tomarense, mas também para afirmação de Tomar no quadro do turismo industrial.

A sua inauguração contou a presença e envolvimento da família Cotralha, proprietária da extinta empresa, e com o contributo de alguns antigos funcionários.

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Recorde-se que a Fundição Tomarense pertencia aos Cotralha, depois de este chegar à cidade com a família, através do sogro, o fundidor Albertino Marques que adquiriu parcialmente a fundição quando se mudaram para Tomar.

Albertino Marques, João Cotralha e Adriano Cotralha. Foto: DR

Adriano Cotralha, mais tarde, veio a trabalhar naquela unidade e adquiriu parte da mesma a Luiz António da Silva, o grande proprietário da fundição – nascendo a Fundição Tomarense Adriano Cotralha & Filhos, Lda.

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Naquela altura chegou a contar com mais de 50 colaboradores na empresa, tendo vindo profissionais de outros pontos do país, nomeadamente de Coimbra, cidade onde se concentravam então as grandes indústrias metalúrgicas. Foi o auge desta indústria tomarense, onde se observou grande dinamismo económico.

Na fase final da Fundição, é João Cotralha, filho de Adriano [que faleceu em 1985] e neto de Albertino Marques, que assume a direção da empresa até ao seu fecho, em 2005. João Cotralha faleceu em 2010.

Foto: DR

Nesta síntese da história da Fundição de Tomar entram inevitavelmente as vozes de quem ali laborou, sujou as mãos, trabalhou no duro, entre o quente do forno e o frio das bancadas da serralharia, ou a descarregar e carregar a areia. 

Foram alguns dos antigos trabalhadores que ajudaram na inauguração a recuar no tempo e contar a história das máquinas, ferramentas, cada posto, canto e recanto, agora adaptado numa viagem pela antiga serralharia e fundição, no então Complexo Industrial da Levada.

Juntamente com atores do Espaço 0-Artes Comunicantes, fizeram uma recriação teatral onde foram contando episódios das suas profissões e dos tempos em que ali trabalharam juntos.

Todos os pormenores contam, até o do moço que sai de bicicleta para fazer recados e ir buscar encomendas na cidade. De batas envergadas, mais maduros e calejados, tempo de lembrar o lugar onde pertenceram e que lhes pertenceu.

Feliciano Nunes, José Nunes e Manuel Casimiro, antigos funcionários da Fundição Tomarense. Foto: mediotejo.net

É o caso de Feliciano Nunes, 67 anos, de Tomar. Foi oficial de torneiro, ingressando em 1980. Trabalhou 26 anos naquela unidade industrial. Depois do fecho, Feliciano ainda deu mais dois anos à casa.

Orgulha-se de ostentar a medalha do último operário da Fundição no final de 2005, quando encerrou, mas também o último trabalhador de todo o Complexo Industrial da Levada.

A sua história com a Fundição começou mais cedo, aos 14 anos, quando tentou ali ser aprendiz de torneiro. Como a concorrência era muita, tentou a sorte noutras oficinas.

Quando mais tarde voltou, já como oficial de torneiro, nunca imaginou que além de ser o trabalhador a fechar a porta pela última vez, foi também o último operário a laborar naquele Complexo Industrial, entrando para a História.

ENTREVISTA | Feliciano Nunes, o último operário da Fundição Tomarense e de todo o Complexo Industrial da Levada

 

José Nunes, 74 anos, foi serralheiro de bancada. Entrou em 1964, com 17 anos. Em 1986 saiu e procurou outros destinos, precisava corresponder às necessidades da sua vida. Trabalhou ali 22 anos.

Uma das histórias que tem para contar é do dia em que foi o transporte de emergência de um camarada que se tinha queimado, e não se encontrando as chaves da carrinha, José Nunes agarrou no colega e carregou-o até ao gabinete médico mais próximo, o do Dr. Tamagnini. “Só me faltava mesmo o pirilampo, fui a ambulância naquele dia”, recorda.

Defende que apesar de estas indústrias irem modernizando, tem de existir “polivalência”, porque é uma atividade que precisa de mão humana para trabalhar com as máquinas, e por isso profissões como a de serralheiro mecânico ou de manutenção, são sempre precisas.

“Por muitas peças que sejam feitas e que sejam só peças compradas sem serem feitas à mão, tem que haver sempre quem as monte. Elas não vão para o lugar sozinhas. (…) Para as montar, tem que haver quem as monte, porque a internet não as põe no sítio”, afirma.

ENTREVISTA | José Nunes, serralheiro de bancada durante 22 anos

O mais novo dos três, Manuel Casimiro, é torneiro mecânico. Ao tirar o curso, veio pedir emprego a João Cotralha, que liderava os desígnios da unidade industrial na altura.

Apesar de Casimiro admitir ter apanhado “um choque” por ter aprendido com máquinas muito mais modernas e ali se deparou com máquinas, ferramentas e métodos muito diferentes dos que conhecia.

O torno parava por tudo e por nada, e chegou a ter que fazer a sua própria ferramenta para nele trabalhar. “Nunca na vida tinha feito isto!”, assume.

