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Tomar | Fábrica de Papel do Prado: ex-trabalhadores pedem para não serem esquecidos

Respostas. Sentir que não são esquecidos. Que vão receber o dinheiro que lhes devem. É isso que os ex-trabalhadores da Fábrica “Prado Karton”, em Tomar, desejam nos dias que correm. Os portões fecharam em junho de 2017 mas sente-se por parte destes homens uma ligação emocional ao local. O processo de insolvência continua a decorrer no tribunal de Santarém mas até agora não há soluções à vista. Reunidos na sexta-feira, 13, em plenário – após seis meses à espera de solução para a venda das instalações – os trabalhadores pretendem que a Comissão de Credores nomeada funcione para que o processo não se enleie nas teias do tempo.

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Manuel Patrício, antigo diretor financeiro da empresa – que chegou a ter mais de 400 trabalhadores – , trabalhou na Prado durante 31 anos, refere que os valores das indemnizações (valores devidos por perda de posto de trabalho) a atribuir já estão definidos faltando conseguir arranjar fundos para começar a pagar. O que se pretende é que se vendam as atuais instalações para se poder pagar não só aos trabalhadores como a outros credores, a maioria bancos e a outra empresas do grupo, nomeadamente uma Fábrica de Cartolina na Lousã. Os créditos ascendem a 16 milhões de euros.

Ex-trabalhadores voltaram à fábrica um ano depois de ter fechado portas Foto: mediotejo.net

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“Temos conhecimento que existem interessados em adquirir a fábrica mas desconhecemos se já existem propostas concretas. E agora, recentemente, dada a disparidade dos número das duas avaliações, soubemos que o administrador da insolvência quer uma terceira avaliação para dissipar dúvidas para se sentir mais confortável em relação ao valor das venda”, disse.

A fábrica, contou ao mediotejo.net, não foi abandonada e tudo foi mantido como no último dia em que funcionou. “As máquinas foram paradas mas depois fez-se uma certa manutenção”, refere. Quem comprar a fábrica de cartão, diz, vai ter a vida facilitada para a colocar a funcionar, se conseguir arranjar os recursos humanos especializados, uma vez que alguns dos trabalhadores que saíram já foram recolocados em outras empresas.

Manuel Patrício trabalhou no Departamento Financeiro da Fábrica do Prado durante mais de 30 anos Foto: mediotejo.net

Apesar de ter saído antes de 2017, Manuel Patrício, 64 anos, mantém uma ligação afetiva à empresa. Foram muitos anos a viver por dentro a história desta indústria, de 1985 a abril de 2016.  Recorda que foi parar à Companhia de Papel do Prado pela maneira convencional, respondendo a um anúncio de emprego, tendo indo substituir uma colega de curso na área financeira.

“Entrei numa altura em que a fábrica estava a passar grandes dificuldades. Esta empresa chegou a ter cinco fábricas de papel (Marianaia, Sobreirinho, Vale Maior em Albergaria-a-Velha, Prado e Lousã) e dedicava-se a fabricar, entre outros, os famosos papel almaço, o papel de 25 linhas e o papel selado, e o papel selado. Estes papéis que serviam para requerimentos acabaram por deixar de servir porque as burocracias simplificaram-se”, explica.

O encerramento da Prado Karton, em junho de 2016, representa o fim da grande indústria tomarense Foto: mediotejo.net

Conta que, nos anos 70, a empresa que era detida pelo grupo Champalimaud, adquiriu uma máquina que ficou retida por razões políticas e encaixotada na alfândega. Em 1975, por pressão dos trabalhadores da Prado, conseguiu-se que essa máquina fosse desempacotada e instalou-se a mesma em Tomar.

Devido a esta situação, a empresa arranjou uma dívida de cerca de 70 mil contos sendo que, por causa das taxas de juro, em 1986 chegou-se a uma “situação incomportável” com a empresa a ter uma dívida que ascendia a mais de 2 milhões de euros.

A restruturação no final dos anos 80 por via do acordo de assistência

Foi então que se tomaram uma série de decisões que passaram por montar a máquina para produzir cartão e avançar com a restruturação financeira, tendo sido assinado em 1986 um acordo de assistência com os bancos e com uma entidade que assumiu um papel de árbitro, a Parempresa.

“Penso que se fizeram muitos acordos de assistência para reestruturação de dívida, sendo que a Prado deve ter sido a única que cumpriu até ao último tostão o pagamento do mesmo”, refere. O resto da década de 80 e toda a década de 90 foram anos de recuperação, tirando a empresa da situação de falência técnica.

“As empresas foram reestruturadas e foram feitos grandes investimentos, tendo fechado todas as fábricas menos a de Tomar e a da Lousã”, atesta. Manuel Patrício conta que nunca mais se esquece do último cheque passado para pagar o acordo de assistência.

A 10 de junho de 1875 foi constituída a “Companhia do Papel do Prado”, pela junção da Fábrica de Tomar com a Fábrica do Penedo Foto: mediotejo.net

A Papel do Prado fabricava cartão para embalagem, sendo líder de mercado nacional e cinquenta por cento da sua produção era exportado para o mercado espanhol, por via da adesão de Portugal à antiga CEE.  Chegou a fazer-se uma ETAR – Estação de Tratamento de Águas – para captar a água do Rio Nabão, uma vez que havia uma levada que entra dentro das instalações da fábrica. À água era tratada e entrava na produção, sendo devolvida limpa.

