Tomar | Depois da polémica, Convento de Cristo mostra que não está destruído (c/vídeo)

Depois de uma semana a receber jornalistas, sente-se da parte dos funcionários do Convento de Cristo algum cansaço e indignação em torno do tema da polémica reportagem da RTP, no programa “Sexta à 9”, emitida a 2 de junho, que dava conta de que o monumento, em Tomar, ficara parcialmente destruído depois da passagem das filmagens de “O Homem que matou D. Quixote”. A diretora do Convento de Cristo quer agora mostrar que este não está destruído e convidou o mediotejo.net a visitar o monumento para ver os lugares onde passaram as filmagens. Três pedras partidas ou lascadas, algumas telhas recentes partidas e arbustos cortados, cujas raízes já estavam a danificar os canteiros, é o saldo que nos é mostrado. Somos também alertados que algumas das imagens da RTP, como a de uma cruz partida, são danos deixados pelo tornado de Tomar de 2010. 

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Pequenos estragos houve, ninguém parece querer escondê-los, mas o conservador do Convento de Cristo, Álvaro Barbosa, frisa que também não está a relativizá-los, como tem sido dito, apenas a contextualizar. A pedra está fraca e qualquer pequeno impacto, mesmo o da passagem de um turista, tem os seus efeitos numa estrutura com vários séculos e que já sofreu muitas intervenções.

O seu trabalho no monumento, explica, é fazer relatórios e inspeccionar a conservação da estrutura. Elogia o trabalho cuidadoso da produtora Ukbar, que está a produzir o filme do ex Monty Python Terry Gilliam, do qual tirou várias fotografias para registo futuro. Em 32 anos de trabalho no monumento já viu passar por aqui as filmagens de vários filmes.

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Logo à entrada do claustro principal (Claustro D. João III), esta é a pedra mais visivelmente marcada pelas filmagens. Há mais duas pedras com impacto semelhante, uma delas já se encontrava assim antes das filmagens, é-nos garantido. Foto: mediotejo.net

À chegada, perguntamos pela diretora do Convento, Andreia Galvão, questionando se não nos acompanha na visita e entrevista. Somos informados que está ocupada, mas que o objetivo do convite é sobretudo mostrar que o Convento não está destruído, ideia que parece ter sido deixada pela reportagem da RTP. Em plena época alta, com muitos turistas a visitar o espaço, Álvaro Barbosa lembra que logo no dia seguinte à reportagem um casal de brasileiros perguntou se o Convento estava mesmo a cair, porque queriam visitá-lo. E “há toda aquela agitação nas redes sociais”, constata o técnico superior. Fora estas observações e a passagem dos jornalistas, não tiveram mais nenhum impacto significativo da reportagem, admite.

Mas o filme de Terry Gilliam deixou efetivamente algumas marcas: no claustro principal há três pedras partidas (uma delas, explica-nos, já estaria assim antes do filme) na estrutura das colunas e no claustro onde foi filmada a famosa fogueira de 20 metros há também uma pedra lascada. Álvaro Barbosa repete, porém, que o mesmo dano podia ter sido causado por um turista que se sentasse na pedra. Estas pedras estão degradas pelo tempo e exposição e, exemplifica mostrando, há várias que já foram substituídas (nota-se de facto que junto à pedra degradada há outras mais recentes, resultado do trabalho de conservação e restauro).

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O responsável admite que estes pormenores possam ser difíceis de perceber para quem não está por dentro da evolução de um edifício tão antigo como o Convento de Cristo (começou a ser construído no século XII e levou ampliações e modificações até ao século XVIII, havendo também registo de outras obras no século seguinte) e frisa que não está a relativizar, apenas a contextualizar. “Eu expliquei os estragos, não estava a desvalorizar, mas a explicar o processo de degradação do edifício”. “A nossa intenção é mostrar às pessoas como é possível fazer uma coisas destas sem estragar o monumento”, sintetiza.

Famosa janela manuelina não terá sofrido qualquer dano da fogueira próxima, uma vez que esta não terá aquecido o suficiente para haver efeitos. Foto: mediotejo.net

Álvaro Barbosa não acompanhou a produção, fazendo simplesmente agora o balanço ao rasto que ficou da sua passagem. Afirma que também leu o relatório da produtora. Muitas das filmagens foram à noite, lembra, e “foi tudo controlado”. “Tudo foi feito em medida que não houvessem riscos”, frisa, inclusive a dita fogueira de 20 metros. Havia mecanismos no telhado para libertar água em caso de incêndio (daí as telhas partidas) e a pira não chegou a arder, ficando apenas chamuscada para fazer o efeito de fogo. “Trouxeram 40 botijas de gás, mas elas não estiveram ligadas ao mesmo tempo”, frisa. “O que ardeu de facto foram bicos de gás”. “O fogo que imaginam tinha dado cabo das lentes das câmaras de filmar”, constata.

