Tomar: Carlos Carvalheiro, do Presépio à Fórmula de Deus

Carlos Carvalheiro. Foto: mediotejo.net

Conversar com Carlos Carvalheiro é quase como estar sentado na plateia e assistir a uma peça que vai muito além de factos biográficos. O espetáculo tem como tema o teatro e durante a entrevista, iniciada no bar do Hotel dos Templários e terminada na Quinta da Granja, ficámos a conhecer o percurso (abençoado, diríamos) do ator e encenador entre a interpretação de São José, aos cinco anos, e a recente estreia d’“A Fórmula de Deus”, aos 60. Os cenários foram-se sucedendo, incluindo o antes e o depois do 25 de Abril, as alterações na sociedade tomarense e o surgimento do grupo de teatro Fatias de Cá.

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A deixa para a nossa entrevista a Carlos Carvalheiro foi a recente estreia da peça “A Fórmula de Deus”, adaptada para teatro a partir do livro homónimo de José Rodrigues dos Santos que o deixou “sossegado” com a história do Criador. O espetáculo é levado a cena nos domingos de setembro na Quinta da Granja, em Tomar, e este domingo, dia 18, contou na plateia com o autor da obra.

Este é o momento do cair do pano por isso decidimos pegar na última cena, manter o concelho de Tomar como cenário e recuar 60 anos no tempo até à Rua Joaquim Jacinto, conhecida pela Rua da Judiaria, para assistir ao parto realizado pela parteira que morava em frente à casa dos pais do encenador.

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Uma vez concluído o trabalho da parteira, chegou a fase do “Jardim Escola” e a família, agora composta por quatro elementos, acabou por se mudar para uma casa na “parte nova da cidade”, onde a mãe assegurava a lida da casa e o pai regressava todos os dias da vida de comerciante n’”A Loja do Manel”. Não foi lá que nasceu o gosto pelas botas que lhe marcam a imagem há anos pois o negócio era de tecidos vendidos à medida.

O habilidade do pai em conquistar os clientes com dotes de “namoradeiro” era tão boa como a sua “para fazer asneiras sem intenção, mas que corriam sempre mal”. O segredo estava em conseguir fazê-las sem ser apanhado e livrar-se de “valentíssimas coças”. Se, por um lado, o nome do pai conquistou notoriedade através do espaço comercial, por outro, Carlos era conhecido pela alcunha de “zeta” (o “e” lê-se fechado com em “se”) que diz ser algo semelhante ao primeiro termo “técnico” para a hiperatividade infantil.

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Fotos: mediotejo.net
Fotos: mediotejo.net

Outro facto marcante da infância que Carlos partilha é a entrada na escola primária sem ter completado os seis anos de idade. Não para a primeira, mas para a segunda classe como “prémio” pelos ensinamentos recebidos no Jardim Escola João de Deus através da Cartilha Maternal. Ser o maior da turma teve consequências em todo o percurso escolar e até ao final da vida académica sentiu-se “um bocadinho fora de tempo”.

O “Jardim Escola” também lhe trouxe a primeira experiência teatral, que foi abençoada. Tudo começou com o nascimento do menino Jesus e a primeira interpretação como São José. A grande dificuldade, admite, foi manter-se quieto e o sentimento de frustração foi compensado por outro, o da paixão infantil pela colega que fazia de Maria e com a qual conseguiu formar um casal, ainda que por breves instantes.

A indiferença da esposa levou-o a fixar a atenção nos restantes intervenientes do Presépio e diz recordar-se de “olhar para aquela apresentação de uma forma crítica”. Alguns “não estavam a fazer aquilo bem”, outros “não deviam estar assim”. Conseguiu manter-se quieto a grande custo durante o espetáculo escolar e o bichinho nunca mais saiu, apesar de não ter ficado com a consciência de que o teatro se tornasse mais tarde em algo “tão importante e natural” para si.

A experiência artística repetiu-se nos tempos de liceu. Mais uma vez motivada pelo Natal, mais uma vez abençoada. O gosto pelo teatro já se tinha afirmado e o papel do professor “que marcou uma geração inteira no liceu”, Nestor de Sousa, foi fundamental para o desenrolar da história. Além da matéria, o docente levou para Tomar a experiência do TEUC – Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra, de que Carlos chegaria a fazer parte quando já estava “agarrado ao teatro”.

O TEUC revelou-lhe a ligação do meio artístico à luta partidária e foi no grupo de teatro estudantil que conheceu a UEC – União dos Estudantes Comunistas, criada em janeiro de 1972. O gosto pelo palco era superior ao interesse pelos bastidores da política e acabou por se sentir “desenquadrado” naquele ambiente. A persistência dos revolucionários na luta contra o fascismo manteve-se, assim como a de Carlos nas peças encenadas por Fernando Gusmão, que a censura aceitava ou proibia depois do “exame prévio” realizado no dia antes da estreia.

Fotos: mediotejo.net
Fotos: mediotejo.net

O país mudou em 74, ano em que atingiu a maioridade, e o teatro foi recebido com “euforia” nas aldeias na zona de Coimbra, como em tantas outras no país. Foi por ali que fez o “tirocínio” através dos espetáculos realizados a pedido do GRAAL, movimento social e cultural iniciado na Holanda em 1921 por um grupo de estudantes universitárias cristãs que chegou ao nosso país em 1957 com Maria de Lourdes Pintasilgo – natural de Abrantes e única mulher a desempenhar o cargo de primeiro-ministro em Portugal – e Teresa Santa Clara Gomes.

