Tomar: “Biblioteca de Temas Linhaceirenses” e a memória colectiva da Linhaceira

A “Biblioteca de Temas Linhaceirenses“, uma página na internet que é alimentada diariamente com memórias da aldeia da Linhaceira, em Tomar,  ultrapassou as 100 mil visualizações no fim-de-semana de 12 e 13 de novembro.  Para celebrar o acontecimento, foram sorteados lotes constituídos por três livros publicados no âmbito deste projecto: “Linhaceira e as suas escolas”, “História de Asseiceira em miúdos” e “O dia em que choveu pétalas”.

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O mediotejo.net foi descobrir mais sobre este “projecto de recolha e preservação da memória colectiva da aldeia de Linhaceira e da freguesia de Asseiceira” criado em 24 de Março de 2013 no âmbito da comemoração do Centenário das Escolas na Linhaceira. Como tal no domingo, 13 de novembro, a pretexto da Comemoração do São Martinho, foi organizado pela Associação de Pais um convívio onde, às castanhas e à “agua-pé” se juntou a História de uma aldeia e da própria freguesia de Asseiceira, patente também na actuação da Escola de Brincadeiras Tradicionais do Rancho Folclórico local.

Carlos Ferreira, presidente da assembleia da Associação de Pais da Linhaceira e que ocupa o mesmo cargo na Associação Cultural e Recreativo da Linhaceira, considera que há um esforço contínuo por parte das duas associações para desenvolver iniciativas que promovam o colectivo e para se conseguirem melhorias na freguesia. “O que se faz é para bem de todos,  é para o bem de uma região”, refere.

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Miguel e Nuno Garcia Lopes, pai e filho, partilham o mesmo gosto pela investigação. A Biblioteca de Temas Linhaceirenses não existia sem as diligências efectuadas pelo primeiro e que tiveram seguimento pelo segundo. “Tudo isto surge pela vontade de conhecer o passado de uma aldeia que é atualmente a maior da freguesia. Do século XX para trás pouco se sabia em relação à aldeia”, refere Nuno Garcia Lopes, acrescentando que o seu pai já tinha esta vontade, há muitos anos, reflectida em algumas pesquisas que levou a cabo, nomeadamente, junto do arquivo da paróquia.

“Mesmo os registos paroquiais só foram consultados porque o padre guardou os livros. Porque muitas coisas se perderam e outras tinham como destino os Arquivos Nacionais ou Distritais. Descobrimos na pesquisa que alguns registos locais foram feitos em duplicado”, contam ao mediotejo.net.

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Na tentativa de chegar ao rasto dos primeiros linhaceirenses, sucedeu-se o trabalho de pesquisa e o novelo foi-se desenrolando. “O primeiro registo de casamento que encontramos, da freguesia, é de 1706 e, portanto, para trás conseguimos andar cerca de 50 anos porque é feita a referência aos pais e avós. Mais do que isso é impossível”, conta Nuno Garcia Lopes.

Em dia de festa, foi divulgada no blog “Biblioteca de Temas Linhaceirenses” uma descoberta inédita: entre 1650 e 1670, terão nascido aqueles que são muito provavelmente os linhaceirenses conhecidos que hoje têm mais descendentes: Marcos Lourenço e Margarida Vaz. A descoberta foi fruto do trabalho de investigação genealógica que tem sido levado a cabo por Miguel Garcia Lopes, sendo possível identificar este casal como seu ascendente nove gerações antes.

“Conseguimos descobrir que há um casal, os pais do noivo desse casamento de 1706. Há cinco casamentos de filhos deles e há 29 netos registados. Isso significa que, numa altura em que as pessoas eram muito menos, a maioria de nós, linhaceirenses, descendemos deles”, atesta Nuno Garcia Lopes.