Quanto às árvores cortadas, o responsável explica que eram arbustos plantados aquando da rodagem de outro filme, há cerca de uma década, e cujas raízes estavam a danificar os canteiros, pelo que já estava previsto retirá-los. A areia que se vê em várias fotografias que circulam nas redes sociais era uma camada protetora do chão do claustro, colocada por causa da fogueira para proteger o espaço.

Segundo Álvaro Barbosa, a areia que se vê neste foto foi colocada pela produção para proteger o piso do claustro, devido à fogueira Foto: DR

Na charola, onde a equipa de produção também filmou, foi instalada “uma parede falsa para proteger”, sendo que “o resto do espaço levou adereços para criar um cenário”. Segundo o conservador, não foram verificados danos. A RTP filmou ainda outras zonas danificadas no mosteiro, mas Álvaro Barbosa alerta que algumas dessas imagens são ainda vestígios do tornado de 2010, que atingiu fortemente Tomar e afetou na época o edifício.

Reportagem de danos graves no edifício atraiu a curiosidade de alguns turistas. Foto: mediotejo.net

À saída, indagamos informalmente na bilheteira se há muitos visitantes a perguntar pela reportagem da RTP. Dizem-nos que sim e que houve até quem viesse de propósito ver os estragos do edifício e constatasse que estava tudo na mesma.

Numa “declaração aos tomarenses”, a que a Lusa teve acesso, Andreia Galvão “tranquiliza” a população quanto à “integridade” do monumento Património da Humanidade, e que a rodagem do filme de Terry Gelliam foi “devidamente autorizada e monitorizada”.

Por outro lado, lamenta as “afirmações graves” proferidas nessa reportagem da RTP “por pessoas escondidas atrás do anonimato” e que “lançaram suspeitas” sobre si própria e sobre os colegas, “uma equipa de profissionais que se tem dedicado ao monumento”.

Estas razões foram “mais que suficientes para que o Ministério da Cultura/Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) – atitude que muito apreciei – tenha imediatamente iniciado um processo de inquérito que está em curso e cujos resultados aguardamos em 20 dias”, declarou. Andreia Galvão afirma acreditar que o resultado do trabalho da comissão de inquérito “clarificará todos os aspetos que envolveram este caso”.

Sobre o seu caso pessoal, a diretora do Convento de Cristo, que foi acusada de ter desviado funcionários para obras na sua residência, afirma que está disponível para prestar “às entidades competentes” todos os esclarecimentos sobre as “graves afirmações, que não correspondem à verdade”.

Em declarações à Lusa, Andreia Galvão afirmou que, em relação às suspeitas que foram lançadas sobre a sua pessoa, está a “tomar diligências para apurar responsabilidades”. Afirmações semelhantes já havia realizado também ao mediotejo.net.

Andreia Galvão disse que nestes dias viu a sua vida “devassada”, numa onda de “calúnia e perseguição”, que a levou a advertir um órgão local sobre a “ilegalidade” de filmagens feitas à sua residência.

A diretora do Convento de Cristo disse à Lusa que se reuniu na quinta-feira com os funcionários, para dar conta da “consternação pela forma como a ‘casa’, o património e os funcionários foram tratados” na reportagem televisiva, acreditando que as “origens e motivações que poderão estar por detrás deste caso” acabarão por se conhecer.

Dois dos funcionários disseram à Lusa que, nessa reunião, foi assinado um documento por todos os presentes manifestando vontade de apresentar uma queixa-crime no Ministério Público, tendo em conta que viram o seu “bom nome e reputação afetados pelo conteúdo do programa “Sexta às Nove”.

Já Álvaro Barbosa disse à Lusa que os funcionários, que se têm “dedicado muito” ao monumento, “estão tristes” com o retrato feito no programa. “Esta é uma cidade pequena e insinuações que surgiram na apresentação deste assunto foram de modo a prejudicar imenso as pessoas. Não se pode falar de suspeições e estar a apontar com muita insistência a câmara sobre esta ou sobre aquela pessoa, sobretudo porque isso cria uma imagem no público de que essa pessoa é suspeita de alguma coisa”, disse.

Em causa estariam alegados desvios de dinheiro nas bilheteiras, situação que Álvaro Barbosa, que dirigiu o convento durante oito anos, afirma que nunca foi alvo de qualquer denúncia interna, anónima ou não. Por outro lado, afirmou que os mecanismos de controlo da venda de bilhetes foram sendo aperfeiçoados ao longo dos anos, entrando a validação dos bilhetes automaticamente na base de dados da DGPC.

“Não posso ver onde é que haja algum motivo para suspeitar do pessoal. Quem disse essas coisas que se assuma e que o prove. Não é esconder-se por detrás de cabeleiras ou de situações de anonimato, e falar de qualquer maneira dos outros, prejudicando-os de uma maneira injusta”, declarou.

c/LUSA

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