“Fizeram-se investimentos no campo de energia e para que a mesma tivesse o mínimo impacto negativo ambiental”, recorda. Já a Fábrica da Lousã dedicava-se (e dedica-se atualmente) ao fabrico de cartolinas que eram exportadas para todo o mundo.

Manuel Patrício recorda que foram anos de muito investimento e muito progresso, sendo que no final dos anos 90 a empresa não tinha qualquer dívida bancária e tinha, inclusivamente, aplicações financeiras.

Da crise de 2008 ao fecho em 2016

Contrariamente ao que se possa pensar, na Fábrica de Papel do Prado trabalhavam muitas senhoras, nomeadamente no sector da Embalagem. “Era um trabalho que requeria alguma destreza, fazia-se a contagem das folhas, que eram cortadas com um formato de 70 cm X 100, sendo contadas às resmas para serem embaladas. As senhoras conseguiam fazer a contagem de uma maneira que era digna de se ver”, recorda. Manuel Patrício refere que a máquina de cartão funcionava 24 horas sob 24 horas, tendo um grupo de 20 pessoas que trabalhava por turnos para assegurar o seu funcionamento pleno.

Com as nacionalizações a Fábrica passou para a Portucel que no final de 90 avançou para a privatização sendo que ganhou um grupo liderado pela CGD e da qual fazia parte uma empresa financeira que Finpro e ainda a empresa Copam (que vendeu a sua parte alguns meses depois de ter ganho o concurso). Manuel Patrício conta que as coisas não correram bem, sendo que a partir de 2008, com a crise, a empresa entra em declínio.

“A Finpro teve problemas com investimentos que tinha no estrangeiro, e perdeu imenso dinheiro em Espanha e Inglaterra e isso refletiu-se entrando em insolvência. Nessa altura a empresa sentiu esses efeitos com a particularidade de pela primeira vez os nossos dois produtos (cartão e cartolina) não se complementarem”, recorda. Nessa ocasião, em 2003, a empresa passou de “Companhia de Papel do Prado” para a “Prado Karton” em Tomar e “Prado Cartolinas” na Lousã. Por esta altura, já tinham saído muitos trabalhadores por via do progresso e de investimentos que dispensaram mão-de-obra, mas sempre por acordo com trabalhadores, uns que saíram para a reforma outros que saíam a pedido.

Manuel Patrício recorda a ascensão e queda deste império industrial Foto: mediotejo.net

Em abril de 2006, entram novos administradores para a Prado Karton e começa aqui o princípio da desmantelação da empresa. A sociedade portuguesa gestora de “private equity”Atena adquiriu à massa insolvente da Finpro e à Caixa Geral de Depósitos, verificando-se a partir daí dificuldades financeiras para a aquisição de matéria-prima.

Até aí nunca se verificaram salários em atraso e os compromissos com os fornecedores eram cumpridos. A empresa da Lousã continuou a laborar bem, ao contrário da de Tomar. “Os anos de 2014, 2015 e 2016 foram anos para preparar a operação de venda, sendo que os novos donos entram em abril de 2016, tendo decidido suspender a laboração por seis meses o que surpreendeu os trabalhadores”, lembra. Começou a instabilidade e instalou-se a falta de confiança nos clientes.

“Ficámos surpreendidos por continuarmos parados mas, como era uma nova administração, achámos que estavam em transição. Até que instituíram o PER – Plano Especial de Recuperação que nunca apareceu. Penso, muito honestamente, que não tiveram interesse nenhum em recuperar a empresa. Caindo o PER a fase seguinte é a insolvência”, recorda, acrescentando que, entre 2016 e 2017, perderam-se cerca de 110 postos de trabalhos, sendo que 70 deles ainda têm indemnizações a haver. “Penso que o objetivo era fechar, para não perderem mais dinheiro, porque a sua mais valia está na outra fábrica da Lousã que continua dar os seus dividendos”, considera.

Manuel Patrício refere que, em 2016, tinham conseguido a certificação para produzir a embalagem do McDonalds, o que permitiria que a empresa se relançasse. Mas este negócio caiu por via da “inércia” da atual administração, deixando no desemprego o que ele chama “muitos homens que são velhos novos”, gente que reconhece como dedicada e de qualidade, que sabe trabalhar de verdade.

“Felizmente que, paulatinamente, estão a encontrar novos postos de trabalho mas vai haver uma franja que, infelizmente não vai conseguir”, disse, acrescentando que o fecho da fábrica foi um fim triste porque não era esperado. Desejo que não seja o fim, independentemente da forma que venha a assumir no futuro”, atesta.

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Elsa Ribeiro Gonçalves
Aos 12 anos já queria ser jornalista e todo o seu percurso académico foi percorrido com esse objetivo no horizonte. Licenciada em Jornalismo, exerce desde 2005, sempre no jornalismo de proximidade. Mãe de uma menina, assume que tem nas viagens a sua grande paixão. Gosta de aventura e de superar um bom desafio. Em maio de 2018, lançou o seu primeiro livro de ficção intitulado "Singularidades de uma mulher de 40", que marca a sua estreia na escrita literária, sob a chancela da Origami Livros.

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