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Escola de Brincadeiras Tradicionais actuou durante a Feirinha de São Martinho Foto: mediotejo.net

A partir de um determinado momento, a genealogia é apenas uma vertente da Biblioteca de Temas Linhaceirenses, que se começa a alargar. Quando o blog foi lançado, a 24 de março de 2013 (data em que se celebrava a data do primeiro centenário da 1.ª deliberação de câmara de Tomar para construir uma escola na Linhaceira) era para estar em actualização durante um ano. Neste momento, o objectivo passa por estar vivo pelo menos até 2018, data em que se celebra o centenário da entrada em funcionamento da primeira escola local e em que se espera que seja inaugurado o Centro Escolar da Linhaceira, se tudo correr dentro do previsto.

“Os leitores têm colaborado e o blog já vai em mais de três anos e meio, sendo atualizado diariamente com histórias mais recentes ou mais antigas. A importância dos jornais locais é de destacar, sendo que na década de 50/60, houve uma época muito boa em que o presidente da junta de freguesia, Manuel Martins Cobra, era colaborador do Jornal “Cidade de Tomar” pelo que havia muitos artigos sobre a Linhaceira neste semanário”, atesta Nuno Garcia Lopes. Neste momento, o mínimo diário de visualizações é quase sempre superior a cem pessoas, com o número de visualizações a crescer exponencialmente.

 

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Blog está activo há mais de três anos e meio, sendo atualizado diariamente Foto: mediotejo.net

Há muitas histórias para contar, reveladas ao longo destes últimos três anos e meio. Nuno Garcia Lopes partilha que uma das descobertas mais importantes reside num episódio que estava um pouco à vista de todos, mas em que ninguém tinha reparado: em 1527 e 1532 – altura em que aconteceu o primeiro recenseamento em Portugal – encontra-se nesse documento a referência aos “Casais da Mynhaxeira”, que supostamente seria o topónimo então em uso.

Porém, Nuno Garcia Lopes veio, pouco tempo depois, a descobrir num livro que encontrou na Biblioteca Municipal de Tomar – “Tomar, Santa Iria”  –  a referência ao Porto de Linhaceira, em 1530. “Isto significa que ou houve um erro de transcrição para esse documento nacional ou então Linhaceira era um nome que já existia, junto ao Rio, onde existiu um porto que tinha uma importância relativamente grande”, explica. Esta descoberta revela que o nome da aldeia da Linhaceira vinha de há muito.

Nuno Garcia Lopes refere que este trabalho de investigação histórica é importante no sentido de contribuir para que as gerações mais novas possam daqui beber conhecimento sobre as suas raízes. O objectivo passa, um dia, por transformar esta biblioteca virtual num espaço físico, eventualmente numa escola que venha a ficar devoluta com a entrada em funcionamento do tão ambicionado Centro Escolar.

“O mundo inteiro está em choque com os resultados eleitorais na América. No meu ponto de vista, uma das razões principais deste resultado é a falta do conhecimento histórico dos eleitores. Por exemplo, boa parte das pessoas que votaram no Donald Trump são  descendentes de imigrantes. E votaram num homem que é contra a imigração. A importância da História, nos nossos dias, é fulcral para compreendermos o passado e o presente. Quando resgatamos o passado, não é apenas para ficar com arquivos históricos mas também para que as nossas crianças – conhecendo o seu passado –  se consigam guiar para o futuro”, remata Nuno Garcia Lopes.

 

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Elsa Ribeiro Gonçalves
Aos 12 anos já queria ser jornalista e todo o seu percurso académico foi percorrido com esse objetivo no horizonte. Licenciada em Jornalismo, exerce desde 2005, sempre no jornalismo de proximidade. Mãe de uma menina, assume que tem nas viagens a sua grande paixão. Gosta de aventura e de superar um bom desafio. Em maio de 2018, lançou o seu primeiro livro de ficção intitulado "Singularidades de uma mulher de 40", que marca a sua estreia na escrita literária, sob a chancela da Origami Livros.

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