O GRAAL trouxe-lhe também a viagem a Itália e o contacto com Dario Fo, multifacetado artista italiano premiado com o Nobel da Literatura em 1997. A experiência confirmou ser o teatro a sua “forma preferencial de comunicação” apesar de já saber que não era a forma aceitável de sustento. Ao contrário de muitos, não foi a vida artística que se revelou de forma acidental na sua vida. Foi a carreira profissional ligada às ciências exatas e à docência.

Anos antes, ainda na adolescência, tinha partido da cidade templária para a cidade dos estudantes, indo ao encontro das expetativas dos pais e da comunidade local que “dividia os estudantes em três tipos. Os que iam para o liceu e seriam doutores, os que iam para a escola industrial e teriam trabalhos normais e os que ficavam na quarta classe”. Em tom irónico salienta que essas decisões asseguravam que “a sociedade ficasse estruturadinha como devia de ser”.

Nessa sociedade o estatuto conquistava-se através de um curso superior “vistoso” e a primeira opção foi a arquitetura. Perante a falta de consenso familiar propôs a Engenharia Eletrotécnica, conseguindo convencer os pais e assegurar “a mesada para ir fazendo teatro”. Nunca chegou a ser engenheiro, tornou-se professor de matemática e a profissão que hoje mantém não é encarada como uma personagem diferente da de ator e encenador pois interpreta a vida sempre da mesma maneira, independentemente do público estar sentado na plateia ou em secretárias.

Segundo Carlos, o teatro e a docência possuem “os mesmos mecanismos”, residindo a diferença na maneira como esse público é exposto à situação (concordamos, a participação nas aulas não é tão “voluntária”). Em ambos os casos predomina a vontade das pessoas estarem juntas, a mesma vontade que o 25 de Abril veio reforçar ao assumir-se como a “festa do reencontro” que equilibrou o papel de “válvula de escape” do povo estimulada pelo regime e o “instrumento de contestação política”.

As aulas começaram “por mero acaso” em Tomar, ao ficar colocado no concelho quando a mãe entregou os papéis para que ele substituísse uma professora a meio do ano letivo. Estávamos em plena despedida da década de 70 e foi algures nos últimos 12 meses que surgiu o Fatias de Cá, quando um grupo de dissidentes da coletividade Gualdim Pais, “conotada à esquerda”, decidiu fazer uma atividade cultural na coletividade Nabantina “conotada à direita”.

Fotos: mediotejo.net
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Do “ajuntamento de meia dúzia de pessoas” resultou o “espetáculo revivalista” com o nome do grupo teatral em que se homenageava Nini Ferreira (Fernando Araújo Ferreira). O sarau cultural sobre a figura de relevo da sociedade tomarense ligada ao teatro e à escrita, entre outros, e responsável pelo reacordar da emblemática Festa dos Tabuleiros foi um sucesso e a partir daí nasceu “o teatro, o coro e o jornal”.

A docência permitia-lhe ter tempo para os palcos – mesmo quando esteve colocado no Entroncamento e em Pombal e – uma vez superada a “zanga” com a vida artística quando percebeu “que não era a via”, acabou por frequentar o curso de teatro na Escola Superior de Teatro e Cinema quando ainda era Conservatório Nacional, ou seja, antes de 1983. Mais tarde, acrescentar-lhe-ia um mestrado na mesma área.

Seguir o caminho fácil “do que está na moda e do fogo-de-artifício”, que deixam o povo boquiaberto e facilmente o conquistam, nunca foi ponderado ao longo do tempo em que a dorzinha de barriga nos minutos que antecedem a entrada em cena foi desaparecendo. Mais do que entretenimento, Carlos defende que o teatro deve assumir-se como estímulo ao sentido crítico do público e, no caso das escolas, levar os alunos a pensar além das matérias lecionadas e a encarar a escola como algo mais do que “uma espécie de trampolim para ter um emprego”.

Entre os pormenores que distinguem o grupo fundado em 1979 é a realização de espetáculos em locais menos convencionais. Seja numa sala de tribunal, numa destilaria ou em monumentos como o Castelo de Almourol ou o Convento de Cristo, as peças têm ganho vida própria. Neste caso, surge a revelação de que a escolha é “mais vezes circunstancial do que propositada”, gerada sobretudo pela inexistência de palcos com a disponibilidade pretendida.

O público atual tem mais tempo e dinheiro, quer ver coisas diferentes, e um grupo que apenas se reúne ao fim-de-semana tem necessidade de lhe dar algo que possa ser “repetível” sem se tornar “monótono”. Em suma, o traço caraterístico não surge numa ótica de rutura, mas sim de sustentabilidade que os subsídios não oferecem pois, segundo Carlos, “funcionam como um mecanismo de lobby” e alimentam uma máquina “subordinada a diversos tipos de interesses”.

Fotos: mediotejo.net
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Os anos e os espetáculos foram-se sucedendo, ultrapassando os dois milhares até à data e atualmente assegurados por uma equipa nuclear com cerca de 80 elementos que já “perdeu a peneira de fazer coisas que gerem muito dinheiro”. Preferem fazer “algo que fique registado na memória, que ajude cada um a encontrar-se” sem a necessidade de afirmação pessoal que, na sua opinião, motiva muitos protagonistas de telenovelas e filmes.

Fala-se em cinema e chega-se ao ato mais recente, com a transformação em takes de algumas das cenas que marcaram o trajeto do grupo teatral. Em frente às câmaras já estiveram as peças “Ligações Perigosas”, Tanegashima”, “Corto Maltese”, “Ricardo III” ou “Lear”, a última ainda em gravações.

O objetivo não é ganhar um Óscar, mas preservar histórias na tela que o palco já imortalizou na memória de quem esteve presente. Em qualquer um dos casos, o público será sempre senhor da palavra final e, segundo o encenador tomarense, é conquistado quando esqueceu a realidade por instantes e “foi bem enganado”.

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