Durante a encenação, com atores e os antigos funcionários, houve momento para a bucha da tarde com paio, pão e tinto. Ali se recordaram algumas histórias, como a de José Nunes que foi socorrista de um colega que se queimou, carregando-o na falta de carrinha ou ambulância. Ou do outro camarada que gostava de parar na tasca, e com um copo ou outro, se esquecia de trazer os cântaros com água para a Fundição e um dia foi descoberto pelo patrão, ao mentir, jurando que os cântaros se haviam partido. O patrão tinha encontrado os cântaros deixados ao Deus-dará, e meteu-os na carrinha. Foto: mediotejo.net

A sua sorte foi o apoio de outros colegas, caso de Feliciano, que o ajudaram e encaminharam. Trabalhou seis anos na serralharia da Fundição, que diz ter sido a sua escola. “Quando saí, tinha bases para pegar numa peça, para fazer qualquer tipo de serviço. Até soldadura. Aprendi a soldar aqui”, refere.

Até hoje diz que estes ensinamentos lhe têm valido profissionalmente, pois não tem tido qualquer problema de adaptação seja qual for a empresa ou desafio onde se integre.

Caso para se dizer que a necessidade causada pela antiguidade das máquinas aguçou o engenho, e o facto de ter sujado as mãos e procurado saber mais, ajudou a criar as bases para o torneiro que é hoje.

“Penso que fui o último torneiro que entrou aqui. E estive cá seis anos. Saí em 1996. Passei aqui muito, e aprendi muito”, assume, com emoção.

ENTREVISTA | Manuel Casimiro, o último jovem aprendiz de torneiro mecânico que passou pela Fundição

Este projeto de musealização do património industrial da Levada segue uma estratégia trabalhada internamente, no Município de Tomar, e em parceria com o IPT.

Patrícia Romão, responsável pelo Gabinete de Museologia e Património Cultural da Divisão de Turismo e Cultura do Município de Tomar e coordenadora do projeto de musealização do património industrial edificado do Complexo Cultural da Levada, falou na forma como este núcleo foi pensado, de onde sobressaem dimensões distintas: científica, técnica e humana.

Foto: mediotejo.net

O Núcleo Museológico da Fundição Tomarense é composto pelo espaço da serralharia e o da fundição propriamente dita, mostrando os diferentes ciclos de preparação, produção e acabamento do ferro.

Podem ser observadas in situ a maquinaria, ferramentas, equipamento industrial e espaços da unidade, inseridas numa visita estruturada que passa pela Fundição Tomarense, pelo forno Cubilot, pela preparação das areias e crivagem, pela preparação dos moldes e caixas de moldação, avançando para a Estufa e Lagar de Martim Telles, o acabamento dos moldes e a oficina, a forja, a zona da maquinaria, o Lagar do Secretário e o escritório.

ÁUDIO | Patrícia Romão, coordenadora do núcleo museológico

“A dimensão humana teve uma carga muito importante neste processo todo, porque este espaço ainda diz muito e ainda fala a muita gente. Muitos tomarenses encomendaram objetos que têm nas suas casas, nomeadamente o ferro fundido nas janelas, nos bancos. Encontramos muitos objetos na cidade que foram fabricados pela Fundição Tomarense”, enumera.

Por seu turno, Anabela Freitas, presidente da autarquia tomarense, frisa o legado deixado pelas empresas que funcionaram no Complexo Industrial de Tomar, que “alimentou durante décadas as famílias e a economia do concelho”, agora surge com uma nova vida, transformado num Complexo Cultural, fazendo uma transição para o século XXI e afirmando Tomar no plano do turismo industrial.

Foto: mediotejo.net

A autarca deixa nota sobre o projeto que tem sido desenvolvido entre os funcionários do Município e o Instituto Politécnico de Tomar, “numa parceria virtuosa”.

ÁUDIO | Anabela Freitas, presidente da Câmara Municipal de Tomar

Começando por se referir à importância da memória para o futuro, para a passagem às gerações vindouras sobre o passado identitário de Tomar, admite que este é o desígnio primário deste tipo de espaço museológico do CC Levada, o de preservar a memória.

“Todos os tomarenses estão de alguma forma ligados a este complexo industrial (…) está no nosso ADN enquanto tomarenses a questão industrial”, defende, crendo que “exatamente da mesma forma que temos orgulho em sermos descendentes dos templários, também temos de preservar e levar além fronteiras o nosso passado industrial”.

Anabela Freitas, presidente da CM Tomar, defende que estes espaços devem ser multifuncionais e polivalentes na sua utilização e fruição. “Mais do que estarmos a ver as máquinas en su sitio, mais do que estarmos a ver testemunhos de trabalhadores que viveram ali a sua vida, aquele espaço também tem outras funções. Podem-se contar outras histórias em cima daquele espaço. Os espaços têm que ser visitáveis, mas também podem ser utilizados para apresentação de livros, para um espetáculo de teatro, para um espetáculo de dança, para aquilo que a imaginação nos ditar”, diz.

Foto: mediotejo.net

Depois de aberto ao público o núcleo museológico da Central Elétrica, e agora o da Fundição, segue-se no futuro o trabalho no espaço da Moagem. Assim prossegue a estratégia municipal para a Levada de Tomar, como motor de desenvolvimento económico por via da cultura, mas onde ressalta uma intenção primordial: devolver o Complexo Industrial de Tomar aos tomarenses, sob a forma de Complexo Cultural, enquanto um espaço que “é de todos”, termina.

FOTOGALERIA

 

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HORÁRIO: Aberto ao público de terça-feira a domingo, durante o período de inverno (de outubro a março), das 10 às 12 horas e das 14 às 17 horas, e durante o período de verão (de abril a setembro), das 10 às 13 horas e das 14 às 18 horas.

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Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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